quinta-feira, 10 de abril de 2008

O evangelho de Lucas - parte 20

Interessado como era pelos fatos históricos paralelos à narrativa da vida de Jesus, Lucas começa o capítulo 13 situando alguns dados que deviam ser de conhecimento dos seus leitores, em especial de Teófilo, a quem dedica o seu evangelho. O primeiro desses acontecimentos é uma rebelião de galileus que Pilatos havia reprimido (vv. 1-2). É muito provável que Lucas esteja se referindo aqui a outro episódio que também lista em Atos 5:37, no discurso do mestre fariseu Gamaliel junto ao Sinédrio, em que ele pede a libertação dos cristãos na primeira prisão deles pelos judeus. Na sua fala, Gamaliel, que muito provavelmente o mestre de Paulo, a que ele se refere em Atos 22:3, lembra de um certo Judas Galileu, que "John Gill's Exposition of the Entire Bible", diz ter provocado uma rebelião durante a época da Páscoa, e, estando em Jerusalém ele e seus homens, foram mortos por Pilatos, e sangue deles foi misturado ao sangue dos sacrifícios que escorriam pelas canaletas próprias do templo. Não se sabe exatamente do que se trata o episódio da queda da torre de Siloé, que matou 18 pessoas (v. 4), mas provavelmente era uma torre próxima ao tanque de Siloé (João 9:7). Deve ter sido um grave acidente que matou muita gente e teve grande repercussão na época. O que Jesus está querendo apontar aqui é que tanto em um como em outro caso, as pessoas imaginavam que eles haviam sido mortos por algum castigo de Deus, por serem mais pecadores que os outros, não importando se haviam sido mortos por rebelião ou pelo acaso. Jesus diz que eles não eram mais pecadores do que ninguém, e o que realmente importava era se haviam se arrependido ou não (v. 5). O chamado (e mais do que o chamado, a resposta a ele) ao arrependimento era essencial para a salvação e a entrada no reino de Deus. Talvez os ouvintes de Jesus quisessem indagá-lo sobre alguma missão política que ele tinha. Já houve quem especulasse se não se tratavam dos amigos de Judas Iscariotes que estavam "testando" Jesus para saber se havia alguma perspectiva de um reino de Deus terreno, materialista, em que o império romano seria derrotado pela força das armas ou de algum milagre de Deus que lhes fora conveniente.

Em seguida, Jesus profere a parábola da figueira estéril (vv. 6-9), insistindo em que a figueira, após três anos, deveria dar fruto, senão seria cortada. O interessante é que se trata de uma figueira plantada em uma vinha (v. 6), e quem cuidava dela era o viticultor (v. 7). Era plantada numa vinha que tinha melhor solo e melhor cuidado, mas não exatamente no meio da vinha, mas ao lado, na sua margem, como Mateus 21:19 mostra o costume de se fazer isso. Era uma figueira que tinha todas as condições de crescer, desenvolver-se e produzir figos, mas em três anos ainda não tinha feito isto. O dono da vinha pretendia cortá-la simplesmente, mas o viticultor pediu-lhe que desse mais uma chance (um ano) à figueira, tempo em que ele a cuidaria melhor ainda para que produzisse, e se não produzisse, seria cortada. Primariamente, esta parábola mostra que Jesus está se referindo a Israel, ao povo escolhido, que não havia dado frutos, mas também podemos aplicá-la à vida cristã, pois somos "figueiras" plantadas na vinha (igreja) de Deus, e devemos produzir frutos para Sua honra e glória. A idéia, portanto, repete o que Jesus havia dito no capítulo anterior (12:48), "àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido", ou seja, maior privilégio implica em maior responsabilidade. Depois disso, Jesus vai a uma sinagoga no sábado para ensinar, e Lucas, como bom médico, relata a história de "uma mulher possessa de um espírito de enfermidade, havia já 18 anos" (v. 11), que andava curvada e não podia endireitar-se. Jesus cura a mulher (v. 13) e o chefe da sinagoga se indignou com Ele por tê-la curado num sábado (v. 14), ao que o Mestre replica chamando-o de hipócrita, pois cuidava dos seus animais no sábado, mas não queria permitir que uma filha de Abraão fosse curada no dia sagrado para os judeus (vv. 15-16). Diz Lucas que "os seus adversários se envergonharam" ante a sabedoria e, principalmente, a autoridade de Jesus (v. 17), e a multidão se alegrava com os seus milagres, pelo que Ele, em seguida, compara o reino de Deus a um grão de mostarda que, mesmo sendo pequeno, uma vez plantado, cresce e se faz árvore, dando abrigo às aves do céu (vv. 18-19). Jesus retoma, ainda, a idéia e o simbolismo do fermento, que pouco antes (12:1) havia associado aos fariseus, dizendo que o fermento deles era a hipocrisia. Desta vez, entretanto, usa a imagem do fermento como algo bom, comparando-o ao reino de Deus, que vai crescendo lentamente até que tome conta de tudo (13:20-21).

Ainda no caminho para Jerusalém, Jesus percorre várias cidades e aldeias (v. 22), até que alguém lhe pergunta se eram poucos os que se salvariam (v. 23), ao que Ele responde que a porta da salvação é estreita, e muitos tentariam entrar por ela, mas não conseguiriam (v. 24), complementando com outra parábola (vv. 25-30), comparando Deus com o dono da casa que, uma vez fechada a porta, não a abriria mais para aqueles que o importunassem. Jesus dá a idéia de que esses que procurariam entrar depois de fechada a porta eram aqueles que comiam e bebiam em Sua presença, como se acompanhassem o ministério de Jesus apenas por curiosidade e pelo alvoroço (e talvez pela fama) popular, sem nenhum comprometimento ou seriedade. Mateus deixa esta idéia mais clara:

Mat 7:22 Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitos milagres?
Mat 7:23 Então lhes direi claramente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.


No v. 28, Jesus deixa clara também a idéia de consciência do que está acontecendo no mundo dos mortos, ao dizer "quando virdes, no reino de Deus, Abraão, Isaque, Jacó e todos os profetas, mas vós lançados fora". Isso tinha uma implicação muito profunda para os fariseus que o ouviam, já que eram orgulhosos de sua descendência judaica, e a consideravam suficiente, por si só, para justificar sua presença ao lado dos patriarcas e profetas no reino de Deus. Entretanto, Jesus os assusta ainda mais quando diz que muitos viriam de todos os cantos do mundo para sentar-se à mesa do reino de Deus (v. 29), pois há muitos que se julgam primeiros, que serão os últimos, e muitos que os primeiros julgam ser os últimos, que serão os primeiros (v. 30). Apesar desta animosidade dos fariseus para com Jesus, é curioso que, logo após Jesus ter proferido esse duro discurso contra eles, alguns fariseus tenham vindo para avisá-lo que Herodes pretendia matá-lo (v. 31). Muito provavelmente, Jesus se encontrava na região controlada por Herodes, a Peréia, e pode ser que esta "boa ação" dos fariseus tenha sido também hipócrita, já que preferiam conspirar contra Jesus numa região em que eles tivessem mais poder e influência, como a Judéia. Talvez o próprio Herodes tenha mandado avisá-lo porque não queria se envolver numa crise com outro profeta. O fato de ter matado João Batista certamente já lhe causara muitos problemas. O Mestre desdenha da ameaça (v. 32), porque sabe que, inapelavelmente, o seu caminho até Jerusalém já está traçado (v. 33), e não havia mais ninguém que o impediria de chegar até lá e cumprir sua missão. Mesmo assim, Jesus chora por Jerusalém, comparando-se à galinha que zela e cuida dos seus pintinhos, mas esses não a querem (v. 34). Muitos vêem no fato de Jesus referir-se a Herodes como raposa (v. 32) uma bela alegoria profética de Cantares de Salomão 2:15, em que a esposa pede que se apanhem as raposas, "as raposinhas, que devastam os vinhedos, porque as nossas vinhas estão em flor". Herodes era a raposa que queria devastar o vinhedo da nova aliança proposta por Deus aos judeus e ao mundo, mas as vinhas já estavam em flor e nada poderia impedi-las de produzir o bom vinho, o sangue de Jesus, destinado à salvação do mundo.

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