sábado, 1 de novembro de 2008

A apologia do profano


Dicionário Houaiss:


Profano:


Acepções

■ adjetivo

1. que não pertence ao âmbito do sagrado - Ex.: coisas p.

2. que é estranho, que não pertence à religião - Ex.: elementos p. penetraram no santuário

3. que deturpa ou viola a santidade de coisas sagradas - Ex.: atitude p. diante da Bíblia

4. que não é religioso; leigo, temporal, secular - Ex.: instituição p.

5. que não tem finalidade religiosa; mundano


Sinônimos - ver sinonímia de secular

Antônimos - sacro, sagrado; ver tb. antonímia de secular


A coisa no meio dito "evangélico" anda tão desavergonhada, que tem até pastor vendendo consórcio "em nome de Jesus", expressão tão bela e pura que está sendo transformada em mais um dos inúmeros chavões evangélicos que assolam a Igreja no Brasil, ao lado de "palavras mágicas" como "nova unção", "noiva", "apaixonado" e outras do gênero. Meus 45 anos de vida (25 como cristão) muito bem vividos, diga-se de passagem, me dão a convicção empírica de que determinadas atitudes reprováveis e/ou reprimidas por muito tempo, se a pessoa não muda (ou se converte) efetivamente, tendem a se tornar aberrações. Infelizmente, boa parte da igreja evangélica brasileira está sendo consumida pela voracidade das heresias travestidas de piedade, profanando o sagrado, como Paulo havia predito a Timóteo:

2Ti 3:1 Saiba disto: nos últimos dias sobrevirão tempos terríveis.
2Ti 3:2 Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios,
2Ti 3:3 sem amor pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem,
2Ti 3:4 traidores, precipitados, soberbos, mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus,
2Ti 3:5 tendo aparência de piedade, mas negando o seu poder. Afaste-se também destes.

O interessante é que este descaramento da pastorzada - que, além de não merecerem o título de pastor, desprezam a importância do nome (e do sacrifício) de Jesus - começa a ser percebido inclusive pela imprensa secular (aquela que, pela sinonímia acima referida, deveria ser profana), como é o caso deste artigo do Ricardo Feltrin no UOL, que merece ser transcrito:


29/10/2008 - 15h46


Pastor usa nome de Jesus para fazer 'merchan' de consórcio na TV

Ricardo Feltrin

Colunista do UOL


Se existe uma "vítima" da chamada Teologia da Prosperidade ela é a própria palavra escrita na Bíblia. Essa teoria (ou prática teológica) tem se disseminado de forma surpreendente, e é defendida por evangélicos que crêem - a grosso modo - que Deus tem algum tipo de dívida para com o ser humano, ou que tem uma espécie de acordo (com ares de obrigação inescapável) de dar-lhe riqueza e felicidade caso a pessoa realmente tenha fé e o queira. A contrapartida geralmente é o fiel desembolsar alguma riqueza própria (dinheiro) em troca da riqueza maior futura.

O pastor evangélico Marco Feliciano, do Ministério Tempo de Avivamento, leva a teoria às últimas consequências em site e em programa na Rede TV. Enquanto garante que Deus atenderá a todos os pedidos de "fiéis", "perseverantes" ou "valentes", ele aproveita e vende cursos de teologia, DVDs, CDs de músicas e camisetas. Até aí, ok, nada demais. Mas ele também usa o nome de Jesus em merchandisings.

Segundos após realizar uma oração inflamada (que inclui palavras de língua desconhecida), pastor Feliciano ressurge como garoto-propaganda no mesmo cenário para vender um consórcio de casa própria, o GMF Consórcios.

"Você realiza, então, em nome de Jesus, o sonho da casa própria", diz o pastor.

Bíblia, hermenêutica e edição

Os pastores e bispos adeptos da teologia ou teoria da prosperidade fazem uso da hermenêutica na leitura da Bíblia para garantir que o que estão fazendo não viola as regras de Deus ou de Jesus. Trata-se de uma espécie de "edição" de conteúdo: cada um usa a Bíblia da forma que lhe interessa.

Senão vejamos: a orientação divina para que os humanos não se percam em desejos materiais em detrimento ao amor por Deus está citada duas vezes, de forma muito semelhante, em dois diferentes Evangelhos.

Em Lucas, 16:13, lê-se: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas."

Da mesma forma, em Mateus 6:24, está: "Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamom".

Por outro lado há outro trecho em Lucas , 11:9, que diz que ao pedir algo a Deus, o fiel simplesmente receberá o que deseja (de acordo com o merecimento e fé, pressupõem-se). Mas sem precisar fazer um carnê de desafio com uma igreja. Sem intermediários.

"Por isso eu digo: peçam e vocês receberão; procurem e vocês acharão; batam, e a porta será aberta para vocês." No caso do pastor do "merchan", a porta começa com um consórcio para a casa própria.


(PARA VER O TRISTE VÍDEO, CLIQUE AQUI)


Quando o profeta Balaão vendeu-se a Balaque (Números 22), Deus usou uma jumenta para adverti-lo. Na sua insensatez, preocupado que estava em locupletar-se com o sagrado, Balaão nem se deu conta de que estava travando um diálogo acalorado (e estapafúrdio) com uma jumentinha. Quando os pseudo-profetas se rendem ao consumismo desenfreado, e quando o povo de Deus se cala diante de tanta indecência, o Senhor levanta outras vozes para expô-los ao ridículo.

A aberração, a indecência, e a indiferença e o desprezo pelo sagrado (ou seja, o profano), estão se transformando na marca registrada de uma parte enorme da igreja evangélica brasileira. Isto precisa ser combatido e denunciado, pois é assim que a população nos vê, misturados a esses mercadores das coisas santas, a esses atiradores de pérolas aos porcos, e precisamos nos separar desta gente que envergonha o evangelho (e o nome) de Jesus. Ou fazemos isso, ou animemos esses mercadores a usarem o - muito mais apropriado - nome de Esaú:

Hebreus 12:14 Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor.
12:15 Cuidem para que ninguém se exclua da graça de Deus, nem alguma raiz de amargura brote e cause perturbação, contaminando a muitos.
12:16 Não haja nenhum imoral ou profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu os seus direitos de herança como filho mais velho.
12:17 Como vocês sabem, posteriormente, quando quis herdar a bênção, foi rejeitado; e não teve como alterar a sua decisão, embora buscasse a bênção com lágrimas.


O próximo merchan evangélico provavelmente será o Disk-Donkey:

Ligue para nossa jumenta, que te mandamos um prato de lentilhas, em nome de Esaú...


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