quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

As crônicas de Marvin - 01

Olá para todos.

Bem, a história abaixo foi criada como uma crítica. É engraçada sim, mas eventualmente há uma moral por trás desta história, que pretendo publicar semanalmente. Ela acontece no futuro, por diversos fatores. Espero que gostem, e opinem se puderem.







Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim. – Atos 17:11




O versículo de Atos 17:11 deveria ser colocado em um quadro, e pendurado na porta de todos aqueles que se consideram cristãos. Infelizmente, se eu tivesse prestado mais atenção nisto, não teria sido enganado toda a minha vida.
Meu nome é Marvin. Eu não costumava ser uma pessoa vingativa até descobrir que fui enganado, isto no ano de 2050. Sempre fui uma pessoa tranquila, e sempre gostei de trabalhar com meus circuitos eletrônicos. Para mim sempre foi fascinante misturar eletrônica com biologia, e a nova onda de estudos do cérebro me chamaram muito a atenção. Meu novo desafio era controlar algo, como por exemplo um carrinho de controle remoto, somente pelo pensamento.
A vida de um nerd isolado do mundo pode algumas vezes ser monótona, principalmente quando a solidão resolve bater na porta. O nerd gosta muitas vezes de se dedicar àqueles milhões de hobbies que ele possui, mas muitas vezes também ele se vê obrigado a se dedicar a eles. Aquilo acaba sendo um refúgio para alguém que está incapacitado a conviver socialmente. Era um mundo à parte.
Então acredito que seja este o motivo de eu ter aceitado tão prontamente um mundo à parte diferente. Estava eu em minhas crises existenciais quando bateram em minha porta. Eram as testemunhas de Jeová pregando as boas novas do Reino. Falavam sobre sofrimento, dor, reino de Deus, mais um pouco de sofrimento, mais um pouco de dor, Armagedon, muito mais dor do que antes, Escravo, coisas do tipo. Ainda não tenho certeza sobre os motivos que me levaram ao doloroso estudo. Talvez porque as duas jovens sorridentes em minha frente tenham reagido à minha carência social, principalmente afetiva.
Já no meu primeiro estudo eu descobri que havia sido enganado. Vieram dois rapazes ministrar o estudo, e não as duas jovens sorridentes. Boa isca usaram eles, pensou o trouxa aqui. Mesmo assim, continuei o estudo, porque havia me interessado, e estava cada vez mais interessado no assunto.
Estava sempre aprendendo coisas novas, mas eu perguntava bastante. Era o tipo do estudante chato. Por exemplo, aprendi que não devíamos praticar esportes que oferecessem risco à nossa vida, e também que no paraíso, podemos morrer, e Deus nos ressuscitará instantaneamente. Então perguntei se finalmente no paraíso eu poderia pular de bungee-jump ou participar de um paint-ball. Foi uma pergunta difícil eu reconheço. Meus instrutores nunca mais me olharam com bons olhos.
Talvez por isto, eu tenha trocado de instrutores várias vezes. Não é muito motivador ser tratado como lixo espiritual, sendo deixado como cumprimento de tabela de quem está mais livre. Afinal de contas, o fato de perguntar coisas como as acima, demonstrava que eu não estava tendo uma progressão espiritual, expressão esta muito espírita para um tejota. Mesmo assim, continuei meu estudo, eu sempre fui insistente.
Assim, me batizei, e pude finalmente participar mais ativamente da comunidade, com as horas contadas e tudo mais. Ainda era visto com desconfiança pelos outros irmãos, talvez por isto eu sempre tinha que lavar o banheiro quando nos juntávamos para limpar a congregação. As duas irmãs que bateram em minha porta, porém, me tratavam de forma especial. Recebi delas o apelido (em segredo) de “o tarado da rua 10”, só porque fiquei babando por elas naquele dia. Isto dificultava um pouco minha entrada na lista dos casáveis, além de minha imagem e condição financeira não permitir. Mas participar desta lista de casáveis era como participar de uma novela mexicana, tem intrigas, traições, puxões de tapete... Eu não estava preparado para aquilo não.
Me lembro que fiquei muito nervoso em meu primeiro comentário... Não me lembro do que eu tinha dito, só me lembro que tinha algumas palavras como “não fazemos parte do mundo”, me lembro de ter falado do Escravo Fiel e Discreto, “Escravo” para os mais íntimos. Também me lembro do “ensino salutar”... Hoje percebo que poderia ter programado em meu Palm Top um gerador de comentários bíblicos perfeito! E minha primeira celebração da Refeição Noturna? Eu fiquei olhando o pessoal passando os pratos com o pão e vinho, como cachorro assistindo churrasqueira de padaria. Hoje penso que se eu fui lá só pra ver o pão e o vinho, por que não me mandaram a foto por email? Talvez uma vídeo-conferência...
E meus serviços de campo? Me lembro que uma vez, fui com um irmão na casa de certa pessoa, que após nos cumprimentarmos e explicarmos nossos motivos para a visita, pediu a Bíblia emprestado. Então, ele abriu em Revelação, capítulo 18 versículo 4 e disse: “Sai dela, povo meu”. Então explicou que não poderia dar ouvidos à Babilônia, a Grande, o império da religião falsa, fechando a porta em nossa cara. Outra vez eu estava com um irmão que havia ficado empolgado com o testemunho da última Reunião. Alguém disse que havia pregado para o cachorro de um homem que não quis os atender, o que despertou a curiosidade do senhor, que resolveu ouvir o que os irmãos tinham a dizer, estudou e se batizou. Bem, este meu irmão fez a mesma coisa na casa de alguém: pregou para o cachorro! Não demorou muito para o carro da polícia, chamado pelos habitantes da residência (que estavam com medo por sinal), chegar e levar o irmão para um hospital psiquiátrico mais próximo. Outra vez ainda, batemos a porta na casa de um punk. Ele tinha tomado todas no dia anterior, e ficava fazendo uns grunhidos muito estranhos, que o irmão ao meu lado interpretou como uma conversa satânica, e nunca mais aparecemos por lá. Sempre havia alguma história para contar.
Bem, estava feliz da vida... Então, por que disse que fui enganado?
Eu estava estudando na faculdade, contra a vontade de todos. E ali conheci uma garota por quem me apaixonei. Mais de 80% dos apóstatas iniciam sua vida de apostasia com uma paixão. Começamos a sair juntos, infelizmente para que eu pagasse as contas dela (a vida de um nerd é mesmo uma droga). Alguns irmãos descobriram que eu estava saindo com esta moça. Acho que a Torre de Vigia deve possuir uma agência de espionagem internacional ultra-secreta, com espiões espalhados por bares e motéis de todo o mundo. Puxa, é incrível como eles descobrem com tanta facilidade com quem você saiu, quanto pagou, a religião da pessoa, quem foram seus ancestrais. Tudo. Eles só não conseguem descobrir ainda se uma criança foi violentada ou não, mas nos outros casos, o nível de detalhes é invejável.
Então, alguns irmãos descobriram isto. Não demorou muito para haver a grande batalha de manipuladores: Kátia, a moça em questão, e a Torre. Eu estava me sentindo muito mundano nestes dias, e resolvi defender a Kátia, embora as doações voluntárias semanais da Torre fossem mais baratas que as doses de uísque da Kátia.
Foi buscando informações em sites apóstatas que comecei a duvidar do que eu estava acreditando (paradoxal, não?). Muita coisa que não me foi dita estava ali. Rapidamente busquei em sites mais neutros as mesmas informações, e as obtive. Como fui enganado por todo este tempo? Tive muita raiva de mim, tive mais raiva daqueles que enganavam. Assim, comecei a arquitetar um plano de vingança bem elaborado. A maioria das vezes é ruim ser nerd... Mas desta vez, eu provaria o contrário.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Caim e Abel, um clamor por justiça


A história de Caim e Abel é uma das mais conhecidas da Bíblia, mas também umas das menos exploradas em seu significado. 

Há muito mais lições ali do que a nossa vã filosofia consegue captar. 

Independentemente de se considerar esta história como fato histórico, mito ou símbolo, não se pode ignorar que é o primeiro assassinato registrado na Bíblia. 

É também o primeiro registro do sacrifício ritual de um cordeiro (Gen 4:4), depois que Deus matou um animal para fazer vestes para cobrir a nudez de Adão e Eva (Gen 3:21). 

Há aí uma estranha ligação entre o sangue e a relação com o divino, algo que está marcado indelevelmente na humanidade. 

No homicídio cometido por Caim há uma indiferença, um alheamento,  um "nada" existencial, muito ligado à ideia ainda nascente de liberdade. 

Não há empatia dele para com o irmão. A morte de Abel não lhe significa nada, a ponto de, indagado por Deus sobre o paradeiro do irmão, respondeu-lhe sarcasticamente com outra pergunta: "Não sei; sou eu o guarda do meu irmão?" (Gen 4:9). 

Caim não havia percebido que era SIM o guardador do seu irmão, que a vida de outro semelhante devia ser importante para ele, que tinha uma noção deturpada da liberdade, como se fosse livre para fazer o que quisesse, sem nenhuma implicação moral. Devia, sim, buscar o equilíbrio entre a sua liberdade e o cuidado com o outro.

Segundo o relato bíblico, Deus então lhe responde: "Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra" (Gen 4:10). 

De novo o sangue está presente, não só como um sacrifício de um ser humano, praticado morbidamente pelo próprio irmão, como também um grito por justiça. 

Justiça é este misterioso conceito que nenhum filósofo conseguiu definir com precisão até hoje, talvez porque tenha a ver com a empatia que temos em relação ao outro, na possibilidade da indiferença para com o sofrimento alheio. 

É interessante, também, que o sangue derramado na terra tenha esse poder de clamar por justiça, e a Bíblia faz questão de declarar isto.

Infelizmente, o tempo passou e a história da humanidade vem sendo escrita com muito derramamento de sangue e muita indiferença quanto ao outro. 

Não cuidamos dos nossos irmãos desde o início, talvez por isso mesmo jamais cessaremos de clamar por justiça.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Pequenos delírios racionais



Sempre que alguém quer criticar a idéia de Deus, ou a religião, ou as crenças transcendentais em geral, é muito comum o apelo à racionalidade, como se ela fosse a solução para todos os males e a única forma de vida possível no planeta. Não raras vezes, se alega que podemos ser felizes apenas respeitando o próximo e as leis, que podemos aprender com os nossos próprios erros, que devemos amar e nos deixar ser amados, enfim, todo um discurso muito bonito, mas muito mais emocional do que racional, o que não deixa de ser contraditório. Afinal, evoca-se a emoção para enaltecer a razão.

Entretanto, os racionais que me desculpem, mas irracional é imaginar uma sociedade perfeita como esta que os racionalistas emotivos propõem. É belíssimo imaginar um mundo livre e harmonioso, mas, convenhamos, essa sociedade não existe, nunca existiu e provavelmente jamais existirá neste mundo. Basta verificar o argumento do "respeito à lei". A própria noção de lei depende de um consenso moral, e a criação de uma entidade imaginária (o "Leviatã" de Thomas Hobbes), o Estado, que regule a todos. Ora, a própria noção de Estado é, portanto, em sua origem, irracional, por mais racionais que sejam os desejos de institui-lo. Entretanto, com exceção dos anarquistas mais puristas, parece que a idéia de Estado é aceita por todos como absolutamente natural, sendo que - pasmem! - se trata de uma ficção jurídica do séc. XVIII. Nem por isso, saímos por aí chamando todos os cidadãos de irracionais por aceitarem obedecer as leis de um Estado.

Além disso, quem é que vai definir o que é erro? Erro é apenas a desobediência à lei ou está ligado a valores morais? Quem é que vai definir o que é amor? Não é o amor indefinível, apenas experimentado ou "experimentável"? Quem é que vai obrigar o outro a "se deixar ser amado"? Não tem ele o direito de recolher-se em seu exílio auto-imposto? Não são - tudo isso - valores subjetivos, que dependem das circunstâncias de cada pessoa? Então, ninguém é obrigado a crer em nada, mas deixe que creiam, que não queiram ser amados, que errem à vontade, deixe que sejam apenas humanos, demasiadamente humanos, mesmo naquilo que transcende a humanidade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Quando Deus intervém...



Quando se analisa o caldo de cultura que gerou a Reforma Protestante do início do século XVI, um aspecto que não pode deixar de ser observado é a intervenção de Deus na História da humanidade e da Sua igreja. Primeiramente, a Reforma protestante não é um fato isolado, que teve geração espontânea num mundo que não a esperava. Ela já vinha sendo gestada no pensamento de gente como John Wycliffe e Jan Huss, que serviram como ponta de lança no questionamento da autoridade papal.

Lutero não queria provocar um cisma, certamente, mas todas as circunstâncias do seu tempo o levaram à ruptura com Roma. É óbvio que uma série de outros fatores concorreram para que a Reforma fosse levada adiante, como os políticos, por exemplo. Não fosse Frederico o príncipe protetor de Lutero, talvez o rumo da história fosse outro. Talvez o mesmo ocorresse se não houvesse grandes interesses econômicos e estratégicos em jogo, numa Europa ainda saindo do feudalismo e se preparando para as profundas mudanças que já estavam sendo geradas. Lutero não teve outra saída senão promover o cisma, e os papas que o enfrentaram (Leão X, Adriano VI e Clemente VII) foram extremamente presunçosos e inábeis ao lidar com a questão. Não perceberam que mudanças radicais estavam em curso no mundo, e isso fica claro nos exageros que cometeram na venda das indulgências, que foi apenas a gota d'água numa série de abusos que vinham sendo feitos em nome da Santa Sé.

Dentro desse contexto, portanto, me parece que mais do que a vaidade, foi a presunção e o distanciamento da realidade que levou a Igreja Católica para muito perto do abismo. Não houvesse existido Lutero, outros se levantariam contra Roma, mas o fato de se perder boa parte da Alemanha acendeu o sinal vermelho para que a Igreja Católica se reformasse naquilo que ficou conhecido como a Contra-Reforma do Concílio de Trento, já sob Paulo III, de 1545 a 1563. Ainda que pareçam ter sido tímidos, os decretos do concílio representaram um resgate da Igreja Católica e, de certa forma, a sua preservação. Muito provavelmente, se nada tivesse acontecido no começo do século XVI, a Igreja Católica teria enfrentado problemas muito, mas muito maiores do que os que Lutero lhe causou. Muitos estudiosos católicos reconhecem isso, ainda que não possam confessá-lo abertamente, mas é bem possível que a Igreja Católica não existiria, tal como a conhecemos hoje em dia, se não houvesse um Lutero no seu caminho.

E isso mostra Deus agindo na História para o bem de católicos, luteranos, protestantes, e todos aqueles que se dispõem a segui-lo com um coração puro.

Ecos do Egito

Chega a ser tragicômico o esforço que algumas pessoas fazem na vã tentativa de "desconstruir" o cristianismo. Apesar de alegarem que o cristianismo é uma mitologia destituída de provas, não piscam os olhos quando atacam-no com mitologias destituídas de evidências cabais, nem se dando ao trabalho de apresentar provas irrefutáveis das supostas deficiências que alegam. Atiram-nas ao ventilador como verdades insofismáveis, sem se dar ao trabalho de ler as fontes que invocam em suporte de suas teses mirabolantes, como as comparações que fazem com a mitologia egípcia:

1. "O deus Osíris ressuscitou dos mortos"

O que existe é uma espécie de "fusão" entre Horus e seu pai-deus Osíris, que foi inclusive alterada pelos próprios egípcios ao perceber a confusão que isso causava. Em algumas dessas versões, Osíris é desmembrado pelo deus Set numa batalha, em outras ele é atingido no peito por uma lança e afogado no Nilo. Então a deusa Ísis junta as partes do corpo de Osíris e o reconstrói magicamente para que ele gere nela o filho Hórus. Apesar disso, não se pode dizer que Osíris tecnicamente "ressuscitou", pois ele é impedido de voltar ao mundo dos vivos, e tudo isso acontece no mundo dos mortos.

Fonte: Livro dos Mortos 51:670, v. 1972 em diante (texto em inglês, clique aqui):

2. Imagem de Ísis com o faraó no colo.

Não há figura mais recorrente na história da humanidade do que uma mãe segurando o filho no colo. Até as pinturas rupestres dos homens da caverna registram isso. A maternidade sempre foi algo sagrado, a perpetuação da espécie. Difícil mesmo é um ateu negar o instinto religioso dos primórdios da humanidade que esta imagem demonstra.


3. "Após a morte a alma pode ir para o paraíso e precisará do seu corpo físico para isso, daí os católicos terem sido, por muito tempo, contra a cremação dos mortos".

De fato, sempre houve discussão na Igreja sobre a cremação, mas não porque a alma precisava do corpo para entrar no paraíso, embora houvesse uma ou outra pessoa que defendesse essa ideia ao longo da história da igreja. O motivo pelo qual a cremação foi mal vista por muito tempo se devia, inicialmente, à crença judaica contrária a essa prática. O cristianismo já significava uma ruptura com o judaísmo, o que lhe rendia muitas perseguições, e eles não quiseram abrir mais este front de batalha. Por outro lado, os primeiros cristãos tinham o costume de serem enterrados juntos, nas catacumbas de Roma, por exemplo, simbolizando que continuariam unidos mesmo após a morte. O enterro dos corpos era considerado muito mais digno do que a cremação, até porque eles observavam essa práticas em outras religiões pagãs. Entretanto, muitos mártires da Igreja foram queimados nos postes que iluminavam Roma, outros no Coliseu, mas nunca ninguém disse que eles não poderiam entrar no paraíso. Pelo contrário, sempre tiveram um lugar de honra na cristandade. Hoje, a cremação ainda não é bem vista por muitos cristãos, mas dado o seu caráter ecologicamente correto (e de saúde pública), existe uma tendência em que aumente no meio cristão.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Sonhos, como interpretar?

Existem várias escolas para a interpretação dos sonhos. Particularmente, eu prefiro as idéias inspiradas em Carl Jung adaptadas para o contexto particular de cada pessoa. Assim, não existe uma interpretação padrão que sirva para todo mundo. Os sonhos, em geral, estão ligados ao contexto de vida de cada pessoa, às suas motivações, aos seus amores, desejos, medos, traumas, etc. Eles vêm em símbolos, que muitas vezes significam o oposto da realidade, do que significariam no mundo real, mas isso depende do contexto do próprio sonho ligado à vida da pessoa. Por isso, é muito importante que quem interpreta os sonhos tenha um mínimo de referências da vida da pessoa que sonhou. Também existe o inconsciente coletivo, ou seja, todos nós trazemos uma carga genética e cultural de símbolos que nos dizem alguma coisa. Se eu falo lobo, cobra, poço, trevas, 99,99% das pessoas vão associar essas palavras a coisas más. Se eu falo mar, céu, anjo, cão, 99,99% das pessoas vão associá-las a coisas boas. Nos sonhos, essas referências se cruzam, e, dependendo do contexto, podem significar exatamente o contrário. Quanto a sonhos premonitórios, minha experiência diz que são raríssimos, e quando acontecem, geram uma sensação de desconforto tal que deixa a pessoa muito incomodada até que a premonição se cumpra. Entretanto, a premonição raras vezes é premonição mesmo. As coisas estão acontecendo à nossa volta, e nós não percebemos, mas o nosso inconsciente está registrando e processando tudo aquilo, e como se fosse um centro de alerta independente instalado dentro do nosso cérebro, ele solta as informações truncadas num sonho, que antevê algo que efetivamente vai acontecer, mas que tudo indicava que iria acontecer, mas conscientemente não havíamos percebido.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Crença e descrença em Dostoievsky

Atribui-se a Dostoievsky a frase "se Deus não existe, tudo é permitido". Primeiramente, esta é uma frase que Sartre (Jean-Paul) atribuiu a Dotoievsky em "Os Irmãos Karamazov", mas Dostoievsky nunca escreveu isso. O que existe, no livro, é um trecho em que o personagem Mitia, um dos irmãos do título, se pergunta:

- Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem ! Mas como ele seria virtuoso sem Deus?


Assim, a frase de onde Sartre extraiu a conclusão expressa no postulado acima, é outra, e deve ser lida dentro do contexto do livro. O que Mitia pergunta ali é como é que o homem pode ser virtuoso sem Deus, o que não deixa de ser uma crítica aos ateus, no sentido de que ateus não poderiam ser morais. Ora, isso é claramente uma hipótese do absurdo a que Dostoievski se refere e coloca na boca de um de seus personagens, já que ele era deísta e não lhe ocorria a possibilidade de existir um mundo sem Deus.

Aqui está, portanto, a nossa primeira dificuldade em admitir essa hipótese, pois é praticamente impossível encontrar alguém que, empiricamente, viva num mundo sem considerar a existência de uma força divina. Talvez ainda exista uma tribo perdida em algum rincão do planeta em que isso seja possível, mas o próprio fato de estarmos discutindo aqui mostra que Deus é, no mínimo, um objeto de análise. Da minha parte, eu creio na sua existência. Outros, entretanto, não creem, mas o grande problema para muitos ateus é exatamente o fato de que tanta gente creia em Deus, e isto também os afeta no sentido de que, vez ou outra, tem que argumentar no sentido de que não existe nenhum deus. Seria como se Deus estivesse dizendo: "falem bem ou falem mal, mas falem de mim". Dentro dos pressupostos metodológicos da ciência, portanto, a negação de Deus teria que ser empírica, demonstrável, insofismável, verificável, mas isso gera um problema para os ateus: como demonstrar o que não existe? Estamos de novo diante da hipótese do absurdo, e me parece que é isso o que Dostoievski quer mostrar colocando a frase na boca do seu personagem. ¿Como falar em imortalidade da alma, se nem em alma se crê?

A dificuldade é, me parece, recíproca. Um ateu não consegue imaginar um mundo sem algum deus, porque não lhe dão esta oportunidade. A não ser que ele se isole numa ilha perdida qualquer, ele sempre estará sendo bombardeado pela (pelo menos) noção do divino, que terá que rebater de alguma forma. A questão do que é moral, imoral ou amoral é, também, prejudicada pelo alto grau de subjetividade e, digamos, "divinização" do tema, já que a moral sempre esteve intimamente ligada à religião. É claro que os princípios morais estão presentes nos ateus, mas o difícil é determinar a sua origem. Daí ser impossível, a meu ver, imaginar um universo em que Deus não exista, pois mesmo que cheguemos próximos dessa imagem, ela é absurda no sentido de que não há registro de que este universo exista. Logo, o ateu não pode rebater com o absurdo a idéia que lhe parece absurda. Seria uma bela discussão para saraus filosóficos, mas sem qualquer efeito prático.

Retornamos, assim, à questão do iluminismo do século XVIII. Tudo o que se seguiu à Revolução Francesa foi no sentido de tornar o conhecimento do homem mais objetivo e menos subjetivo. O positivismo da segunda metade do século XIX é a maior expressão dessa era, em que se imaginou que tudo o que fosse moral poderia ser sistematizado em termos objetivos, positivos. Afinal, vivíamos na era das grandes descobertas científicas, da separação da Igreja do Estado, enfim, de uma série de fatores que apontava para um novo tempo para o ser humano. Entretanto, vieram as duas Grandes Guerras do século XX e todo esse positivismo foi por água abaixo. Um exemplo que vale a pena ler, se houver oportunidade, é Gustav Radbruch, que escreveu o livro "Filosofia do Direito", que são vários ensaios divididos em capítulos que mesmo quem não seja profissional da área vai gostar de ler. Até 1945, Radbruch era firmemente positivista. Depois disso, se transformou num dos mais veementes defensores do Direito Natural, aquele que se baseia numa espécie de moral universal imune a épocas, culturas e civilizações, o mesmo Direito Natural que serviu para legitimar a monarquia absoluta pré-Revolução Francesa, e que havia sido rechaçado pelo Positivismo. Isto apenas demonstra como estamos longe de determinar o que seja esta moral universal, que nos afeta e implica a todos, sejamos ateus ou crentes.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Fé e Razão na Revolução Francesa

Dando sequência à investigação de alguns antecedentes históricos do confronto entre cristianismo e ateísmo, ou entre religião e não-religião, o texto abaixo é do historiador Paul Johnson, no seu livro "História do Cristanismo" (Ed. Imago, 2001, pp. 436-441). Mostra o que a Revolução Francesa tentou criar, em termos de religião, para substituir o cristianismo (ou catolicismo, já que a imensa maioria da população francesa da época era católica). O texto é profundamente interessante. Acho que ateus e religiosos têm muito a aprender com a sua leitura. De um lado, a tentativa de se substituir a religião por outro sistema de crenças, ainda que pretensamente ateu, pode tanto não dar certo, que a religião é vista como um retorno à normalidade, à racionalidade, num desses paradoxos que só a História, cíclica como é, pode nos proporcionar. Por outro lado, os religiosos poderão ver que muitas de suas práticas podem ser equiparadas a tentativas gnósticas de reproduzir no mundo real uma imaginação espiritualizada das relações humanas, e tudo isso gera uma confusão muito perigosa. Bem, desfrutem o texto. É muito bom, eu recomendo.






Dentro desse contexto, os novos governantes da França procederam à remoção e substituição do cristianismo católico. Uma testemunha ocular, Mercier, mais tarde registraria em suas memórias que, se Roberpierre tivesse aparecido com uma velha Bíblia debaixo do braço e ordenado com firmeza aos franceses que se tornassem protestantes, poderia muito bem ter logrado êxito. A revolução, contudo, não era reformista, mas milenarista. Foi, com efeito, a primeira revolta milenarista moderna. Remontava-se à Munster da década de 1520 e à Idade Média, e pressagiava Karl Marx e Mao Tse-tung. Também sofreu influência de seu próprio décor, um reflexo do renascimento clássico: daí apresentar matizes das tentativas patéticas do Imperador Juliano de reviver o paganismo imperial. Cadet de Vaux ergueu o primeiro "altar patriótico" em janeiro de 1790, em sua casa de campo; ostentava machados e fasces, uma lança coroada com um barrete da Liberdade, um escudo com um retrato de Lafayette e versos de Voltaire; o arranjo foi amplamente imitado. Esses altares eram o núcleo de cerimônias ao ar livre, em que se prestavam juramentos de fidelidade, cantava-se o Te Deum e consumiam-se banquetes comunitários. O progenitor e régisseur era J-P. David, que promoveu, em julho de 1791, uma cerimônia gigantesca para o traslado dos restos de Voltaire para o Panthéon. O evento levantou a questão do papel da religião nas cerimônias de Estado, e, em conseqüência, o problema do casamento civil e da educação secular. A Revolução, ao criar uma nova sociedade, não deveria também muni-la de uma nova religião? Muitos dos revolucionários eram deístas. Acreditavam na natureza; ou, como Rousseau, na comunicação direta com Deus, sem intermediários. Outros elementos de seu credo eram o patriotismo e o culto da fraternité – daí o Templo da Amizade de Saint-Just, onde todos os adultos deveriam, uma vez por ano, enunciar os nomes de seus amigos e explicar aos magistrados por que os haviam citado.

Infelizmente, os novos cultos não podiam ser separados da descristianização e da guilhotina, que servia, por assim dizer, para eliminar argumentos inconvenientes de forma perfeitamente racionalista. Em 7 de outubro de 1793, celebrou-se uma cerimônia em Rheims em que um ferreiro local esmagou o frasco miraculoso de óleo sagrado utilizado na coroação. Muitos dos descristianizadores eram renegados, como nos primeiros movimentos milenaristas – Fouché fora oratoriano, Laplanche, beneditino, e Charles, cônego em Chartres. Alguns eram comunistas, como outro ex-oratoriano, Joseph Lebon: "se, quando a Revolução chegar ao fim, ainda houver pobres entre nós, nossos esforços revolucionários terão sido em vão", Ele declarou, em seu julgamento, que derivava todas as suas máximas revolucionárias dos evangelhos, "que, do princípio ao fim, pregam contra os ricos e sacerdotes". Algumas igrejas foram depredadas. Em Paris, as fileiras dos descristianizados eram compostas pelos muito pobres; nas províncias, estes geralmente eram a linha de frente. Arrasaram tumbas aristocráticas e demoliram o mausoléu funerário em St. Denis. (Descobriram o coração encolhido e preservado de Luís XIV, que acabou sendo comido por engano). Cerca de vinte a quarenta mil dos sacerdotes que não juraram foram exilados; algo entre dois e cinco mil foram executados. A Igreja "constitucional" foi arruinada quando cerca de vinte mil dos padres juradores – a maioria sob pressão – concordaram em ser descristianizados; quarenta e dois bispos abdicaram de sua posição, conquanto somente vinte e três tenham incorrido em apostasia de fato. Alguns padres casaram-se para salvar suas vidas, outros fizeram-no voluntariamente; porém, havia casamentos clericais, celebrados por bispos, antes do início do processo de descristianização. (Mais tarde, quando a Igreja retomou o celibato, sob Napoleão, milhares solicitaram a absolvição). A separação formal entre igreja e o Estado foi decretada em 1795, o país tornou-se uma República em 1798 e o Papa Pio VI foi declarado prisioneiro francês, morrendo em Valência em agosto de 1799; a municipalidade registrou o falecimento de "Jean-Ange Braschi, exercendo a profissão de pontífice".

Entrementes, os cultos alternativos mostraram ser tão instáveis e efêmeros quanto o gnosticismo, com que guardavam curiosa semelhança. Ademais, tinham um ar de paródia. David arquitetou os funerais organizados de mártires da república, como Marat; algumas mulheres juraram educar seus filhos no culto de Marat, sem lhes oferecer qualquer outra escritura além de suas obras (em sua maioria, de natureza jornalística). Promoveu-se um festim para o "traslado" de seu coração para um clube revolucionário, onde ficou guardado em uma urna que pendia do teto. David também criou a cerimônia para a aceitação da Constituição, realizada em agosto de 1793, no antigo local da Bastilha, e baseada em uma imensa estátua da Natureza, vertendo água dos seios. Um membro do Comitê de Segurança Pública entoou: "soberana das nações, selvagem ou domada – Oh, Natureza! – este grande povo é digno de você. Após reverter tantos séculos de erros e servidões, tinha de retornar à simplicidade dos seus caminhos para redescobrir a igualdade e a liberdade". Em seguida, bebeu da fonte. Para o Festival da Razão na Catedral de Notre-Dame, em 10 de novembro, a própria igreja foi declarada Templo da Razão, tendo-se construído em seu interior uma montanha cenográfica, encimada por um Templo da Filosofia. No entanto, não havia acordo quanto às formas de culto, nem mesmo a seu tema ou objeto. Em Poitiers, os padres foram forçados a efetuar abjurações humilhantes, e pessoas vestidas de papas e monges foram açoitadas pelas ruas. (Tal cerimônia, de objetivo ateu, era quase idêntica às mascaradas anticatólicas promovidas pelos protestantes, em meados do século XVI). A maioria das cerimônias era deísta. Ocasionalmente, como alternativa à razão, adoravam-se abstrações como o direito, a verdade, a liberdade ou a natureza. No entanto, Deus encontrava meios de emergir por trás desses conceitos; em Beauvais, a razão, a liberdade e a natureza surgiram como três deusas, e, em Auch, o celebrante indagava: "o que é o culto à razão, senão a homenagem que prestamos à ordem estabelecida pela sabedoria eterna?". Robespierre deu fim à descristianização e substituiu a razão pelo Ser Supremo; como o credo que estabeleceu incluía a imortalidade da alma, ia além do anglicanismo mínimo de Locke. Contudo, sem a selvagem excitação da descristianização, as cerimônias eram tediosas para a turba, e só atraíam os sólidos cidadãos burgueses que tinham nelas algum interesse particular (como o paganismo, nos últimos tempos de Roma). Os elementos acessórios foram repintados e ganharam um novo nome. Durante algum tempo, entusiastas deram a seus filhos nomes como Marat, Brutus e assim por diante. Poupinel, autor de hinos republicanos ,instou: "usemos a pompa cívica para fazer com que o povo esqueça as antigas demonstrações de superstição; em uma palavra, vamos oferecer alternativas mais impressionantes e atraentes às cerimônias que, por tanto tempo, iludiram o povo, e o esqueleto do sacerdotalismo se desintegrará por conta própria".

Falar era fácil. O cristianismo, com seus muitos insights e matrizes, não encontrara dificuldade alguma em absorver elementos do cerimonial pagão e transformá-los. Os republicanos, divididos e orgulhosos, atrapalhavam-se, e suas cerimônias oscilavam entre a paródia e o linguajar bombástico e vazio, como as apresentações do comunismo soviético na Praça Vermelha ou a nova ginástica na China de Mao. Parece que se partia da premissa de que a moral pública dependia de exibições religiosas ou gnósticas de algum tipo; a ênfase erasmiana na crença e piedade privadas era repudiada como insuficiente. O Institut, por dois anos, instituiu um concurso de ensaios intitulado "Quelles sont les institutions les plus propres à fonder la morale d'un peuple?" ("Quais são as instituições mais apropriadas para fundamentar a moral de um povo?"). Inventou-se um grande número de cultos. Havia o "Culto dos Adoradores", composto de idéias e imagens de Rousseau, templos indianos, Pompéia e pinturas de Greuze; seus sacerdotes, eleitos a cada ano, eram encarregados de cuidar de um fogo eterno, queimar incenso nos funerais e realizar libações de leite, mel e vinho. Uma variação tinha médicos e cientistas substituindo os sacerdotes, com experimentos de laboratório no lugar da missa. Um terceira possibilidade era um amálgama das doutrinas de Moisés, Cristo, Confúcio e Maomé. Havia cultos seculares comunistas ou sociais. O mais bem-sucedido de todos parece ter sido a Teofilantropia, forma de deísmo próxima do cristianismo (alguns de seus membros autodenominavam-se cristãos) que dispunha de um manual, dezesseis locais de culto em Paris, além de outros nas províncias, e cujas "cerimônias" eram conduzidas por "diretores" – em sua maioria, funcionários públicos, mestres-escolas, e assim por diante. Ex-sacerdotes faziam os sermões. No entanto, um pedido formal por sua oficialização foi indeferido pelo diretório. Barras sarcasticamente advertiu seu defensor, La Revellière, de que deveria primeiro ser martirizado, a fim de lançar a religião de modo adequado, e Carnot encerrou a discussão dizendo que uma religião bem-sucedida precisava de absurdo e ininteligibilidade – e, sob esses aspectos, nada conseguiria vencer o cristianismo.

Sob a superfície pública, o padrão de crença variava imensamente, costumando girar em torno de figuras individuais ao estilo montanista, que compreendiam desde santos até puros charlatães. Havia um acordo geral de que era necessário algum tipo de mecanismo religioso para manter as pessoas em boas condições. Alguns, como madame de Staël, filha de Necker, levavam o raciocínio ainda mais longe. Em "De la Littérature" ("Da Literatura", 1800), ela cunhou o que mais tarde se tornaria um truísmo: "o progresso científico torna necessário o progresso moral". Seu próprio círculo, em Coppet, estava apinhado de excêntricos religiosos, muitos de origem pietista germânica. Entre eles estava madame de Prudener, "convertida" em Riga em 1804, quando um conhecido tirou o chapéu para ela na rua e caiu morto de imediato. Fora catequizada pelo conselheiro Jung-Stilling, de Baden, que havia calculado que o mundo acabaria em 1819, e pelo pastor Friedrich Fontaines, que lhe descreveu o Reino dos Céus em detalhes; ela, por sua vez, mais tarde convenceria o czar Alexandre I a fundar a célebre Santa Aliança. Outro profeta de Staël era o poeta Zacharias Werner, que se convertera ao que se poderia denominar de Sexualidade Católica. Sua mãe havia imaginado ser a Virgem Maria e ele, Cristo; e ele mesmo acreditava em "Cristo e no amor copulador" – a alma do homem, em sua ascensão, tem de atravessar, durante a vida terrena, o purgatório de "corpos femininos". Daí ser ele o grande agarrador de servas em estalagens e casas particulares que, em Weimar, chocou Goethe e acabou com o chá oferecido por frau Schopenhauer ao tentar, ruidosamente, estuprar uma criada na cozinha. Seus bolsos viviam cheios de sonetos místico-eróticos amarrotados, endereçados de forma variada a suas atuais amantes ou a Deus, "o grande hermafrodita". Para ele, "tudo que o amor os leva a fazer com uma amante, é feito por amor a Deus".

Tais caricaturas tendiam a fazer o cristianismo parecer, em comparação, "normal" e familiar – e racional. No extremo oposto do espectro não-cristão, os racionalistas foram ou prejudicados pela associação com o terrorismo ou, na melhor das hipóteses, expostos como emocionalmente anêmicos. Rivarol, em seu "Discours sur l'homme intellectuel et moral" ("Discurso sobre o homem intelectual e moral", 1797), alegou que "a lacuna radical da filosofia é que ela não consegue falar ao coração (...). Mesmo que não consideremos as religiões como nada além de superstições organizadas, elas ainda seriam benéficas para a raça humana; pois, no cerne do homem, há uma fibra religiosa que nada é capaz de extirpar". Esse, é claro, era o ponto em que Voltaire tendia a concordar mesmo com o detestado Pascal. E eis mais um argumento voltairiano: o Estado precisava de uma religião – que funcionasse, fizesse realmente o povo comum conformar-se ás regras diárias da sociedade. Essa percepção voltairiana foi o princípio básico por trás da reconciliação napoleônica com o pontificado e a Igreja católica, marcada pela nova concordata de 1801. Napoleão declarava que ele mesmo havia perdido a fé aos onze anos, quando descobriu que César e Cato, os "mais virtuosos homens da Antiguidade, queimariam nas chamas eternas por não terem praticado uma religião sobre a qual nada sabiam". Aos dezessete, escreveu um ensaio aprovando a alegação de Rousseau de que o cristianismo puro constituía uma ameaça ao Estado. Para ele, o cristianismo foi substituído pelo culto da honra e da ética militar. Como outros do período do diretório, baseou-se no patriotismo, mas acabou chegando à conclusão de que este funcionava melhor quando reforçado pela religião, e, na França, esta tinha de ser o catolicismo – ele não via outro meio de por fim à guerra de guerrilha no oeste. Assim, agiu como Henrique IV: se Paris valia uma missa, a Vendéia valia uma concordata", reconhecendo oficialmente que o catolicismo era "a religião da grande maioria do povo francês". A afirmação era verdadeira no sentido de que, ao longo de todo esse período, a maioria das crianças francesas havia continuado a ser educada pelo clero; e a decisão de Napoleão de reabrir as igrejas, em 1802, foi a medida mais popular que tomou na França. Seus motivos eram inteiramente seculares. "O povo precisa ter uma religião, a qual tem que estar sob o controle do governo". A igualdade era inatingível, e a crença em uma vida futura ajudava os pobres a aceitar seu fardo. Sem uma religião "respeitável", o povo se voltaria para qualquer coisa. "A religião é uma espécie de inoculação (...) que, ao satisfazer nosso amor pelas maravilhas, imuniza-nos contra fraudes e feiticeiros". Não estava certo daquilo em que ele mesmo acreditava: achava que a alma era um tipo qualquer de força magnética ou elétrica. Mas achava, em termos práticos, que os estadistas estrangeiros não negociariam com ele a menos que pensassem que ele acreditava em Deus. Assim, estabeleceu-se como um Carlos Magno cético, e se submeteu a uma desconfortável recriação da coroação papal de 800, insistindo (dessa vez) em colocar, ele mesmo, a coroa na própria cabeça, com o Papa Pio VII praticamente como espectador.

Iconoclastas sem causa

Neste mundo de simplificações absurdas e reducionismo doentio, sempre aparece alguém, geralmente ateu, para apontar o dedo nos crimes praticados em nome da religião. Afinal, ser iconoclasta é fácil.... é só sair por aí destruindo templos e dogmas, o difícil mesmo é propor algo em troca.... se é verdade que a religião produz aberrações, também é verdade que produziu muita coisa boa, como a caridade e o respeito aos direitos humanos, baseado no Direito Natural, que é, em essência, uma releitura humanista dos princípios religiosos. Se é verdade que os religiosos foram, por muito tempo, coniventes com a escravidão e o desrespeito aos povos indígenas, também é verdade que o movimento de respeito a esses direitos começou dentro da própria igreja, 3 séculos atrás. Jonathan Edwards (1703-1758), que foi um grande pregador puritano, pregou um sermão clássico chamado "Pecadores nas Mãos de um Deus Irado", mas foi também o primeiro missionário entre os índios norte-americanos. Ao entrar em contato com esse mundo indígena, passou a defender a idéia do respeito a esses povos e sua cultura, o que lhe resultou uma perseguição dentro da própria igreja, mas se ele não tivesse começado esse movimento tão precocemente na história da humanidade, seria muito provável que os indígenas do mundo estivessem extintos totalmente hoje em dia. O tragicômico é que os que atacam os problemas (reais) da religião, se esquecem convenientemente de delatar os problemas daqueles que a atacaram, como o regime ateu de Stalin e Mao Tse Tung que mataram juntos algo em torno de 100 milhões de pessoas. O ateu Pol Pot, com suas 3 milhões de vítimas no Comboja, é fichinha perto deles... mas vamos varrer esses crimes anti-religião pra baixo do tapete, não é mesmo?!

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

"Teologia" utilitária

A igreja cristã atual, em suas muitas vertentes, algumas eminentemente mercadológicas, são frequentemente criticadas por se terem se rendido ao capitalismo selvagem. Muitas vezes, essa crítica é justificada pelos péssimos exemplos que vemos, de pastores mais preocupados com a contribuição financeira do que com a pregação da Palavra. Entretanto, há que se deter um pouco e examinar a questão mais detalhadamente. No fundo, todas as nossas atitudes são econômicas, políticas e ideológicas, ainda que não saibamos disso nem percebamos que somos movidos por elas. Se alguém trabalha, sua contribuição econômica é facilmente identificável. Se não trabalha, ou resolve ser um aventureiro e viver do que a natureza lhe dá, mesmo assim sua atitude terá repercussão econômica, pois é uma pessoa a menos para gerar riqueza para o país, além de que, na velhice ou na doença, alguém (ou o Estado) vai arcar com as suas despesas. O mesmo se pode dizer da política, já que mesmo aquele que se alheia da política, definindo-se como apolítico, tem uma atitude política de omissão que vai, no mínimo, permitir que os políticos decidam no seu lugar. Tudo isso é impregnado de ideologia, que é essa força misteriosa que move o mundo segundo os interesses dominantes e hegemônicos. As igrejas estão inseridas nesse contexto e é óbvio que a maneira como dirigem seus fiéis tem uma repercussão econômica, política e ideológica. Entretanto, hoje em dia, mais do que o capitalismo, é o utilitarismo que está na moda, como filosofia predominante que rege a conduta da maioria absoluta da população, sem que ela perceba. Algumas "teologias" novas pregadas em algumas igrejas são utilitaristas em essência, como "a fé se vê pelos resultados", "os fins justificam os meios", "temos que maximizar os lucros minimizando os prejuízos". Tudo isso são máximas utilitaristas travestidas de teologia, mas é apenas um reflexo deplorável da ideologia dominante na sociedade em que vivemos.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Ser cristão nos tempos de Hitler

Talvez o capítulo mais trágico da história da humanidade tenha sido o nazismo e a Guerra com milhões de vítimas que engendrou. O papel da igreja cristã, em suas diferentes vertentes, do colaboracionismo à resistência, sempre foi muito criticado, e deve ser sempre relembrado e discutido para que os erros jamais se repitam. No seu livro "História do Cristianismo" (Ed. Imago, Rio de Janeiro: 2001), Paul Johnson faz uma análise detalhada desse período, e destaco abaixo alguns trechos que permitem ter uma boa idéia de alguns aspectos deste grande drama, que ocorreu há pouco mais de 60 anos:






p. 586

Não obstante, os católicos não nutriam qualquer fidelidade para com Weimar; ela não era "nacionalista" o bastante. E com relação a Hitler, que era, eram ambivalentes. É verdade que alguns bispos a princípio foram hostis aos nazistas. Em 1930, por exemplo, o cardeal Betram, de Breslau, chamou o nazismo de um "erro grave", e descreveu seu nacionalismo fanático como "um delírio religioso que tem de ser combatido com o maior vigor possível". Naquele mesmo ano, uma declaração oficial do dr. Mayer, vigário-geral da arquidiocese de Mainz, confirmou que os católicos estavam proibidos de votar em nazistas, devido à política racista do partido. Os bispos bávaros também atacaram o nazismo, e uma declaração dos bispos de Colônia chamou a atenção para o paralelo com a Action Française, oficialmente condenada pelo Santo Ofício três anos antes. Foi uma comparação simplória, porém, pois a longa hesitação de Roma a respeito do movimento francês era notória – era evidente que não se encontrava na mesma categoria do comunismo, nem mesmo do socialismo. (De fato, Pio XII revogou a proscrição da Action Française, sem qualquer retratação de sua parte, assim que tornou-se Papa, em 1939). De qualquer modo, alguns dos bispos recusaram-se terminantemente a assumir uma posição contra o nazismo – e sobretudo contra Hitler, cuja popularidade vinha aumetnando cada vez mais. O cardeal Faulhaber estabeleceu uma distinção clara entre "o Führer", a quem considerava bem-intencionado e basicamente um bom cristão, e alguns de seus "asseclas malignos". (Era uma ilusão comum, inteiramente fundamentada na racionalização de desejos, entre os clérigos germânicos de todas as seitas). Alguns bispos foram mais longe: Shreiber, de Berlim, dissociou-se da condenação de Mainz; além disso, em Fulda, agosto de 1931, quando se tentou chegar a uma condenação unânime do nazismo por todos os bispos católicos, a resolução foi derrotada por votação. O fato é que a maioria dos bispos era monarquista. Detestavam o liberalismo e a democracia muito mais do que a Hitler. Assim, em vez disso aprovou-se uma declaração ambígua que, pior, para contrabalançar, foi acompanhada (nessa como em outras ocasiões) de manifestações fervorosas de patriotismo alemão e por protestos extremados quanto aos padecimentos e ao tratamento injusto sofridos pela Alemanha – de modo que o efeito líquido foi ajudar os nazistas e inclinar os eleitores católicos a apoiá-los. Na tentativa de se valer do triunfo do patriotismo de Hitler, os bispos católicos tornaram-se joguetes em suas mãos, incentivando os fiéis a lhe dar seus votos.


pp. 590-591:

"A despeito das tentativas tanto do clero protestante quanto do católico de se iludir, Hitler não era um cristão, e a maioria dos membros de seu movimento era assumidamente anticristã. É claro que, por vezes, Hitler era enganoso. Ele jamais deixou a Igreja oficialmente; às vezes referia-se à "providência" em seus discursos, e freqüentou a Igreja em seus primeiros anos no poder. Na década de 20, comentou com Ludendorf que precisava dissimular seu ódio pelo catolicismo, por necessitar dos votos católicos da Bavária tanto quanto dos protestantes prussianos – "o resto pode vir depois". O programa de seu partido era deliberadamente ambíguo: "exigimos liberdade para todas as denominações religiosas no Estado, desde que não constituam um perigo para este e não militem contra os costumes e a moralidade da raça germânica". Essas condições cautelosas deveriam ter sido mais que suficientes para alertar qualquer cristão inteligente. Entretanto, manteve-se a crença, sobretudo entre os protestantes, de que Hitler era um homem muito pio. Aceitavam suas garantias tranqüilas quando ele se isentava, ou se o movimento fosse conveniente, dos escritos de seus homens – desse modo, ele ressaltou que o tratado anticristão de Rosenberg, "O Mito do Século XX", incluído no Índex católico, era uma visão pessoal, não uma política oficial do partido". Na verdade, ele odiava o cristianismo, e demonstrava um desprezo justificado por seus praticantes alemães. Logo após ascender ao poder, disse a Hermann Rauschnig que pretendia eliminar o cristianismo "pela raiz e pelos galhos" na Alemanha. A seu ver, o método deveria consistir em "deixá-lo apodrecer como um membro que gangrena". Além disso: "você acredita de fato que as massas voltarão algum dia a ser cristãs? Besteira. Nunca mais. Essa história está encerrada (...) mas podemos acelerar o processo. Faremos os clérigos cavarem seus próprios túmulos. Vão trair seu Deus por nós. Vão trair qualquer coisa para salvar seus empreguinhos e salários miseráveis".

Essa dura avaliação chega perto da verdade. Nem a Igreja Evangélica nem a Católica jamais condenou o regime nazista. No entanto, os nazistas em geral nem sequer deram-se ao trabalho (como fizera Hitler, a princípio) de fingir ser cristãos. Rejeitavam de modo ferrenho as acusações de ser ateus. Himmler declarou que o ateísmo não seria tolerado nas fileiras da SS. Em contrapartida, diziam acreditar na "religião do sangue". Situavam-se na tradição milenarista, e tinham algo em comum com as pseudo-religiões experimentais da década de 1790 na França revolucionária, mas com um conteúdo racista a mais. Como os cultos da revolução, tentaram desenvolver uma liturgia. A editora nazista publicou um panfleto escrevendo "formas de celebração de caráter litúrgico que serão válidas por séculos". O serviço principal consistia em "um discurso solene de quinze a vinte minutos, em linguagem poética", uma "confissão de fé recitada pela congregação" e, em seguida, o "hino do dever"; a cerimônia seria encerrada com uma saudação ao Führer e um verso de cada um dos hinos nacionais. O credo nazista, utilizado, por exemplo, em festivais da colheita, dizia:


"Creio na terra dos alemães, em uma vida de serviço a esta terra; creio na revelação do poder criativo divino e no sangue puro derramado na guerra e na paz pelos filhos da comunidade nacional alemã, enterrados no solo por eles santificados, erguidos e vivos em todos por quem ele é imolado. Creio em uma vida eterna na terra deste sangue que foi vertido e voltou a se erguer em todos os que se reconheceram o significado do sacrifício e estão prontos a se submeter a ele. (...) Assim, creio em um Deus eterno, em uma Alemanha eterna e em uma vida eterna."






p. 594:

"A Gestapo cuidava da repressão onde fosse necessária. Raras vezes teve de ser severa. Com exceção de alguns indivíduos, dificilmente os clérigos precisavam ficar muito tempo na prisão. Dos dezessete mil pastores evangélicos, nunca havia mais de cinquenta cumprindo penas longas ao mesmo tempo. Entre os católicos, um bispo foi expulso de sua diocese e outro recebeu uma breve pena por delitos cambiais. Não houve resistência além disso, apesar de, em meados de 1939, todas as escolas religiosas terem sido abolidas. Só as seitas livres ativeram-se o suficiente a seus princípios para merecer a perseguição aberta. A mais corajosa foi a Testemunhas de Jeová, que proclamou sua total oposição doutrinária desde o princípio, e sofreu de acordo. Recusou-se a cooperar em qualquer sentido com o Estado nazista, que denunciava como rematadamente maligno."



pp. 600-601

"A resistência cristã a Hitler e ao nazismo foi fraca e ineficaz, mas existiu - foi mais persistente e criteriosa que a de qualquer outro elemento da sociedade germânica. Alguns cristãos ocidentais reconheceram sua existência e procuraram fortalecê-la; havia uma tênue linha de comunicação cristã através do abismo da guerra. Na década de 30, George Bell, bispo anglicano de Chichester, estabelecera contato com o grupo antinazista da Igreja Evangélica, em particular com o pastor Dietrich Bonhoeffer [foto ao lado]. Com a irrupção da guerra, empenhou-se em combater o insensato patriotismo cristão que, em 1914, reforçara ódios dos dois lados. Com efeito, ele foi o único prelado cristão, nas duas guerras, que tentou pensar em termos do que um sacerdote deveria fazer naquelas circunstâncias. Em novembro de 1939, publicou um artigo, "A Função da Igreja em Tempos de Guerra", na Fortnightly Review, em que argumentou ser vital que a Igreja continuasse sendo a Igreja, não "a ajudante espiritual do Estado". Ela devia definir princípios fundamentais de condutas, "não hesitar (...) em condenar a promoção de vinganças, ou o bombardeio de populações civis, pelas forças militares de seu próprio país. Deve colocar-se contra a propaganda de mentiras e ódio, estar pronta a estimular a retomada de relações cordiais com a nação inimiga. Deve opor-se a qualquer guerra de extermínio ou escravidão, bem como a toda medida que vise diretamente a destruir o moral de um povo".

Bell empenhou-se ao máximo por seguir esses princípios, todos os quais foram desrespeitados pelos Aliados - com conhecimento e incentivo das Igrejas. Em junho de 1942, ele conseguiu alcançar a Suécia, de onde entrou em contato com a resistência alemã e com Bonhoeffer. Este dissera a seus amigos, em 1940, depois do êxito de Hitler na França: "se nos declaramos cristãos, não há lugar para interesses pessoais. Hitler é o anticristo. Portanto, temos de prosseguir com nosso trabalho e eliminá-lo, quer ele seja ou não bem-sucedido". A última mensagem de Bonhoeffer, contrabandeada da prisão pouco antes de sua execução, em abril de 1945, foi para Bell: "(...) com ele eu creio no princípio de nossa Fraternidade Cristã Universal, que se ergue acima de todos os interesses nacionais, e que nossa vitória está assegurada."



Há vários textos neste blog sobre Hitler e o nazismo na Alemanha, por isso sugerimos que, se você tiver interesse no assunto, clique AQUI para ser direcionado a eles. Recomendamos, em especial, os seguintes artigos:

Hitler: biografias comparadas

Hitler, a biografia por Joachim Fest

Hitler, a biografia por Alan Bullock

Hitler, a biografia por Ian Kershaw

"Eichmann em Jerusalém", por Hannah Arendt

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Arrependimento x Remorso

Bible path
Muitas vezes, alguém que gosta de se aprofundar no estudo das Escrituras se pergunta qual é a diferença espiritual entre arrependimento e remorso, e o interessante é que a própria Bíblia, no seu original grego, faz diferença entre ambas as atitudes.

METANOIA x METALOMAI


Primeiro, a palavra grega traduzida por “arrependimento” é metanoia (μετάνοια) e sempre significa uma mudança de mente ou atitude, essencial à salvação, como no "batismo de arrependimento" de Atos 13:24.

Metanoia aparece 58 vezes no Novo Testamento. Já outra palavra que às vezes é traduzida como arrependimento é metamelomai (μεταμέλομαι), que aparece 6 vezes no Novo Testamento, mas está muito mais ligada à idéia de tristeza, de remorso, do que propriamente mudança de rumo, de mente.


O exemplo clássico é o caso de Judas em Mateus 27:3, conforme você pode perceber nessas 3 diferentes versões para o português:

Mat 27:3 Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe, ARREPENDIDO, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, (Almeida Revista e Corrigida - ARC)

Mat 27:3 Então Judas, aquele que o traíra, vendo que Jesus fora condenado, devolveu, COMPUNGIDO, as trinta moedas de prata aos anciãos, dizendo: (Almeida Revista e Atualizada - ARA)

Mat 27:3 Quando Judas, que o havia traído, viu que Jesus fora condenado, foi TOMADO DE REMORSO e devolveu aos chefes dos sacerdotes e anciãos as trinta moedas de prata. (Nova Versão Internacional - NVI)


Mat 27:3 Quando Judas, o traidor, viu que Jesus havia sido condenado, SENTIU REMORSO e foi devolver as trintas moedas de prata aos chefes dos sacerdotes e aos líderes judeus (Nova Tradução na Linguagem de Hoje - NTLH)


Já a tradução católica da Bíblia do Peregrino (BP) traduz o mesmo versículo dizendo que "Judas se arrependeu", enquanto as igualmente católicas Bíblia de Jerusalém (BJ) e Edição Pastoral (EP), com "sentiu remorsos" em ambas, e a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB - "assaltado de remorsos"), concordam com a versão protestante.

A palavra traduzida por "arrependido" (ARC e BP), "compungido" (ARA) e "tomado de remorso" (todas as demais), é metamelomai, que mostra que Judas ficou triste pelo que fez, "arrependido" até certo ponto, como Esaú, que "querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado; porque não achou lugar de arrependimento, ainda que o buscou diligentemente com lágrimas" (Hebreus 12:17). A palavra aí traduzida por "arrependimento" é metanoia, algo que Esaú buscou com lágrimas, mas não achou.

Logo, me parece que arrependimento significa uma conversão real, verdadeira, uma mudança de rumo, enquanto remorso é apenas o reconhecimento de que se fez algo errado, mas, talvez, se pudesse voltar atrás, a pessoa teria feito a mesma coisa, e a única coisa que lhe restou foi o gosto amargo de ter feito o que fez.


Por fim, há outro versículo em que podemos fazer uma comparação entre ambas as condições, 2ª Coríntios 7:9, em que Paulo escreve:
Agora, folgo, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para o arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus; de maneira que por nós não padeceste dano em coisa alguma. (ARC)
As demais versões (protestantes e católicas) não fogem à tradução da ARC, apenas trocando "contristados" por "entristecidos" ou variações de "tristeza".

O versículo 9 citado acima deve ser interpretado no contexto em que está inserido, e o versículo seguinte (10) diz que "com efeito, a tristeza segundo Deus produz arrependimento que leva à salvação e não volta atrás, ao passo que a tristeza segundo o mundo produz a morte" (BJ).

A palavra arrependimento aqui (μετάνοιαν) é acompanhada da condição de que "não volta atrás" (ametamelētos - ἀμεταμέλητον), o que mostra que o texto bíblico separa definitivamente "arrependimento" de "remorso".

Bem, o versículo 9 nos fala de Paulo se alegrando, não por que os coríntios se entristeceram (οὐχ ὅτι ἐλυπήθητε), mas por que se entristeceram para o arrependimento (ὅτι ἐλυπήθητε εἰς μετάνοιαν).

Paulo portanto se alegrou por que a tristeza deles resultou em arrependimento, já que a preposição εἰς pode indicar resultado, o melhor sentido para esta passagem (entre outros sentidos possíveis estão propósito, espacial [para dentro de], temporal [durante], referência [com referência a], vantagem ou desvantagem). Em seguida Paulo diz que os coríntios portanto se arrependeram segundo Deus (κατὰ θεόν).

O versículo 10 então explica o que aconteceu ali. Os coríntios se arrependeram segundo Deus (κατὰ θεόν), e por isto houve o arrependimento.

É muito interessante aqui perceber que Paulo nos diz que a tristeza que resulta em arrependimento é segundo Deus (κατὰ θεόν), enquanto que a tristeza que produz morte é do mundo (τοῦ κόσμου), provavelmente aqui empregando um genitivo de produtor. Ou seja, ele atribui a origem da segunda tristeza ao mundo, mas não faz isto para a primeira tristeza.

TRISTEZA x ARREPENDIMENTO


A tristeza que resulta em arrependimento aqui não é atribuída a Deus, mas ela segue o padrão de Deus. Já aquele pesar que gera morte é sim produzido pelo mundo.

Está claro, portanto, que Paulo está propositalmente contrastando as duas tristezas (λύπη), já que ele coloca tanto κατὰ θεόν quanto τοῦ κόσμου em destaque, na frente de λύπη.

É curioso também que vários dicionários colocam ἀμεταμέλητον ("sem remorso", "sem voltar atrás") como um adjetivo feminino, embora a terminação dele seja masculina ou neutra.

Provavelmente eles estão tentando fazer este adjetivo concordar com alguma palavra do texto, seja arrependimento (μετάνοιαν) ou seja salvação (σωτηρίαν), todas elas femininas.

Não se pode descartar, portanto, a possibilidade de que ἀμεταμέλητον seja neutra, categorizando todo o "arrependimento para salvação" (μετάνοιαν εἰς σωτηρίαν), ou seja, tratando-o como uma unidade.

remorse x repentance




domingo, 4 de janeiro de 2009

Quem tem medo do ecumenismo?

De vez em quando, aparece alguém dizendo que o ecumenismo é a grande ameaça final à igreja evangélica, como se todos fôssemos de repente abduzidos pela nave-mãe Vaticano pilotada por Bento XVI. Criam-se teorias da conspiração que comprovam, segundo quem afirma, o Armagedom ecumênico.

Entretanto, me parece que a questão não é essa. O buraco é mais embaixo e mais pé-no-chão. O fato é que há tantas heresias se espalhando pela igreja evangélica, e a coisa está desandando tanto, que as igrejas históricas estão fazendo um esforço para se diferenciar dessas "teologias" novidadeiras de quebra de maldições, prosperidade absoluta, além dessa sanha arrecadadora de alguns "pastores" que estão dirigindo empresas em vez de igrejas. Então, é natural que haja uma união maior entre as igrejas históricas, o que não significa que vão concordar em tudo. Além disso, é preciso alguma ordem e hierarquia nas igrejas cristãs, já que hoje qualquer obreiro que brigue com o pastor, abre a sua igreja no dia seguinte. Ortodoxia e obediência, valores tão caros aos apóstolos e pais da Igreja, hoje são artigos de segunda-mão, desprezados e abandonados nas prateleiras do mercado da fé.

Por outro lado, o que pouca gente percebe é que o ecumenismo já está instalado nas igrejas evangélicas, na sua face menos visível, mas talvez mais perversa. Antes, elas criticavam os católicos por fazerem novenas, por exigirem penitência, sacrifício, e hoje o que mais se ouve falar em algumas igrejas evangélicas é novena, campanha e sacrifício. Em vez de velas, algumas igrejas acendem fogueiras. As indulgências modernas, quem diria, são praticadas pelos chamados "evangélicos". Então, são eles que estão mais próximos dos usos, costumes e tradições católicos que tanto dizem combater, embora "jurem de pés juntos" que não é bem assim. Ou seja, nessa confusão toda, salve-se quem puder!

sábado, 3 de janeiro de 2009

Dogma

"Toda a história do dogma cristão é um constante fechamento, mas ao mesmo tempo uma tarefa de criação de definições. A definição é importante, pois sem ela a igreja teria sido solapada por elementos estranhos que queriam negar a sua existência. O dogma, e portanto, o desenvolvimento dogmático, não é algo lamentável e mau. Foi a forma necessária por meio da qual a igreja manteve a sua identidade. O elemento trágico em toda a história é que quando coisas desse tipo precisam ser feitas, logo vêm as conseqüências de estreitamento e de exclusão de elementos também muito valiosos."

(TILLICH, Paul. Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX, Ed. ASTE, 3ª ed., 2004, pág. 24)

Anacronismo

Já que estamos iniciando um novo tempo, é sempre bom nos situarmos nele e não nos colocarmos na posição de julgar os tempos passados pelas nossas experiências atuais. Algumas pessoas questionam certas práticas do Velho Testamento, que aos olhos do homem do século XXI, realmente parecem despropositadas, como as leis do Levítico sobre usos e costumes do povo judaico. Entretanto, se analisarmos ceticamente, o mundo tem 6.000 anos de história registrada, de explosão da inteligência, por assim dizer. Desses 6.000 anos, faz apenas 64 que saímos da Segunda Guerra Mundial e publicamos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, e mesmo assim eles continuam sendo desrespeitados em vários lugares do mundo. Admitamos, entretanto, que há 60 anos tá tudo bem em relação ao respeito dos direitos humanos, ou seja, 1% apenas da história da humanidade. Em 99% dessa história, a prática (dos homens) não foi essa.

Logo, quem examina o passado remoto com os olhos de hoje incorre num erro chamado anacronismo. A história revelada de Deus é compatível e condizente com a história do homem. As regras de conduta do passado dependem de cada época, de cada cultura e de cada civilização, individualmente consideradas. Querer julgá-las pelos nossos olhos atuais é, no fundo, um ego-sócio-centrismo disfarçado de preocupação social. Mesmo no mundo de hoje, se julgássemos os costumes de cada povo e cada civilização, é muito provável que terminássemos nos matando uns aos outros, e isso seria obra do homem, não de Deus.

Afinal, como mostra a ilustração acima, ainda não incrustaram astronautas nos umbrais das catedrais...

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