domingo, 12 de junho de 2011

O cristão e o amor ao dinheiro

Nesses tempos bicudos em que estamos vivendo, em que a pregação recorrente é que o cristão só tem direitos, que ninguém pode levar o que é seu, que ele tem que "tomar posse" de todas as bênçãos, que Deus tem que "honrá-lo" com riquezas numa espécie de "contrato" em que o Senhor entra com os bens e o ser humano com os "decretos" e "determinações", e que a prosperidade é o selo que identifica o crente, é sempre muito bom voltar no tempo e verificar como os Pais da Igreja tratavam do tema. São João Crisóstomo (349-407), bispo de Constantinopla num curto período entre 397 e 404, quando foi deposto por intrigas com o clero e a imperatriz Eudóxia, foi um dos mais importantes teólogos e escritores do início da Igreja Cristã, deixando-nos uma enorme obra que nos permite compreender quais eram as linhas centrais da doutrina dos primeiros séculos do cristianismo. Nas suas homilias sobre a Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, Crisóstomo comenta sobre como o cristão devia se portar em relação ao dinheiro e aos seus direitos quando fosse lesado ou injustiçado, ensinando um comportamento muito diferente do que vemos e ouvimos nos púlpitos hoje em dia. Ele sabia do que falava, já que a primeira tentativa de depô-lo da função de Patriarca de Constantinopla - no Sínodo do Carvalho de 403 -, havia sido comandada por Teófilo de Alexandria, que "agradara" os demais bispos com dinheiro e presentes para comprar seus votos (prática antiga, como você percebe...). Só que na noite em que ele ia para o exílio, houve um terremoto e a supersticiosa Eudóxia o chamou de volta, mas por pouco tempo, pois alguns meses depois - em 9 de junho de 404 - ele foi defenestrado de seu cargo (Eudóxia morreria 4 meses depois). Mesmo injustiçado, Crisóstomo preferiu não polemizar e deixar tudo nas mãos de Deus. Ele vivia o que pregava. Talvez por isso mesmo hoje lembremos só do que ele ensinou e os seus algozes caíram no esquecimento. Confira:



Mas, ó dinheiro! Ou antes, ó amor desordenado do dinheiro, que tudo subverte e joga por terra! E para muitos, por causa do dinheiro, tudo se torna ninharia e fábula. Não é de admirar que os que se dedicam aos negócios seculares fiquem envolvidos em litígios perante os tribunais; mas que façam o mesmo muitos dos que renunciaram ao século é inteiramente sem desculpa. Pois, se queres ver quanto te prescreve a Escritura abster-te de tais hábitos, a saber, dos tribunais, e saber quais as leis promulgadas, ouve o que afirma Paulo: “A lei não é destinada aos justos, mas aos iníquos e rebeldes” (1 Tm 1,9). Se ele se refere à lei mosaica, muito mais se aplica às leis pagãs. Se, portanto, praticas a injustiça, é evidente que não és justo; se, porém, sofres a injustiça e a suportas (o que é especialmente peculiar ao justo), não necessitas de forma alguma das leis pagãs. E de que modo, perguntas, poderei suportar a injustiça? Ora, Cristo ordenou algo de maior. Não somente mandou suportar a injustiça, mas ainda aumentar a liberalidade para com o inimigo, e superar com a pronta disposição para o sofrimento a vontade maligna do injusto. Com efeito, não disse apenas: E aquele que pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe a túnica, mas também com ela entrega o manto. Vence-o tolerando o mal, e não praticando. Seria ilustre e esplêndida vitória. Em vista disso, prossegue Paulo: “De todo modo, já é para vós uma falta a existência de litígios entre vós. Por que não preferis, antes, padecer uma injustiça?” (1 Cor 6,7). Vou comprovar-vos que vence antes o que sofre a injustiça do que aquele que não a suporta. Quem não suporta a injustiça, mesmo que leve a questão a um tribunal, mesmo que supere, é então realmente que é vencido. Sofreu o que não queria: o adversário o obrigou a aborrecer-se e pleitear em juízo. Em que venceste? Por que recebeste todo o dinheiro? No entanto, estiveste sujeito ao que não querias: foste obrigado a pleitear em juízo. Efetivamente, se suportas a iniquidade, vences apesar de privado do dinheiro, mas essa vitória não é acima da grande sabedoria: não pôde o adversário obrigar-te a fazer o que não querias. Para verificares que é verdade, dize-me: Quem venceu? O invejoso ou aquele que jazia no esterco? Quem superou? Jó, cujos bens lhe foram todos arrebatados, ou o diabo que tudo tirou? É evidente que foi o diabo, que lhe roubou tudo. A quem admiramos em vista da vitória, o diabo que feriu, ou Jó que foi ferido? É claro que é Jó. Ora, ele não pôde conservar as riquezas perecíveis, nem preservar a incolumidade dos filhos. E por que falo de riquezas e filhos? Não pôde manter a saúde do corpo. No entanto, ele que perdeu todas as posses foi vencedor. Não pôde, de fato, reter as riquezas, mas conservou com todo cuidado a piedade. Aos filhos que morreram não pôde socorrer. E então? Entretanto, o evento tornou-os mais ilustres; e também a ele, atingido pela tribulação, trouxe proveito. Se, de fato, não tivesse padecido e sofrido dano da parte do diabo, não obteria aquela esplêndida vitória. Se suportar a injúria fosse um mal, Deus não no-lo teria ordenado; pois Deus não preceitua o mal. Não sabeis que ele é o Deus da glória? Nem haveria de querer envolver-nos em opróbrios, zombaria e prejuízo, mas arranjar-nos-ia o contrário. Por isso, manda-nos tolerar a injúria, e tudo faz para nos apartar das coisas seculares, e convencer-nos a respeito do que constitui glória, o que é opróbrio, o que é dano, o que é lucro.

Mas é duro sofrer injúrias e dano? Não é duro, não é, ó homem! Até quando anelas pelos bens presentes? Deus não o teria ordenado, se fosse um mal. Pondera, no entanto: quem cometeu injustiça, partiu de posse das riquezas, mas também tendo a consciência onerada; quem sofreu a injustiça, foi privado do dinheiro, mas adquiriu junto de Deus confiança, mais preciosa que a posse de mil tesouros. Disto cientes, reflitamos de bom grado, e que não sejamos dos estultos que não consideram dano a aflição proveniente de um tribunal. Entretanto, constitui máximo e total prejuízo não pensar assim por livre vontade, mas coagido. Não obtêm lucro algum os que sofrem, vencidos em juízo, porque, enfim, o resultado advém necessariamente. Qual, então, a vitória esplêndida? Desprezares, não pleiteares em juízo. O quê? – retrucas. Meus bens todos me foram roubados e mandas que me cale? Sofro prejuízo e me exortas a tolerar com mansidão? E será possível? É facílimo se olhares para o céu, se vires sua beleza, e onde Deus prometeu que há de te receber se suportares generosamente a injustiça. Faze isso e, tendo olhado para o céu, pensa que te tornaste semelhante àquele que se acha ali sentado sobre os querubins. De fato, também ele sofreu opróbrios e os suportou; foi insultado e não retribuiu; ofendido com escarros e não se vingou, ao invés, remunerou, concedeu inúmeros benefícios àqueles que deste modo procederam e ordenou que fôssemos seus imitadores. Pensa que nu saíste do seio materno, nu reverterás à terra tu e aquele que te infligiu injustiça; ou antes, ele com incontáveis feridas, onde pululam os vermes. Reflete que são temporárias as realidades presentes, pensa no sepulcro dos antepassados. Toma claramente conhecimento dos acontecimentos, e verás que aquele que te causou injustiça fortificou-te. Enquanto nele a paixão, isto é, o amor do dinheiro, se fez mais grave, a tua se enfraqueceu quando ele retirou o pábulo daquela fera. Além disso, livrou-te das preocupações, da angústia, da inveja dos detratores, do tumulto, da agitação, do medo contínuo e acumulou um fardo de males sobre sua cabeça. Mas, o que farei, dizes, se tiver de lutar contra a fome? Sofrerás em companhia de Paulo, que disse: “Até o momento presente ainda sofremos fome, sede e nudez” (1 Cor 4,11). Todavia ele sofreu, dizes, por causa de Deus. E tu também por causa de Deus, pois quando não te vingares, tu ages assim por causa de Deus. Mas aquele que me fez injustiça, delicia-se com as riquezas. Ao contrário, é juntamente com o diabo, enquanto tu serás coroado com Paulo. Não temas a fome: “O Senhor não deixa o justo faminto” (Pr 10,3). E outra passagem diz: “Descarrega teu fardo no Senhor e ele te nutrirá” (Sl 55,23). Se ele nutre os pássaros do campo, como não te nutrirá? Não sejamos, portanto, de fé diminuta, nem pusilânimes, caríssimos. Quem prometeu o reino dos céus e tão grandes bens, como não dará o necessário no presente? Não desejemos o supérfluo, mas contentemo-nos com o suficiente, e sempre seremos ricos. Procuremos veste e o sustento, e receberemos tudo, isso e muito mais. Se, porém, ainda te lamentas e olhas para baixo, gostaria de te mostrar a alma daquele que te fez injustiça como se reduziu a cinzas após a vitória. Pois tal é o pecado: enquanto é cometido, ocasiona certo prazer; consumado, aquele pequeno gosto escapa, e sucede-lhe a tristeza do espírito. De fato, é isto o que sentimos quando injuriamos os outros; depois nós mesmos nos acusamos. Assim também ao roubarmos, alegramo-nos; em seguida, a consciência nos atormenta.

(São João Crisóstomo, “Comentário às Cartas de São Paulo”, vol. 2, Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios, Ed. Paulus, 2010, pp. 223-226)

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