sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 20


ENCARNAÇÃO: MARIA, MÃE DE DEUS

Dizemos de cada ser humano que ele come, bebe, digere, dorme, acorda, anda, fica parado, trabalha, etc., embora a alma não participe em nenhuma dessas atividades, mas apenas o corpo. Contudo, afirma-se isso da pessoa toda, que tem corpo e alma. Pois ele é um ser humano não só por causa do corpo, mas por causa do corpo e da alma. Por outro lado, também afirmamos que o ser humano pensa, inventa, aprende. Pois, de acordo com sua razão ou alma, ele pode tornar-se professor ou mestre, juiz, conselheiro ou governante. Nem o corpo nem qualquer um de seus membros lhe dá essa competência. No entanto, afirmamos: “Ele tem uma cabeça boa; é sensato, instruído, sábio, eloquente, artístico”. Dessa maneira, diz-se de uma mulher que ela está grávida, dá à luz e amamenta uma criança, embora não seja a alma, mas tão-só o corpo que faz dela uma mãe. Todavia, atribuímos isso à mulher toda. Igualmente, se alguém golpeia uma pessoa na cabeça, dizemos: “Ele bateu no João ou na Margareta”. Ou, quando um membro do corpo é lesionado ou ferido, pensamos na pessoa toda como estando machucada.

Estou empregando essas ilustrações simples para que se entenda como se devem separar na pessoa de Cristo as duas naturezas distintas e como, no entanto, isso deixa a pessoa inteira e indivisa. Tudo que Cristo diz e faz, tanto Deus quanto o homem dizem e fazem, mas cada palavra e cada ação estão de acordo com uma ou outra natureza. Aquele que observa essa distinção, encontra-se no caminho seguro e certo. Ele não será desencaminhado pelas ideias errôneas dos hereges, as quais provêm unicamente do fato de não reunirem o que pertence junto e constitui uma unidade, ou por não separarem e dividirem, apropriadamente, o que deve ser diferenciado.

Por isso, devemos nos ater ao discurso e às palavras da Escritura e reter e confessar a doutrina de que este Cristo é verdadeiro Deus, através de quem todas as coisas são criadas e existem, e, ao mesmo tempo, que este mesmo Cristo, Filho de Deus, nasce da virgem Maria, morre na cruz, etc. Ademais, Maria, a mãe, não carrega, dá à luz, amamenta e alimenta tão-somente o homem, tão-somente carne e sangue – pois isso seria dividir a pessoa -, mas ele carrega e alimenta um filho que é Filho de Deus. Por isso, ela é corretamente chamada não só a mãe do home, mas, também, a mãe de Deus. Isso, os antigos Pais ensinaram contra os nestorianos, que se opunham a que Maria fosse chamada de mãe de Deus e se recusavam a dizer que ela dera à luz o Filho de Deus.

Aqui, devemos ratificar com o nosso Credo: “Creio em Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus Pai, nosso Senhor, que nasceu da virgem Maria, sofreu, foi crucificado, morreu”. Ele é sempre o mesmo e único Filho de Deus, nosso Senhor. Por isso, é certo que Maria é a mãe do real e verdadeiro Deus. E os judeus não só crucificaram o Filho do Homem, mas, também, o verdadeiro Filho de Deus. Pois não quero um Cristo em que devo crer e a quem devo invocar como meu Salvador que seja apenas um ser humano. Nesse caso, eu estaria indo ao encontro do diabo, pois simples carne e sangue não poderiam extinguir o pecado, reconciliar a Deus e abolir sua ira, superar e destruir a morte e o inferno, e conceder a vida eterna.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado, tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 143-144)



quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 19


ENCARNAÇÃO: A(S) NATUREZA(S) DE CRISTO

Sim, tudo que a Escritura diz de Cristo abarca toda a pessoa, como se tanto Deus quanto o homem fossem uma só essência. Muitas vezes, ela emprega expressões intercambiavelmente e concede os atributos de ambos a cada natureza por causa da unidade pessoal, que chamamos de communicatio idiomatum. Portanto, podemos dizer: “O homem Cristo é o Filho eterno de Deus, pelo qual foram criadas todas as criaturas, e Senhor do céu e da terra”. Por outro lado, também podemos dizer: “Cristo, o Filho de Deus (isto é, a pessoa que é verdadeiro Deus), foi concebido e nasceu da virgem Maria, sofreu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e morreu”. Além disso: “O Filho de Deus está sentado à mesa com coletores de impostos e pecadores e lava os pés dos discípulos”. Ele, naturalmente, não faz isso segundo a natureza divina. Porém, como isso é feito por uma só e mesma pessoa, é correto dizer que o Filho de Deus o está fazendo. Por conseguinte, S. Paulo declara, 1 Co 2[.8[: “Se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória”. E Cristo mesmo [afirma] em Jo 6[.62]: “Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o lugar onde primeiro estava? “ Isso, em verdade, é dito a respeito da natureza divina, a única a estar com o Pai desde a eternidade, mas também é dito da pessoa, que é verdadeiramente homem.

Em resumo: tudo que esta pessoa, Cristo, diz e faz é dito e feito por ambos, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, de modo que todas as suas palavras e ações devem ser sempre atribuídas a toda a pessoa e não são divididas, como se não fosse verdadeiro Deus ou verdadeiro homem. Mas isso deve ser feito de modo a identificar e reconhecer apropriadamente cada natureza. Se quisermos falar correta e distintamente de cada uma, é necessário que digamos: “A natureza de Deus é diferente da do homem. A natureza humana não é, desde a eternidade, como a natureza divina, e a natureza divina não nasceu nem morreu temporalmente, etc., como a natureza humana. Mas as duas estão unidas em uma só pessoa”. Por isso, há um só Cristo e podemos dizer dele: “Este homem é Deus, e este homem criou todas as coisas”. De forma semelhante, corpo e alma constituem duas naturezas em uma pessoa natural e sadia, mas as duas constituem uma só pessoa ou um só ser humano, e atribuímos as atividades e os ofícios de ambas as naturezas à pessoa toda.

(LUTERO, Martinho. Os capítulos 14 e 15 de S. João, pregados e interpretados pelo Dr. Martinho Lutero e Capítulo 16 de S. João, pregado e explicado, tradução de Hugo S. Westphal e Geraldo Korndörfer, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2010, vol. 11, págs. 142-143)



quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 18


O INFERNO E A IMORTALIDADE DA ALMA

Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou. Mas, se Cristo não ressuscitou, a vossa fé é vã, vós ainda estais em vossos pecados e aqueles que adormeceram em Cristo estão perdidos. Se depositamos nossa esperança em Cristo apenas nessa vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas. [1ª Cor. 15.16-19]

[...]

Em sexto e último lugar, ele conclui: “Se depositamos nossa esperança em Cristo, apenas nesta vida, somos as mais miseráveis de todas as pessoas sobre a terra” [1 Co 15.19]. Isso equivale a dizer: se isso fosse verdade, que depois dessa vida não se seguiria outra, eu daria de ombros para o Batismo, o púlpito e toda a cristandade. Pois repara bem um cristão e compara-o com outras pessoas que não creem, vivem na gandaia, têm e fazem o que querem e, quando chegam ao fim da vida, diz Jó [4.21], descem num instante e nem se dão conta, jamais experimentam o que é verdadeiro sofrimento ou tristeza, aflição ou amargura. Em comparação com esses, nós, que querermos ser cristãos, temos que passar por toda sorte de tormento e infortúnio; [as pessoas] nos desprezam, repudiam-nos, caluniam-nos e nos xingam, hostilizam-nos e acham que não temos o direito de viver sobre a terra; temos que esperar, diariamente, o pior, como o diabo e o mundo possam nos prejudicar. Quem quereria cometer a besteira de tornar-se um cristão se a vida futura nada fosse? Quem não poderia dizer: já que aqueles têm vida boa e vivem na gandaia, também quero fazer como os outros! Para que vou me expor, para que me atormentem e eu tenha que aguentar esse sofrimento, ardil, ódio e inveja do mundo? Isso, sem mencionar que um cristão ainda tem que passar por tanta tristeza e pesar interior e tanto temor e pavor da morte, do pecado e da ira de Deus que, na verdade, são as verdadeiras tribulações.

Pois, aquele sofrimento exterior ainda é brincadeira e, apenas, o á-bê-cê da miséria e do sofrimento dos cristãos, [quando] o mundo os persegue, escorraça e aplica toda sorte de malignos ardis. Mas o que vai fundo é o medo que levam no coração ante a ira de Deus, temendo a morte eterna, que tenham que ser camaradas do diabo no abismo do inferno. Isso lhes oprime o coração dia e noite, têm que se bater com isso a ponto de suarem sangue, de modo que eu preferiria ficar encarcerado um ano inteiro, sofrendo fome e sede, a passar um dia, sequer, com esse medo infernal do diabo, com o qual ele acomete os cristãos que, afinal, creem e estão certos da futura ressurreição e vida eterna que lhes está preparada e, por outro lado, do juízo e do fogo eterno sobre os maus. E, justamente, por saberem disso, não têm descanso até serem salvos desse vale da desolação. Pois, aqui, têm diante de si dois caminhos, além do diabo e de sua própria consciência contra si, que lhes diz que não são pios e têm a Escritura por testemunha de que somos todos pecadores e merecemos a condenação; isso o diabo pode aproveitar para torturar a ponto de se suar frio, tendo que lutar para resistir contra isso na fé, para não afundar na depressão e no medo, mas permanecer confiante de que Deus lhe seja gracioso e o queira levar para o céu, para junto de si. Disso, a maioria nada sabe, não temem nem a ira nem o juízo de Deus, nem o diabo ou a morte; pensam que, quando morrerem, estará morrendo uma vaca e, em quanto isso, ficam seguros e alegres, nada experimentam desse tormento. Por isso o cristão, certamente, é uma pessoa extremamente miserável, acima de tudo que se possa chamar de miserável, porque seu coração tem que assar diariamente no fogo, constantemente apavorado e tremendo de medo sempre que lhe passa pela cabeça a morte e o rigoroso juízo de Deus, tendo que se preocupar constantemente se ele indignou a Deus e mereceu o inferno, ainda que seja reto e bem treinado na fé. Pois esses pensamentos não largam dele. Na verdade, parecem muito mais frequentes e fortes do que os pensamentos bons. Por isso, veem-se muitas pessoas profundamente deprimidas e abatidas nessa tribulação e aflição do coração, a ponto de não o dizerem a ninguém, nem terem prazer, nem alegria, nem terem desejo por esta vida.

Por isso, S. Paulo diz, agora: nós teríamos que estar loucos e ser bobos ao nos meter nessa aflição e tristeza, nesse medo e tormento, sem estar seguros da morte e do inferno um momento sequer, se não tivéssemos outra coisa senão esta vida! De que nos adiantaria obter todos os bens do mundo na terra, tornando-nos, para tal, cristãos e tomando sobre nós esse sofrimento? Quem suportaria passar a sua vida com desolação e tormento e nada receber em compensação senão esta vida?

Os pagãos disseram sabiamente: qui mortem metuit, quod vivit, perdit idipsum, tolo é quem tem medo da morte, pois, com isso, perde sua própria vida. Essas seriam palavras boas, se a gente conseguisse praticá-las. Pois isso todo mundo percebe muito bem por si mesmo que, com esse temor, não consegue mais do que estragar, ele próprio, esta vida e que ela para nada lhe serve e nunca mais o deixará contente, como se vê naqueles que se encontram em profundo pesar, não encontrando conforto nem alegria, ainda que a gente os enfeite com todas as joias de ouro, entupa da melhor comida e bebida e lhes apresente toda sorte de diversão e música. Pois não têm nenhum prazer na vida, só pensam na morte e já se encontram na morte. Por isso, dão o conselho de que o melhor é, simplesmente, despachar todo esse medo e tirá-lo da cabeça à força, pensando: para que vamos nos preocupar? Uma vez mortos, estamos mortos. É o que disseram (como S. Paulo apontou depois): “Comamos e bebamos, hoje ou amanhã estaremos mortos” [1 Co 15.32], etc. Isso não faz justiça à realidade e significa, simplesmente, ignorar a ira de Deus, o inferno e a condenação.

Mas isso os cristãos não podem fazer. Não se pode eliminar [este fato] desse jeito do coração, que gostaria de crer e que se sente mais forte à medida em que a fé luta para fortalecer-se. Isto equivale a dizer que, em nenhum momento, [o cristão] está [absolutamente] seguro da sua vida. Ele sempre tem diante dos olhos o julgamento de Deus e o fosso infernal. É preciso confortar as pessoas [nessa situação] com a seguinte pregação: meu caro, embora tu sintas isso e o fato de viver assim te doa incessantemente, sendo um pobre miserável, conforma-te e saibas que, necessariamente, é assim porque tu és um cristão. Caso contrário, não passarias por essa tortura. Não deves resistir a isso, mas, sim, assegurar-te com fé firme de que o teu Cristo que, também, ressuscitou dos mortos, passou por essa aflição e medo do inferno, mas, por sua ressurreição, tudo superou. Por isso, mesmo que eu seja um pecador digno da morte e do inferno, este deve ser o meu consolo e a minha vitória: meu Senhor Cristo vive e, além disso, ressuscitou para me livrar, enfim, do pecado, da morte e do inferno.

Com essa fé, os cristãos precisam mitigar seu sofrimento em manejar o infortúnio. Caso contrário, seria impossível confortar um coração entristecido e intimidado ou repelir os pensamentos com alguma alegria na terra. Mas o que permite isso é o fato de esse homem, Cristo, dizer que ele é o Deus e o Salvador dos miseráveis, não dos que vivem na devassidão, sem medo algum, e, sim, dos que temem o diabo e o inferno, estes devem aceitar o batismo, o púlpito e o evangelho e concluir o seguinte: o fato de eu sentir que tenho medo do inferno e do juízo de Deus é um sinal seguro de que, também, sou um cristão e tenho algo da fé; pois quem fica horrorizado com aqueles, com certeza, acredita na existência de um inferno e um céu; por outro lado, quem não tem esse medo, também nada crê. Por isso, justamente, nesse medo e pavor, vou me confortar e dar uma reviravolta pela fé, dizendo ao diabo e ao meu coração: tu me aterrorizas com pecado e inferno, mas Cristo me fala do céu, da justiça, da vida e da bem-aventurança eternos. Ele me valerá mais do que todo meu sentir e pensar. O que importa, então, é lutar sempre e prevenir-se dessa forma, agarrando e mantendo firme esse artigo, pois ele será necessário na vida e na morte.

(págs 326-331)

[...]

Pois, assim como em Adão todos morrem, em Cristo todos também serão vivificados. [1ª Cor. 15.22]

S. Paulo fala, aqui, apenas dos cristãos, os quais ele quer ensinar e confortar com este artigo; pois, mesmo que todos tenham que ressuscitar, também, os não-cristãos, só que, para eles, [a ressurreição] não será conforto nem alegria, uma vez que ressurgirão não para a vida, mas, para o juízo. Por isso, também, agora, não se trata de uma pregação confortadora e alegre para o mundo e os ímpios, ao ouvirem esse artigo, conforme o senti em mim mesmo quando eu queria ser um mogne santo – e eu era o mais devoto, a ponto de preferir ouvir a respeito de todos os diabos no inferno a ouvir sobre o dia derradeiro e os meus cabelos ficavam em pé só de pensar nisso. Pois fora o fato de o mundo todo ter a mentalidade de não querer renunciar a esta vida e morrer, levando um susto quando se fala da morte ou da vida no além, nós, todos, participamos da baboseira da santidade própria, acreditando que, com nossa vida e obras, deveríamos saciar o juízo de Deus e merecer o céu, quando, na verdade, com isso, nada mais conseguíamos do que piorar e detestar ainda mais esse dia. Nem quero falar da outra multidão grosseira dos que, aqui, só buscam seu prazer e conforto, desprezam a Palavra de Deus e não dão um centavo por Deus e seu Reino. Se esses se sentem atormentados e não gostam de ouvir [falar] da bem-aventurada ressurreição, isso não causa surpresa. Mas, para nós, essa pregação é puro conforto e alegria, porque ouvimos que já temos, lá em cima, no céu, o nosso melhor tesouro no qual nos alegramos e, não por último, o fato de que ele [nos] ressuscitará e levará para lá, com a facilidade com que se desperta uma pessoa do sono, de modo que sofrimento e dor deixarão de ser e nem mundo nem diabo vão nos atormentar e nos entristecer mais. Ao invés, como agora eles nos perseguem e torturam, o jogo se inverterá, de modo que gritarão de dor eternamente, ao passo que nós nos alegraremos eternamente. Pois, como Cristo será juiz sobre retos e maus, eles, naqueles dias, também terão que aparecer, para receber seu juízo e punição por aquilo que cometeram em Cristo e em nós, por maldade impenitente e diabólica.

[pág.s 338-339]

(LUTERO, Martinho. O Capítulo 15 [da Primeira Carta] de S. Paulo aos Coríntios. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Ed. Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2005, “O capítulo 15 da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios”, vol. 9, tradução de Walter O. Schlupp, páginas indicadas no texto)



terça-feira, 17 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 17


A INUTILIDADE DAS RIQUEZAS

1ª Coríntios 15:26-27
“O último inimigo a ser destruído é a morte. Por que todas as coisas sujeitou debaixo dos pés.”

O cristão, entretanto, justamente pelo fato de ter-se tornado um cristão, está enfiado na morte e a carrega consigo a toda hora, onde quer que esteja, precisando esperá-la a todo o momento enquanto aqui viver, uma vez que o diabo, o mundo e sua própria carne não lhe dão sossego. Em contrapartida, ele tem a vantagem de já ter saído da sepultura com a perna direita e tem um poderoso assistente que lhe estende a mão, ou seja, seu Senhor Cristo, que, há muito, já saiu, dá-lhe a mão e já o retirou em mais da metade, de modo que não resta mais que o pé esquerdo. Isso, porque o pecado já lhe está perdoado e eliminado, a ira de Deus e o inferno, apagados, ele já vive totalmente em e junto a Cristo e sua parte melhor (que é a alma) participa da vida eterna; por isso, a morte não mais pode segurá-lo nem comprometê-lo, exceto que o resto, a velha pele, carne e sangue precisam decompor-se para, também, renovar-se e, também, poder seguir à alma. No mais, já chegamos totalmente à vida, porque Cristo e minha alma não mais estão na morte.

Desse consolo e obstinação, o mundo nada sabe, embora teimem e se gabem de muito dinheiro e posses, de grande prestígio, amizade e poder. Porém, diga-me uma só pessoa que, com tudo isso, pudesse depender-se da morte ou evitá-la. Ainda não houve um sequer que tivesse levado consigo a mínima coisa, um grãozinho ou um pingo d’água. Têm que ficar deitados ali, não conseguem ajudar-se com uma respirada sequer, ficando estirados eternamente em fedor insuportável, se não os enterrarem. E nenhum vermezinho seria tão inofensivo a ponto de não conseguir apoderar-se deles para devorar o cadáver. Nenhum rei jamais foi tão rico e poderoso que pudesse levar consigo toda a sua coroa e poder o equivalente a um centavo que fosse. Pelo contrário, tudo que já tiveram, eles têm que deixar aqui fora, deixando-se enterrar no túmulo, totalmente desprovidos.

Embora não muitos de nós já tenhamos saído com Cristo da morte e da sepultura de volta para a vida, temos um homem que da morte tudo levou consigo, nada perdendo por causa dela, mas tudo levou consigo, não deixando lá um fio de cabelo sequer; mas, justamente nela, ele puxou todas as coisas para si (como ele mesmo diz) e as sujeitou a si, de modo que, dele e por meio dele, também nós tenhamos que sair e, também, puxar conosco tudo o que aqui deixamos. Disso podemos nos gabar e isso, também, podemos defender contra o mundo inteiro, ainda que ridicularizem a fé e o cristianismo, fiando-se em que, agora, têm dinheiro e posses suficientes, vivendo como querem em sua ganância e toda sorte de prazeres. Mas o que vale é: vai acumulando, poupando e ajuntando numa boa, vê quem consegue desbancar o outro! Se tu tens dinheiro e posses, poder e tudo que desejas, tenta levar um centavo contigo! Mas eu quero te mostrar um Senhor que nada deixou atrás de si na morte, mas arrancou tudo [dela] e, também, me dá a mão para que eu possa arrancar também a mim. Mostra-me um homem desses em todo o mundo que, alguma vez, tenha levado consigo um fio ou o tenha trazido da morte!? Que adianta tua insistência em algo tão nulo, que não fica em teu poder sequer um momento ao chegar a morte, como se quisesses tê-lo eternamente ou levar tudo contigo?

(Martinho Lutero. O capítulo 15 da Primeira Carta de S. Paulo aos Coríntios, in MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas.. Tradução de Luís H. Dreher. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2005. vol. 9, págs. 354-355)



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 16


AS RIQUEZAS

Desse modo, quanto mais formos favorecidos com riquezas, tanto mais será necessário, para todos nós, algum defeito pelo qual nos tornemos humildes. Em segundo lugar, os ricos confiam nas riquezas. Ora, Deus quer que eles transformem os outros em pessoas ricas. As suas riquezas são sombras e sinais das verdadeiras riquezas. Se querem ser salvos, empenhem-se para que sejam "ricos em boas obras". "Que pratiquem o bem". [O apóstolo] não diz, apenas, que devem praticar boas obras, mas que devem fazê-lo em abundância, pois está ao alcance de suas mãos a capacidade de vestir os pobres e dar de beber aos que têm sede. Isso porque "a quem mais foi dado, dele mais será pedido" [Lc 12:48]. Que não façam, apenas, o bem, mas que o façam em maior profusão do que os outros, a fim de que não sejam ricos em ouro e prata, mas, sim, em boas obras. "Que repartam com presteza". Aqui ele fala de um ponto de vista específico ou de acordo com a "espécie", ao passo que, acima, falara em geral, ou de acordo com o "gênero" fazer boas obras. Que tenham presteza em partilhar. "[Que sejam] generosos". São "pessoas que repartem" com aqueles que passam necessidade e que se comportam com benevolência e disposição para compartilhar, de sorte que as pessoas possam obter algum benefício de sua parte. Assim como as coisas ou a caixa comum está disponível ao uso de todos os irmãos, o mesmo se dá com o rico. É difícil repartir, ser magnânimo. "Coinônico" (de koinonicos – generoso – em contraposição a canônico), pelo contrário, é que se gostaria de ser! "Que acumule tesouros" [6.19]. Isto explica a frase "nem depositem a sua esperança na incerteza [da riqueza]", etc. [1 Tm 6.17], pois é isso o que fazem os ricos. Aqui, porém, eles procuram um "fundamento" fiel, que dura para sempre. O mesmo diz Cristo: [Lucas 16.9]: "Fazei, para vós, amigos a partir da idolatria da riqueza" [Lc 16.9]. "Dai esmola e eis que tudo [vos será limpo]" [Lc 11.41]. Os ricos devem observar isso diante dos outros, daqueles que são atribulados pela penúria.

(Martinho Lutero, "Apontamentos do Dr. M.[artinho] à Primeira Epístola a Timóteo", in Martinho Lutero. Obras SelecionadasInterpretação do Novo Testamento – Mateus 5-7 – 1 Coríntios 15 – 1 Timóteo, tradução de Luís H. Dreher. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra, 2005, vol. 9, p. 594)



domingo, 15 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 15

Pintura de Gustav Spangenberg retrata Lutero regendo os filhos, assistidos
por Phillip Melanchton e Katharina von Bora com o filho no colo.

LUTERO, O MÚSICO

Hoje, deixamos de lado os artigos e opiniões de Martinho Lutero para evocar sua condição de ótimo músico, como se depreende do clássico hino "Castelo Forte", de sua composição, inspirado que foi pelo Salmo 46.

Nem todo mundo pode ouvir este hino ao som do cravo, o avô dos pianos, mas experimente ouvi-lo ao som de um violão clássico regulado para tons medievais. É surpreendente!

Hino cantado por milhões de cristãos em centenas de idiomas desde 1521, eis a versão atual de Castelo Forte na voz do Quarteto de mesmo nome:




sábado, 14 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 14


A GUERRA

É verdade tudo aquilo que se escreve e diz acerca do grande mal que a guerra representa. Dever-se-ia considerar também, entretanto, quanto maior é aquele mal que é impedido com guerras. Claro, se as pessoas fossem retas e de bom grado mantivessem a paz, a guerra seria a maior calamidade sobre a terra. Que achas, entretanto, do fato de o mundo ser ruim, de as pessoas não quererem manter a paz, não quererem deixar de pilhar, roubar, matar, violar mulheres e crianças, tirar os bens e a honra? É esta discórdia geral do mundo inteiro, pela qual não restaria nenhum ser humano, que precisa ser evitada por intermédio da discórdia menor chamada de guerra ou de espada. É por isso que Deus também á à espada esta honra elevada de denomina-la de sua ordem própria, e não quer que se diga ou pense que foram seres humanos que a inventaram ou instituíram. Pois a mão que conduz esta espada e mata também não é mais mão humana, mas a mão de Deus, e não é a pessoa humana, mas Deus que está enforcando, rodando, decapitando, estrangulando e guerreando. Tudo isso é obra sua e juízo seu.

Em suma: o que se deve olhar no ofício militar não é o fato de matar, incendiar, ferir, conquistar, etc. Pois quem faz isto é o estreito olhar de criança ingênua que não enxerga outra coisa senão que o médico está cortando fora a mão ou serrando a perna; enxerga, mas não se dá conta de que a finalidade é salvar o corpo inteiro. Da mesma forma se deve olhar o ofício militar ou da espada com olhos de homem, enxergando a razão por que ele mata e age de forma tão cruel. Assim ficará provado por si mesmo que se trata de ofício em si divino e tão necessário e útil para o mundo como o comer e o beber, mais do que outra obra. O fato, entretanto, de alguns abusarem desse ofício, matando e ferindo sem necessidade, somente para satisfazer seus caprichos, é culpa não do ofício, mas da pessoa. Pois onde está o ofício, a obra ou qualquer coisa que seja, tão boa que não seja que gente descarada e malvada não abusassem deles? São como médicos loucos que quisessem decepar uma mão sadia de uma pessoa, sem necessidade, por puro capricho, sim, fazem parte da discórdia geral, a qual precisa ser combatida com guerra justa e espada, obrigando-a [a tornar-se] paz. Assim também sucede e sempre sucedeu que são derrotados aqueles que entram em guerra sem necessidade. Pois em última análise não conseguem resistir ao juízo de Deus, isto é, à sua espada. Ele os encontra e atinge por fim, como agora também sucedeu na rebelião dos camponeses.

(Lutero, Martinho. Guerra dos Camponeses. Acerca da Questão, Se Também Militares Ocupam uma Função Bem-Aventurada. 1526. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. Tradução de Walter O. Schlupp. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. 1996. vol. 6. págs. 366-367)



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 13


SUPERSTIÇÃO


Erguer-se-á um rei poderoso de aparências.

(Daniel 8:23)

Jerônimo traduziu: “descarado”, mas em hebraico está escrito: “oz panim” – “poderoso de aparências”. O [verbo] “erguer-se-á” não se refere a uma pessoa, mas a todo o reino e seus sucessores; e dá a entender que este reino não será apenas por breve tempo. Assim também Cristo diz que a abominação está posta no lugar santo [Mt 24.15], quer dizer, ela está firme, estável, corroborada por muitos adeptos. E Paulo também não diz que o filho da perdição vai passar, mas vai se assentar no templo de Deus [2 Ts 2.3s].

É de fato estranho o poder deste rei monstruoso, que não é poderoso de chifres nem de patas, nem de espada nem de armas, mas “poderoso de aparências”, totalmente diferente de todos os demais. E não diz “poderoso de aparência”, mas de “muitas aparências”. Por essa razão não se enquadra com o turco nem com qualquer outro reino que é sustentado pelo poder e pelas armas. Os reinos desta espécie são representados por dentes, chifres, patas. E também não é o reino de Cristo, que não tem absolutamente nenhuma aparência e consiste no Espírito e luta com o chifre espiritual, que é a palavra de Deus. Assim este reino não será nem espiritual nem secular, e não é construído nem por armas espirituais nem temporais. Por meio de que armas então? Pelas aparências, isso é, pela aparência externa, pela pompa, ou então, para dizê-lo em uma só palavra, pelas superstições, rituais, cerimônias, que são expostas à vista nas vestes, comidas, pessoas, moradias, gestos e coisas semelhantes. Entre todas essas aparências e fachadas a superstição e a hipocrisia, que é a aparência da piedade e a aparência religiosa, são as mais poderosas e mais agradáveis, e por isso as mais prejudiciais. Nem as aparências profanas, como por exemplo, das moças, dos jovens, das riquezas, dos amigos, das diversões ou qualquer outra coisa, atraem, prendem e cativam desta maneira. Por outro lado, [as aparências] sagradas, por simularem o divino e apresentarem sinais das coisas eternas, prendem e enganam inclusive os mais sábios, mais santos, mais poderosos e até mesmo os eleitos [cf. Mt 24.24].

Portanto fica evidente que este rei é o anticristo, isso é, o adversário de Cristo e de seu reino. Pois Cristo é um rei potente na verdade, um veemente adversário das aparências e fachadas, como vemos no Evangelho. Este rei, porém, é potente nas aparências, veemente adversário da verdade. Por isso não é sem razão que os apóstolos Pedro e Paulo nos inculcam tantas vezes o vocábulo “verdade” e nos dissuadem da aparência. Paulo diz o seguinte, ao expor este assunto: “Haverá homens egoístas, etc.” E segue: “tendo a aparência da piedade, negando-lhe, porém, o poder” [2 Tm 3.2,5].

(LUTERO, Martinho. Resposta a Ambrósio Catarino. 1520. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. Tradução de Ilson Kayser. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Canoas: Ulbra. 2. ed., 2007. vol. 3, págs. 41-42]



Milagre nos Andes, 45 anos depois


A foto em preto e branco acima é o retrato definitivo de uma das mais belas e - simultaneamente - trágicas páginas da história da humanidade.

Celebra o espírito humano em suas dimensões mais extremas (e - por que não dizer - polêmicas) e nos dá um exemplo único e incomparável do que significa viver.

É que hoje faz exatos 45 anos do acidente aéreo que entrou para a História como o caso dos sobreviventes dos Andes, no dia 13 de outubro de 1972, uma sexta-feira 13 que - lamentavelmente - fez jus à superstição.

Essa é uma das histórias mais conhecidas de acidente aéreo no mundo, numa época em que era praticamente impossível que alguém sobrevivesse a tragédias com aviões.

Hoje, felizmente, a indústria aeronáutica evoluiu tanto que os acidentes se tornaram muito menos frequentes, e já não são mais raras as oportunidades em que haja um bom número de sobreviventes quando um avião sofre uma avaria qualquer.

Naquele tempo, entretanto, a notícia do desaparecimento do voo 571 da Força Aérea Uruguaia quando sobrevoava a Cordilheira dos Andes, na fronteira entre Argentina e Chile, despertou os piores temores e o longo período de buscas infrutíferas provocou a certeza de que ninguém havia sobrevivido.

O avião modelo Fairchild Hiller FH-227 transportava o time amador de rugby dos "Old Christians", do Colégio Stella Maris de Montevidéu, que disputaria uma partida em Santiago do Chile, que no dia anterior já havia feito uma parada forçada em Mendoza, na Argentina, por conta do mau tempo.

Eles não sabiam até então, mas 23 dos 78 aviões Fairchild 227 fabricados no mundo sofreram graves acidentes ao longo de sua vida (in)útil em razão de problemas de potência no motor, matando 393 pessoas no total.

Tudo indica que foi exatamente o motor fraco, associado ao cálculo equivocado dos fortes ventos contrários (que reduziram dramaticamente a velocidade real em comparação com aquela apontada pelos controles do avião), que levou os pilotos a se chocarem contra as montanhas numa área de ínfima visibilidade.

Milagrosamente, depois dos seguidos choques com a crista da montanha, que foram tirando as asas e a fuselagem traseira do avião, só sobrou o "charuto" anterior, onde se concentraram os sobreviventes.

Das 45 pessoas a bordo, (40 passageiros e 5 tripulantes), 7 desapareceram lançados aos ares nos primeiros choques e 6 morreram instantaneamente no impacto final com o solo.

Havia 32 sobreviventes quando os restos do avião "estacionaram" na neve após deslizarem por centenas de metros no local conhecido como "Glaciar de las Lágrimas", a 3.500 m de altitude sobre o nível do mar, 2 km abaixo de onde a cauda se havia despedaçado ao tocar o primeiro pico.

Na madrugada e no dia seguintes, mais 4 passageiros não resistiram aos graves ferimentos provocados não só pelo choque como pela "avalanche" de poltronas que se amontoaram nos bancos da frente.

6 corpos dos 7 desaparecidos lançados aos ares foram encontrados por uma expedição no dia 24 de outubro, mas não havia nem sinal do avião, cujos ocupantes agonizavam num local de difícil acesso e visualização pelas equipes de resgate.

No domingo, 29 de outubro de 1972, uma avalanche soterra os sobreviventes por 3 dias, matando 8 deles que até então resistiam bravamente às intempéries e à tragédia anunciada.

Nos dias 15 e 18 de novembro, e 11 de dezembro, morrem mais 3 corajosos (até então) sobreviventes, um em cada dia.

Desde o começo, eles haviam racionado os poucos alimentos que tinham, mas diante da impossibilidade de encontrar comida animal ou vegetal no local em que estavam, são obrigados a se valer dos corpos enterrados na neve, de seus amigos e familiares, para continuarem vivos.

Talvez tenha sido o canibalismo que mais chamou a atenção do mundo do que o acidente em si, mas um dos sobreviventes, José Pedro Algorta buscou uma referência religiosa - na eucaristia católica - para justificar o ato e dar ânimo aos demais dizendo que "seus amigos lhes davam os seus corpos para sua vida física, assim como Jesus  lhes havia dado o seu corpo para sua vida espiritual".

Foi esta decisão radical - verdadeira injeção de ânimo - que lhes permitiu seguirem vivos, até que três deles, Antonio Vizintín, Fernando Parrado e Roberto Canessa, inconformados com o decreto de morte certa, um dia após a última morte de um companheiro, decidem se aventurar pela cordilheira em busca de socorro, já que não havia mais esperança sequer de que alguém continue tentando encontrá-los.

Com muito esforço, eles haviam feito o rádio do avião funcionar e já sabiam que eram dados como mortos e as buscas já tinham sido suspensas.

Depois de 3 dias de caminhada, Vizintín escorrega e se machuca, voltando ao improvisado "acampamento", e depois de percorrerem 55 km, 10 dias após haverem iniciado a marcha equivocadamente para oeste (no Chile, quando seria muito mais rápido e fácil serem localizados indo para leste, na Argentina), Parrado e Canessa encontram o chileno Sergio Catalán, que chama os carabineiros para socorrerem os 16 sobreviventes.

No dia 22 de dezembro de 1972, para delírio e alívio do mundo que acompanhava o drama (inclusive deste que vos escreve, então com 9 anos de idade) termina o resgate do último sobrevivente, 72 dias após o terrível acidente.

Essa é, sem dúvida, uma das mais emocionantes, famosas e impressionantes histórias de resgate de vítimas e superação humana de que se tem notícia, razão pela qual se tornou objeto de muitos livros e filmes ao longo desses 40 anos.

Em 2010, não muito longe dali, só que no deserto de Atacama, 33 mineiros chilenos manteriam o mundo em suspense até seu resgate espetacular. Estranha (e feliz) propensão dessa região a proporcionar histórias quase inacreditáveis de sobrevivência em ambientes hostis.

Se os Andes por si só já representam um milagre da natureza, um presente de Deus para os sulamericanos, a história dos heróis uruguaios da humanidade será contada para sempre como um dos mais belos milagres que se tem notícia.

O Terra preparou um belo infográfico para celebrar a data, e abaixo seguem dois vídeos, o primeiro da reconstituição do acidente no filme "Vivos" ("Alive" - 1993) e o segundo um excelente documentário ("Estou Vivo: Milagre nos Andes") na íntegra do History Channel:







Último grupo de sobreviventes na última noite no avião,
felizes por saber que seriam resgatados na manhã seguinte.
Os 16 sobreviventes se encontram anualmente no dia do resgate para celebrar a vida.


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 12


OS JUROS

A maior desgraça da nação alemã, contudo, é com certeza o empréstimo a juros: se este não existisse, muitos teriam que deixar de comprar sua seda, seu veludo, joias, especiarias e toda sorte de ostentação. Ele não existe há muito mais de 100 anos e já levou à pobreza, à miséria e à perdição quase todos os príncipes, fundações, cidades, nobres e herdeiros. Se continuar por mais 100 anos, é impossível que a Alemanha fique com um centavo sequer. Com certeza teremos que nos devorar uns aos outros. Foi o diabo que o inventou, e com a sua aprovação o papa fez sofrer o mundo inteiro. Por isso conclamo e peço aqui que cada um encare sua própria perdição, a de seus filhos e herdeiros – ela não está às portas, mas já grassa dentro de casa – e que o imperador, os príncipes, senhores e cidades façam com que o empréstimo a juros seja proscrito o mais rápido possível e coibido doravante, não importa se o papa e toda a sua justiça ou injustiça se oponham, ou se há feudos ou fundações sobre ele embasadas. É melhor que seja instituído um único feudo com bens hereditários ou rendas honestas numa cidade do que uma centena deles à base do empréstimo a juros. Sim, um feudo baseado em empréstimo a juros é pior e mais pesado do que 20 deles baseados em bens hereditários. Na verdade o empréstimo a juros deve ser símbolo e sinal de que o mundo está vendido ao diabo com graves pecados, de sorte que só podemos mesmo ficar carentes de bens seculares e espirituais ao mesmo tempo. No entanto, ainda não estamos notando nada!

Neste ponto também se deveriam realmente por rédeas nos Fugger e nas companhias desse tipo. Como é possível que durante a vida de uma única pessoa se juntem tão imensos bens reais de acordo com a vontade de Deus e de maneira correta? Eu não conheço a conta. Mas não compreendo como se pode, com 100 florins, ganhar 20 por ano, sim, com um florim, ganhar mais outro, e tudo isso proveniente não da terra ou do gado, onde os bens não dependem do entendimento humano, mas da bênção de Deus. Deixo isso para os entendidos do mundo. Eu, como teólogo, não posso censurar mais do que a aparência maligna e escandalosa da qual diz São Paulo: “Acautelai-vos de todo aspecto ou aparência maligna” [1 Ts 5.22]. Isso eu sei muito bem: seria muito mais de acordo com a vontade de Deus fomentar a agricultura e reduzir o comércio, e que agem muito melhor aqueles que cultivam a terra, conforme a Escritura, e nela procuram seu sustento, como está dito a nós e a todos na pessoa de Adão: “Maldita seja a terra quando nela trabalhas; ela te produzirá cardos e abrolhos, e no suor do teu rosto comerás o teu pão” [Gn 3.17-19]. Ainda há muita terra não arada e sem cultivo.

(LUTERO, Martinho in À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da Melhoria do Estamento Cristão. 1520. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. Tradução de Walter O. Schlupp. 2. ed. 2000. vol. 2, págs. 337-338)



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 11


AS INDULGÊNCIAS E O PURGATÓRIO

Tese 19

Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas e seguras de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza.

Pois nós, porque cremos que nenhuma alma vai ao purgatório a menos que pertença ao número daquelas a serem salvas, estamos certos da bem-aventurança delas, assim como estamos certos da salvação dos eleitos. Mesmo assim, não impugno muito se alguém afirma que elas estão certas [de sua bem-aventurança]. Eu digo [apenas] que nem todas estão certas. Mas como todo o assunto as almas no purgatório é sobremaneira abscôndito, explico a tese mais persuadindo do que demonstrando.

1. Em primeiro lugar, a partir das afirmações anteriores: se a pena do purgatório é aquele pavor e horror da condenação e do inferno, todo pavor, porém, torna o coração perturbado, incerto, privado de conselho e auxílio, e mais intenso e tanto mais quanto mais intenso e inopinado for. Ora, o pavor das almas é o mais intenso e inopinado de todos, como foi dito acima e como diz Cristo: "Aquele dia sobrevém como um laço" ([Lc 21.34]. E o apóstolo: "O dia do Senhor virá como ladrão de noite" [2 Pe 3.10; 1 Ts 5.2]. Por esta razão, é muito provável que, por causa de sua perturbação, elas não saibam em que estado estão, se condenadas ou salvas; sim, parece-lhes que já estão a caminho da condenação, que já estão descendo ao inferno e que, em verdade, já estão nas portas do inferno, como diz Ezequias. Mas também 1 Rs 2.6 diz: "O Senhor faz descer aos infernos e faz subir". Portanto, não sentem outra coisa senão que sua condenação está começando, só que sentem que a porta do inferno ainda não se fechou atrás delas e também não abandonam o desejo de auxílio, ainda que este não seja visível em parte alguma. Pois assim falam os que o experimentaram. Façamos uma comparação: suponhamos que alguém vem inopinadamente ao juízo da morte, caindo, por exemplo, nas mãos de salteadores, que o ameaçam de morte de todos os lados, ainda que tenham decidido aterrorizá-lo, não matá-lo. Neste caso, eles estão certos de que ele viverá, ele mesmo, contudo, nada mais vê exceto a morte iminentíssima e, por isso mesmo, já está morrendo. A única coisa que lhe resta é o fato de ainda não ter morrido e poder ser redimido da morte, mas não sabe de onde (pois vê que aqueles podem, porém não querem). Assim sendo, ele em quase nada difere de um morto. O mesmo parece acontecer no caso do medo da morte eterna, visto que não sentem outra coisa senão que a morte eterna os ameaça de toda parte. Assim canta a Igreja por eles: "Arranca suas almas da porta do inferno e liberta-as da goela do leão, para que o inferno não as engula", etc. O único conhecimento que lhes resta é que Deus pode redimi-los. No entanto, parece-lhes que ele não quer [fazê-lo]. Os condenados, porém, imediatamente acrescentam a blasfêmia a esse mal, ao passo que aqueles acrescentam apenas queixa e gemido inexprimível, auxiliados pelo Espírito. Pois aqui o Espírito de Deus paira por sobre as águas, onde há trevas sobre a face do abismo. Mas sobre isso [falei] mais amplamente acima.

2. Leem-se muitos exemplos nos quais se tem que algumas almas confessaram essa incerteza de seu estado, pois apareceram como que indo ao juízo, para o qual tinham sido chamadas, como [é dito] a respeito de S. Vicente, etc. Por outro lado, leem-se muitos exemplos nos quais confessaram sua certeza. Quanto a isto, digo: em primeiro lugar, eu disse que não todas estão certas. Em segundo lugar, conforme o dito anteriormente talvez [seria] melhor [dizer que] elas não estiveram certas, mas, por causa de seu desmedido desejo de ajuda, pediram, como se estivessem certas, que se as ajudasse mais rapidamente. Assim, elas antes julgam e timidamente presumem estar certas do que o sabem, da mesma forma como também no evangelho se diz, a respeito dos demônios, que eles sabiam que ele é o Cristo, isto é, eram fortemente de opinião, como diz a glosa. Pois assim acontece naturalmente em toda angústia e em todo pavor: somos fortemente de opinião que ainda podemos nos recuperar, ainda que aí haja mais um desejo de recuperação do que esperança ou saber, da mesma forma como nos demônios houve mais um desejo de saber do que o saber. É que o saber da salvação não se apavora nem treme, mas confia e tudo tolera com a maior coragem.

Neste ponto se diz: "Como fica então o juízo particular, que, como é voz corrente e como Inocêncio atesta, tem lugar na morte de qualquer pessoa? Pois parece que, por meio dele, o ser humano fica certo de seu estado". Respondo: não se segue que ele fique certo, mesmo que seja um juízo particular. Pode acontecer que o morto seja julgado e até acusado, mas que, ainda assim, a sentença seja adiada e não lhe seja revelada. Nesse ínterim, contudo, enquanto a consciência acusa, os demônios acossam e a ira de Deus ameaça, a mísera alma nada faz senão tremer por causa da sentença esperada com horror a todo momento, assim como faz em relação à morte corporal e como ameaça Dt 28.65 e ss.: "O Senhor te dará um coração pávido, e tua vida estará suspensa diante de ti. Pela manhã dirás: ah, quem me dera ver a noite! E à noite dirás: ah, quem me dera ver a manhã!". Assim também lá a morte eterna ferirá com pavor semelhante e supliciará a alma com terrível horror. Essa opinião não está muito dissonante da verdade, visto que, em Mt 5.22, também o Senhor distingue entre réu de juízo, réu de conselho e réu de inferno, isto é, entre um acusado, um convicto e um condenado. Mas também alguns insignes autores ousam afirmar, mais por conhecimento do que por ouvir dizer, que, por tremerem por sua vida, algumas almas são arrebatadas pela morte e de tal modo rejeitadas por Deus, que até o fim do mundo não sabem se estão condenadas ou se serão salvas. E caso se aceita aquela história sobre o monge que estava à morte e, como que condenado por causa do pecado da fornicação, já blasfemava, e que depois recuperou a saúde, fica suficientemente evidente que o juízo e a acusação do inferno podem afligir a alma mesmo que a sentença definitiva não tenha sido pronunciada ainda. O mesmo sentido tem o que o B. Gregório conta numa homilia a respeito de um jovem a quem, na morte, um dragão queria engolir.

É isso, pois, que proponho como verossímil a respeito de toda a matéria das penas do purgatório, movido, primeiramente, pela natureza do horror e pavor; em segundo lugar, porque a Escritura atribui essa pena aos condenados; por fim, porque toda a Igreja diz que são as mesmas as penas do inferno e do purgatório. Assim, creio que essa nossa opinião está suficientemente fundada nas Escrituras. Os apregoadores de indulgências, porém, parecem imaginar-se as penas das almas como se fossem infligidas de fora e fossem completamente externas, não nascendo a partir de dentro, na consciência, como se Deus apenas lhes tirasse as penas, ao passo que o contrário é mais verdadeiro: ele tira, antes, as almas das penas, como está escrito: "Ele afasta suas costas dos fardos" [Sl 81.6]. Ele não diz: "Afasta os fardos de suas costas". E mais uma vez: "Se passares pelo fogo, a chama não te fará mal" [Is 43.2]. De que forma não fará mal? Só porque ele dá confiança ao coração, para que não tema o fogo. Não, porém, de modo que não haja fogo quando ela tem de passar por ele. Por esta razão, o afastar as costas dos fardos não acontece senão curando o temor da alma e a confortando, assim como também foi dito acima que nenhuma pena é vencida sendo temida, e sim através de amor e desprezo. Ora, as indulgências não removem o temor, mas, pelo contrário, o suscitam tanto quanto podem, persuadindo que as penas a serem relaxadas são como que uma coisa odiosa. Entretanto, Deus se propôs ter filhos impávidos, seguros, generosos em eternidade e com perfeição, que absolutamente nada temam, mas, confiantes em sua graça, tudo vençam e desprezem, e considerem as penas e mortes um objeto de zombaria. Os demais ignaros ele odeia, os que são confundidos pelo medo de tudo, até mesmo pelo ruído de uma folha que voa.

De novo se objeta: "Se as almas suportam as penas de bom grado, por que oramos por elas?". Respondo: se não as suportassem de boa vontade, certamente estariam condenadas. Mas será que por isso não devem desejar orações? Pois também o apóstolo desejou que se fizessem orações por ele, para que fosse livrado dos descrentes e se lhe abrisse uma porta à palavra. Não obstante, era ele quem, cheio de toda confiança, se gloriava de desdenhar a morte. Mesmo que as almas não desejassem orações, é nosso dever condoer-nos de seu sofrimento e socorrê-las através da oração, assim como a quaisquer outros, por mais corajosamente que sofram. Depois, como as almas não sofrem tanto com a pena presente quanto com o horror da perdição iminente que as ameaça, não é de admirar que desejem intercessão, para que perseverem e não se tornem faltas de confiança, tendo em vista que, como eu disse, estão incertas quanto a seu estado e não temem tanto as penas do inferno quanto o ódio de Deus que existe no inferno, assim como é dito: "Na morte não há quem se lembre de ti; no inferno quem se confessará a ti?" [Sl 6.5]. Assim é evidente que não sofrem por temor da pena, mas por amor da justiça, como dissemos acima. Pois elas têm mais medo de não louvar e amar a Deus (o que aconteceria no inferno) do que de sofrer. Toda a Igreja ajuda, com razão, esse seu santíssimo, porém ansiosíssimo desejo tanto quanto pode, principalmente porque também Deus quer que elas sejam auxiliadas por meio da Igreja. E aqui finalmente chegamos ao fim desse tão obscuro e dúbio debate sobre as penas das almas. Não invejarei quem puder exibir coisa melhor, contanto que o faça apoiado em melhores passagens da Escrituras e não obnubilado pelas fumosas opiniões de seres humanos.

(LUTERO, Martinho, "Explicações do Debate sobre o Valor das Indulgências", in MARTINHO LUTERO. Obras SelecionadasOs primórdios – Escritos de 1517 a 1519. Tradução de Annemarie Höhn et al., São Leopoldo: Sinodal. Canoas: Ulbra. Porto Alegre: Concórdia, 2004, vol. 1, 2ª ed., pp. 107-110)



terça-feira, 10 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 10


O DIREITO

Alguém poderá dizer: Mas como? Não se deve defender o direito? Devemos renunciar à verdade? Não nos foi ordenado morrer por amor do direito e da verdade? Acaso os santos mártires não sofreram por causa do Evangelho? Não quis ter razão o próprio Cristo? Em todos os casos acontece que, às vezes, tais pessoas têm razão perante o público (e, como alardeiam, perante Deus), e agem bem e sabiamente. Respondo: Está na hora e urge abrir os olhos. Aqui está o nó da questão: importa, pois, que se esteja bem instruído sobre o que é estar com a razão. É certo que se deve sofrer qualquer coisa por amor da verdade e do direito e que não se deve negá-los, por mais insignificante que seja o assunto. Pode, inclusive, ser que tenham razão. No entanto, arruínam o direito por não executarem o direito conforme o direito, não agem com temor, não têm a Deus diante dos olhos. Acham que basta que seja direito, devem e querem prosseguir por sua própria autoridade e levar o jogo até o fim. Com isso transformam seu direito em injustiça, embora, em princípio, fosse justo. O perigo, porém, é muito maior quando apenas acham que é direito, mas não têm certeza, como ocorre nos elevados assuntos que dizem respeito a Deus e sua justiça. Em primeiro lugar, todavia, queremos falar do simples direito humano e dar um exemplo singelo e compreensível.

Acaso não é verdade que dinheiro, bens, corpo, honra, mulher, filhos e amigos, etc. também são coisas boas que o próprio Deus criou e deu? Sendo dons de Deus e não tua propriedade, [suponhamos] que ele queira pôr-te à prova para ver se serias capaz de renunciar a eles por amor a ele, aferrando-te mais a ele do que a esses seus bens; que ele te mandaria um inimigo que os tirasse de ti todos ou em parte e te prejudicasse, ou então os perdesses por morte e ruína, ou de outra forma. Crês que, neste caso, terias motivo justo para esbravejar, enfurecer-te e para recuperá-los com violência e à força, ou ficares impaciente até recobrá-los? Alegarias que são coisas boas e criaturas de Deus que ele próprio fez, e que toda a Escritura considera boas essas coisas; por isso estarias disposto a cumprir a palavra de Deus e proteger esses bens com o corpo e a vida e recuperá-los; ou então, ao menos, não estarias disposto a renunciar a eles espontaneamente nem entregá-los resignadamente. Não pareceria bonito? Se quisesses proceder bem neste caso, não deverias tentar passar com a cabeça pela parede. Como então? Deverias temer a Deus e dizer: Bem, querido Deus, são coisas boas e bens teus, como diz tua própria palavra, a Escritura. Não sei, porém, se mos queres conceder. Se porém, soubesse que preferirias vê-los em meu poder do que no poder daquele outro, quereria servir a tua vontade e recuperá-los com o empenho de corpo e bens. Como, porém, não sei nenhuma nem outra e vendo [apenas] o fato de que, no momento, permites que me sejam tirados, entrego a causa a ti. Aguardo o que devo fazer e estou disposto a tê-los ou a prescindir deles.

Eis aí uma alma justa; ela teme a Deus, conta com a misericórdia, como canta a mãe de Deus; a partir daí se pode compreender por que, em tempos passados, Abraão, Davi e o povo de Israel lutaram e mataram muita gente: empreenderam [essas coisas] por vontade de Deus, temiam [a Deus] e não lutavam por causa dos bens, mas porque Deus o esperava deles, como o demonstram os relatos, indicando, em geral, a ordem prévia de Deus. Vê, aqui a verdade não é negada: a verdade afirma que são coisas boas e renunciar a esses bens e estar disposto, a todo momento, a prescindir deles, quando Deus assim o quer, e que deves prender-te somente a Deus. A verdade não te obriga a recuperar os bens ao afirmar que são bons. Tampouco te obriga a dizer que não são bons. Muito antes deves ter uma atitude serena em relação a eles e confessar que são bons, e não maus.

Da mesma forma deve-se proceder também com o direito e toda sorte de bens da razão ou da sabedoria. O direito é uma coisa boa e dádiva de Deus – quem iria duvidar disso? A própria palavra de Deus afirma que o direito é bom e jamais alguém deve admitir que suas causas boas e justas sejam injustas ou más; antes deve morrer por isso e renunciar a tudo que não é de Deus; pois isso significaria negar a Deus e sua palavra que diz que o direito é bom e não mau. Acaso quererias gritar por causa disso, raivejar, esbravejar e destruir o mundo inteiro quando esse direito te é tirado ou suprimido? (Há os que procedem desse modo, os que clamam ao céu, provocam toda sorte de miséria, destroem terras e povos, cobrem o mundo com guerras e derramamento de sangue). Sabes acaso se Deus quer deixar-te essa dádiva e esse direito? Ora, é propriedade dele e ele pode to tirar hoje ou amanhã, dentro ou fora, por meio de inimigos e amigos e como quiser. Ele quer experimentar-te se, por amor dele, também estás disposto a renunciar ao direito, a não ter razão e sofrer injustiça, suportar a ignomínia por sua causa e a te prenderes somente a ele. Se és temente a Deus e pensas: Senhor, tudo é teu, não quero tê-lo a não ser que saiba que mo queres conceder; que se vá, seja o que for, contanto que tu sejas meu Deus – então se aplica este versículo: “E sua misericórdia está com aqueles que o temem”, que nada querem fazer sem sua vontade. Vê, aí está cumprida a palavra de Deus em ambos os casos: em primeiro lugar, confessas que o direito, tua razão, teu conhecimento, tua sabedoria e toda tua intenção são justos e bons, como o diz a própria palavra de Deus. Em segundo lugar, prescindes desses bens voluntariamente por amor de Deus, e aceitas ser destruído e injuriado injustamente pelo mundo, como o ensina igualmente a palavra de Deus. “Duas coisas são boas ou justas: confessar e conquistar”. Para ti basta confessar que tens o bem e o direito; se não o puderes conquistar, entrega isso a Deus. A ti se ordenou confessar; o conquistar está reservado a Deus. Se ele quiser que também o conquistes, ele mesmo o fará ou então to colocará à disposição, sem que te tivesses lembrado, de maneira que o deverás pegar na mão e conquista-lo de uma forma como jamais o terias imaginado ou desejado. Se ele não quiser, que te baste sua misericórdia. Ainda que te tomem a vitória do direito, não te podem tomar o confessar. Vê, assim temos que nos distanciar, não dos bens de Deus, mas do mau e perverso apego a eles, de modo que possamos renunciar a eles ou usá-los com tranquilidade, para que, em todos os casos, nos apeguemos somente a Deus. Isso deveriam saber todos os príncipes e autoridades que não se satisfazem com o confessar do direito, mas também querem, em todos os casos, conquista-lo e vencer, sem temor de Deus. Cobrem o mundo de sangue e miséria, acham que procedem bem e com justiça, porque a causa é justa ou, ao menos, acham que é justa. Isso não é outra coisa do que o orgulhoso e presunçoso Moabe, que declara e se considera digno a si mesmo de possuir o nobre e belo bem e dom de Deus (o direito), quando, na verdade, caso se contemplasse bem na presença de Deus, não é digno sequer de que a terra o suporte e de comer a códea [casca, crosta] do pão, por causa de seus pecados. Oh cegueira! Oh cegueira! Quem é digno ainda que seja da menor criatura de Deus? Contudo, não apenas queremos ter as criaturas mais elevadas, o direito, a sabedoria e a sua honra, mas ainda queremos preservar e conquista-las com furioso derramamento de sangue e toda sorte de desgraça. Depois vamos e fazemos orações, jejuamos, ouvimos a missa, fundamos igrejas com essa mente sanguinária, furiosa e louca, de sorte que não admiraria se as pedras arrebentassem diante de nossos olhos.

(LUTERO, Martinho. O Magnificat. 1521. MARTINHO LUTERO. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegra: Concórdia. Tradução Ilson Kayser. 1996. Vol. 6, págs. 56-58)



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Celebrando os 500 anos da Reforma com Lutero - parte 9



Primeiro Mandamento 

NÃO TERÁS OUTROS DEUSES


Isto é: considerarás somente a mim como teu Deus. Que significa isso e como se deve entendê-lo? Que significa ter um Deus, ou, que é Deus? Resposta: Deus designa aquilo de que se deve esperar todo o bem e em que devemos refugiar-nos em toda apertura. Portanto, ter um Deus outra coisa não é senão confiar e crer nele de todo coração. Repetidas vezes já disse que apenas o confiar e crer de coração faz tanto Deus como ídolo. Se é verdadeira a fé e a confiança, verdadeiro também é o teu Deus. Inversamente, onde a confiança é falsa e errônea, aí também não está o Deus verdadeiro. Fé e Deus não se podem divorciar. Aquilo, pois, a que prendes o coração e te confias, isso, digo, é propriamente o teu Deus.

Por isso, o sentido desse mandamento é exigir fé genuína e confiança de coração, que vai certeiramente ao verdadeiro e único Deus e se apega exclusivamente a ele. Isso quer dizer tanto como: toma cuidado no sentido de, apenas, eu ser o teu Deus e de forma nenhuma procures outro. Isto é: o que te falta em matéria de coisas boas, espera-o de mim e procura junto a mim, e se sofres desdita e angústia, arrasta-te para junto de mim e apega-te comigo. EU, eu quero dar-te o suficiente e livrar-te de todo aperto. Tão-só não prendas a nenhum outro o coração, nem o deixes em outro descansar.

Devo explanar isso algo mais claramente, a fim de que se entenda e perceba a coisa à luz de exemplos cotidianos de comportamento oposto. Há muito quem pensa que tem Deus e o bastante de tudo quando possui dinheiro e bens. Tão inabalável e confiadamente deles se fia e jacta que ninguém lhe vale coisa nenhuma. Eis que tal homem também tem um deus, Mamon, de nome, isto é, dinheiro e bens, em que põe o coração todo. Esse, aliás, é o ídolo mais comum na terra. Quem possui dinheiro e bens sabe-se em segurança, e é alegre e destemido como se estivesse assentado no meio do paraíso. Por outro lado, quem nada possui, duvida e desespera, como se de nenhum Deus tivesse notícia. Pois a gente vai encontrar bem poucas pessoas que estejam de bom ânimo e não se lastimem nem se queixem quando não têm Mamon. Isto se gruda e adere à natureza até a sepultura.

Assim, também, aquele que se vangloria de grande erudição, inteligência, poder, apreço, parentela e honra, e nisso põe sua confiança: esse também tem um deus; não, porém, o Deus verdadeiro e único. Isso, por sua vez, o percebes, quando se torna aparente, quão presunçoso, seguro e orgulhoso se é em razão desses bens, e quão pusilânime quando inexistem ou deles se é privado. Repito, por isso, que a explicação correta desse ponto é: ter um Deus significa ter algo em que o coração confia inteiramente.

Considera, outrossim, o que praticamos e fizemos até agora na cegueira sob o papado. Se alguém estava com dor de dente, jejuava em honra de Santa Apolônia; se temia incêndio, fazia de São Lourenço seu padroeiro; se pestilência, fazia votos a São Sebastião ou São Roque, e número incontável de semelhantes abominações, cada qual escolhendo o seu santo, adorando-o e invocando-lhe a ajuda em aperturas. Para cá também pertence a atividade excessivamente grosseira daqueles que fazem pacto com o diabo, a fim de que lhes dê dinheiro a rodo, ou lhes ajude em amores, proteja-lhes o gado, recupere-lhes bens perdidos, como fazem, por exemplo, os magos e os bruxos. Pois todos esses põem seu coração e confiança em outra coisa que não no Deus verdadeiro. Nada de bom esperam dele, nem junto a ele o procuram.

Assim entenderás com facilidade o que e quanto esse mandamento requer, a saber, o coração todo do homem e a confiança inteira, exclusivamente para Deus e mais ninguém. Para ter Deus – fácil te será inferi-lo – não se pode pegar e contê-lo com os dedos, nem é possível metê-lo em bolsa ou encerrá-lo em cofre. Quando o coração o alcança e lhe adere, isto sim, chama-se apreendê-lo. Mas aderir-lhe com o coração outra coisa não é senão confiar inteiramente nele. Por isso quer desviar-nos de tudo o mais, fora dele, e atrair-nos para si, visto ser o único e eterno bem. É como se dissesse: O que anteriormente procuraste junto aos santos ou confiaste receber do Mamon ou de qualquer outra coisa, espera-o tudo de mim e considera-me como aquele que te quer ajudar e derramar copiosamente sobre ti tudo o que é bom.

Eis que aqui tens o que é a verdadeira honra e culto divino agradável a Deus e por ele ordenado sob pena de ira eterna, a saber, que o coração não conheça outro consolo e confiança senão a ele. E disso não se deixará arrebatar, mas, sim, há de, sobre isso, arriscar e pospor tudo quanto existe na terra. Fácil te será compreender e julgar, em contraste com isso, como o mundo pratica apenas falso culto a Deus e idolatria. Porque jamais um povo foi tão ímpio que não instituísse e observasse algum culto divino. Cada um erigiu em deus especial aquele de quem fiava coisas boas, ajuda e consolo.

Assim, por exemplo, aqueles gentios que punham sua confiança em poder e domínio erigiram o seu Júpiter em deus supremo; os outros, que aspiravam a riqueza, felicidade ou prazer e dias bons, a Hércules, Mercúrio, Vênus ou outros; as mulheres grávidas a Diana ou Lucina, e assim por diante. Cada qual erigia em deus para si aquilo a que o atraía o coração. De sorte que, realmente, também na opinião de todos os pagãos ter um deus quer dizer confiar e crer. O erro, porém, está em que seu confiar é falso e errado, porquanto não se dirige ao único Deus, além do qual, na verdade, não há Deus, nem no céu, nem na terra. Por isso, os gentios, efetivamente, transformam sua própria fantasia e sonho a respeito de Deus em ídolo e fiam no puro nada. É o que se dá com toda a idolatria. Pois ela não consiste apenas em erigir uma imagem e adorá-la, mas, principalmente, num coração que pasma a vista em outras coisas e busca auxílio e consolo junto às criaturas, santos ou diabos, e não faz caso de Deus, nem espera dele este tanto de bem: que ele queria ajudar. Também não crê que procede de Deus o que de bem lhe sucede.

Existe, além disso, outro culto falso. Trata-se da maior idolatria que até agora praticamos, e ela ainda impera no mundo. Nela, também se fundamentam todas as ordens religiosas. Diz respeito apenas à consciência, quando essa procura ajuda, consolo e salvação em suas próprias obras e presume de forçar a Deus a lhe abrir as portas do céu, e calcula quantas doações fez, o número de vezes que jejuou, rezou missa, etc. Nessas coisas põe sua confiança e delas se abona, como se nada quisesse receber gratuitamente de Deus, mas obtê-lo por esforço próprio ou merecê-lo de modo supererrogatório [supérfluo], exatamente como se Deus estivesse de estar a nosso serviço e ser nosso devedor, nós, porém, os seus senhores feudais. Que é isso senão fazer de Deus um ídolo, sim um deus-maçã, e a si mesmo reputar-se Deus e em tal se erigir? Mas isso aí é um tanto erudito demais, impróprio para alunos de pouca idade.

Todavia, a fim de notarem e reterem bem o sentido desse mandamento, diga-se aos simples este tanto: deve confiar-se exclusivamente em Deus e dele prometer-se e esperar apenas coisas boas. Pois é ele quem nos dá corpo, vida, comida, bebida, nutrição, saúde, proteção, paz e todo o necessário em bens temporais e eternos. Além do que nos preserva de infortúnios e, quando algo nos sobrevém, ele nos salva e liberta. De forma que só Deus – conforme bastantemente se disse – é aquele de quem se recebe todo o bem e por quem se é livrado de todo infortúnio. A meu ver, essa também é a razão por que nós, alemães, desde tempos antigos, designamos a Deus precisamente com esse nome – mais fina e apropriadamente que qualquer outra língia – da palavra “gut”, por ser ele fonte eterna que transborda de pura bondade e do qual mana tudo o que é e se chama “bom”.

Pois, ainda que, de resto, muita coisa boa nos venha de homens, todavia, é receber de Deus tudo quanto se recebe por seu mandado e ordem. Nossos pais e todas as autoridades e, a mais disso, cada um relativamente ao seu próximo têm ordem de nos fazerem toda sorte de bem. De maneira que não o recebemos deles, senão de Deus, por intermédio deles. As criaturas são apenas a mão, o canal e o meio através de que Deus tudo concede, assim como dá seios e leite à mãe para dá-los à criança e dá grãos e toda espécie de frutos da terra para alimentação. Criatura nenhuma pode produzir, por si mesma, um só que seja desses bens. Homem algum se atreva, por isso, a tomar ou a dar algo, a menos que Deus o haja ordenado, a fim de reconhecermos que são dádivas de Deus e que também não se rejeitarão esses meios de receber bens através das criaturas, nem se procurarão, presunçosamente, maneiras e caminhos diversos dos que Deus ordenou. Isso não seria receber Deus, senão procurar de si mesmo.

Atente, pois, cada qual em si mesmo, para que esse preceito seja magnificado e exaltado acima de todas as coisas e não seja levado de galhofa. Inquire e esquadrinha o teu próprio coração miudamente. Descobrirás, então, se se apega ou não com Deus apenas. Se tens um coração que é capaz de esperar somente coisas boas de Deus, especialmente em aflições e penúria, e que, a mais disso, sabe renunciar e abandonar tudo o que não é Deus, então tens o único e verdadeiro Deus. Se, inversamente, o coração se apega em outra coisa, de que se promete, a título de consolo, mais bem e socorro que de Deus, e se, ao se encontrar situação desesperadora, foge dele em vez de para ele refugir, então tens um outro deus, um ídolo.

A fim de que se advirta, por conseguinte, que Deus não quer ver isso tratado de resto, porém, seriamente, quer velar no seu cumprimento, juntou ao preceito, primeiro, uma terrível ameaça, em seguida, uma bela e confortadora promessa, que também se devem inculcar bem e, nelas, martelar junto à mocidade, para que as tome a peito e as lembre.

(Catecismo Maior de Martinho Lutero, in “Livro de ConcórdiaAs Confissões da Igreja Evangélica Luterana”, Editoras Concórdia/Sinodal/Ulbra, 6ª ed., 2006, pp. 394-399)



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