domingo, 25 de setembro de 2016

A estranha associação de boa memória com colesterol alto no seu cérebro


Matéria intrigante publicada no El País:

Colesterol, a arma secreta do cérebro para preservar a memória

Cientistas espanhóis comprovam em ratos que essa molécula poderia prevenir os sintomas da demência e o Alzheimer

NUÑO DOMÍNGUEZ

Uma de cada três pessoas sofrerá de demência ao longo de sua vida. A perda progressiva da memória é uma das consequências mais frequentes do envelhecimento e se deve a uma longa relação de alterações que ocorrem no encéfalo e que se acumulam com o passar do tempo. Entre elas está a morte de neurônios causada pelo Alzheimer, a variante mais comum de demência, a mais difícil de combater e uma das maiores ameaças enfrentadas pela nossa civilização.

Um novo estudo de pesquisa básica acaba de descobrir uma outra possível causa para a perda da memória e aponta um aliado que poderia ser capaz de resgatá-la: o colesterol.

O excesso de colesterol ruim (LDL) no sangue faz aumentar o risco de infarto e outras doenças cardiovasculares fatais. Mas o cérebro produz o seu próprio colesterol, e, dentro desse órgão, ele é essencial para manter os neurônios vivos e saudáveis.

Cada vez que uma recordação é formada, os neurônios acionam determinados genes para fixá-la. Para isso, precisam ter colesterol o suficiente na parte exterior de sua membrana. Como um óleo que lubrifica uma máquina, o colesterol funciona como um transmissor dos sinais externos necessários para ativar os genes. A presença dessa molécula no encéfalo tende a diminuir com a idade, e as pessoas idosas, sejam saudáveis ou atingidas pelo Alzheimer, costumam apresentar taxas de colesterol cerebral inferiores ao normal.

Nesse novo estudo, publicado em Cell Reports, a equipe de Carlos Dottino, pesquisador do Centro de Biologia Molecular Severo Ochoa, de Madri, demonstra o papel fundamental desempenhado por essa molécula para a manutenção da memória em bom estado. Os ratos mais velhos possuem taxas de colesterol baixas demais no hipocampo, uma área do cérebro relacionada à memória. Os cientistas demonstram que, quando se aplica uma substância que impede a perda de colesterol no encéfalo, a memória dos roedores mais velhos melhora significativamente. Isso poderia abrir um novo caminho para a melhora da memória em pessoas idosas.

“Acreditamos que essa descoberta pode avançar para a clínica”, explica Dotti ao EL PAÍS. “Normalmente, seriam necessários muitos estudos” sobre a substância utilizada no trabalho, mas, neste caso, “muitas delas já estão disponíveis, pois a droga em questão já foi aprovada, e se trata do voriconazol”. Esse medicamento, que leva o nome comercial de Vfend e é produzido pela Pfizer, é usado para combater infecções por fungos em pessoas com o sistema imunológico muito fragilizado, como as que acabam de receber um transplante ou que contraíram aids.

Por acaso, a equipe acabou por descobrir que essa substância também inibe uma enzima responsável pela eliminação do colesterol dentro do cérebro e cuja atividade é acelerada com o passar dos anos. Nos animais estudados, o medicamento inibe esse efeito negativo da idade e permite que todo o colesterol necessário seja preservado, e, com ele, a memória. O próximo passo, comenta Dotti, “seria testar o medicamento em animais mais parecidos com os humanos, cães ou macacos”, e comprovar se também nesses casos a capacidade cognitiva é resgatada.

O risco das estatinas

“Trata-se de um estudo em ratos. Por isso, é preciso vê-lo com cautela. Mas, de todo modo, é uma demonstração de que o colesterol não é o inimigo público número um”, avalia Félix Viñuela, coordenador do Grupo de Estudos de Neuropsicologia da Sociedade Espanhola de Neurologia. O pesquisador destaca a importância dos estudos de ciência básica com ratos, como neste caso. A grande maioria acaba não sendo reproduzível em humanos, admite ele, mas alguns são, como ficou evidenciado recentemente com um anticorpo que poderia combater o Alzheimer em pacientes e que começou a ser testado em ratos há vários anos.

Outro aspecto importante do estudo está relacionado a um tipo de medicamento que é consumido diariamente por milhões de pessoas na Espanha. Hoje em dia, os medicamentos mais utilizados para diminuir o chamado colesterol ruim são as estatinas. Esses compostos são eficazes, mas poderiam ser responsáveis também por efeitos colaterais não previsto inicialmente. Recentemente, a agência de medicamentos dos EUA alertou para o fato de que certos pacientes que ingerem estatinas podem sofrer perda de memória e uma deterioração cognitiva por razões desconhecidas.

“Existem estatinas que são capazes de passar da corrente sanguínea para o cérebro”, explica Dotti, destacando que é possível que essas drogas estejam diminuindo os níveis de colesterol normais no encéfalo e danificando, assim, a memória dos pacientes.

Viñuelas, que não participou diretamente do estudo, mas que irá coordenar um teste com o anticorpo experimental contra o Alzheimer no Hospital Universitário Virgem de Macarena, em Sevilha, concorda: “As estatinas salvaram vidas controlando o colesterol patológico, mas também podem ter um lado negativo”. “Talvez devêssemos nos colocar a possibilidade do uso de estatinas que não sejam capazes de cruzar a barreira de proteção hemato-encefálica”, sugere.



sábado, 24 de setembro de 2016

Vem aí seriado de TV sobre Jim Jones

Para quem quiser se informar melhor sobre quem foi o facínora Jim Jones, sugerimos a leitura dos seguintes artigos que já publicamos aqui:



A matéria abaixo foi publicada no UOL Entretenimento:

Criador de “Breaking Bad” fará série sobre líder de culto religioso suicida

Vince Gilligan resolveu sair de Albuquerque para outro interior dos Estados Unidos, contar mais uma saga de ascensão de uma figura sombria. Depois de firmar seu nome como autor da aclamada série Breaking Bad, universo em que ele ainda burilou por duas temporadas, na série filhote Better Call Saul, o produtor resolveu contar a história de uma das figuras mais controversas do século passado: o líder religioso Jim Jones.

De acordo com o site Deadline, a série, que terá um número limado de episódios, será produzida por Gilligan, sua parceira de Breaking Bad Michelle MacLaren e a atriz Octavia Spencer, dona dos direitos de adaptação do livro Raven: The Untold Story of Jim Jones and His People, escrito pelo jornalista Tim Reiterman, que sobreviveu ao massacre. Será a primeira produção de Gilligan na HBO, que MacLaren, que dirigirá a série, já conhece por ter dirigido episódios de Game of Thrones.

O norte-americano Jim Jones é um dos personagens mais sinistros da história dos cultos religiosos do século passado, mas sua personalidade sombria floresceu depois de começar como um carismático líder bem intencionado. Sua escalada para a fama começou com a criação de sua própria igreja, o Templo dos Povos, que começou sua história no estado de Indiana, migrou para São Francisco na Califórnia e finalmente para a Guiana, aqui na América do Sul, onde fundou sua própria colônia, Jonestown, que no final dos anos 70 foi palco para um macabro suicídio coletivo de quase 1000 pessoas, entre elas mais de 300 crianças, todos envenenados. Fica a dúvida se a série mostrará o tempo em que Jones passou pelo Brasil, no início dos anos 60, quando escolheu Belo Horizonte como a melhor cidade para fugir de um ataque nuclear, que ele estava certo que aconteceria naquela década, para depois mudar-se com seu culto para o Rio de Janeiro, onde atuou junto às comunidades das favelas cariocas.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

STF equipara paternidade afetiva à biológica

A matéria é da Agência Brasil:

STF decide que pais biológicos e afetivos têm as mesmas obrigações com filhos

André Richter

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu hoje (21) reconhecer que pais biológicos devem cumprir suas obrigações judiciais mesmo se os filhos forem criados pelos pais afetivos. Com a decisão, a Corte reconheceu a dupla paternidade de filhos e entendeu que pais biológicos a afetivos têm as mesmas obrigações.

No julgamento, por oito votos a dois, os ministros seguiram voto do relator, Luiz Fux. O ministro entendeu que é possível o reconhecimento de outro tipo de paternidade que não deriva do modelo tradicional de casamento.

Para Fux, o reconhecimento da paternidade biológica e afetiva, simultaneamente, somente poderia ser rejeitada no caso de abandono do pai biológico.

“A paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, salvo nos casos de aferição judicial do abandono afetivo voluntário e inescusável dos filhos em relação aos pais”, disse o relator.

Durante o julgamento, o ministro Gilmar Mendes classificou a tentativa do pai biológico de se eximir das obrigações legais de "cinismo".

"A mim me parece que isso é um grande estímulo à ideia de paternidade irresponsável. A mim me parece que é a dose de cinismo manifesta", afirmou Mendes.

Para a presidente do STF, Carmen Lúcia, "amor não se impõe, mas cuidado, sim. Segundo a ministra, o direito ao cuidado é assegurado no casos de paternidade e maternidade.

"Alguém que cuidou com afeto, cuidou muito mais e foi muito mais pai, às vezes, do que este outro. No entanto, o que nós estamos decidindo aqui não é por um ou por outro, mas pelos deveres decorrentes da paternidade responsável", argumentou a ministra.

A decisão do Supremo afetará pelo menos 35 ações que tratam do mesmo assunto e aguardavam a manifestação da Corte para serem concluídos.

Edição: Armando Cardoso



quinta-feira, 22 de setembro de 2016

1/3 dos brasileiros acredita que mulher atraente provoca estupro

Confira o surpreendente resultado da pesquisa publicada no HuffPost Brasil:

Um em cada três brasileiros acredita que 'a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada'

A pesquisa Datafolha encomendada pelo FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e divulgada nesta quarta-feira (21) revelou que um em cada três brasileiros concorda com a afirmação de que "a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada".

O levantamento mostrou também que a porcentagem de concordância com a frase é a mesma entre homens e mulheres: 30%. Foram ouvidas 3.625 de pessoas com 16 anos ou mais, e a margem de erro é de dois pontos percentuais.

A percepção de que a mulher que usa "roupas provocativas" é culpada caso sofra um estupro é maior entre pessoas que têm apenas o ensino fundamental (41%), moradores de cidades de até 50 mil habitantes (37%) e pessoas acima dos 60 anos (44%).

Essa convicção tem menos apelo entre os que possuem ensino superior (16%) e têm até 34 anos (23%).

Outra frase apresentada aos entrevistados foi “mulheres que se dão ao respeito não são estupradas”, com a qual 37% dos entrevistados concordaram. Nesse caso, o índice foi maior entre os homens (42%) do que entre as mulheres (32%).

A cada 11 minutos uma mulher é violentada no Brasil, apontam dados recolhidos pelo FBSP com as secretarias de segurança pública de todo o país. Elas correspondem a 94% das vítimas de estupro no Brasil, segundo dados do Ipea.

Não é à toa que a pesquisa também revelou que 85% das mulheres têm medo de serem estupradas. O índice sobe a 90% no Nordeste.



quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Família judia "adota" refugiado muçulmano em Berlim

Família Jellinek em Berlim:
o cachorro meio deslocado na foto
é só um detalhe...
Uma história real (e quase inacreditável nos dias de hoje) sobre amor, respeito, rejeição de valores desumanos atuais e herdados do passado obscuro, além de tolerância, publicada no Estadão de 11/09/16:

Família judia abriga refugiado sírio em Berlim

Filho e neto de nazistas, Chaim Jellinek e sua mulher, Kyra, apostam em colaborar com integração de imigrantes como solução para ‘crise’

Adriana Carranca

As cenas da massa que chegou à Europa por mar e atravessou suas fronteiras em trens lotados, a pé por trilhos e campos, dormindo ao relento, no último ano, compõem o retrato do maior êxodo desde a 2.ª Guerra. Essas duas pontas da História se encontraram agora no universo privado de um apartamento espaçoso no coração de Berlim. Ali, vivem o médico judeu alemão Chaim Jellinek, a mulher dele, Kyra, três dos quatro filhos do casal e, desde novembro, o jovem muçulmano Kinan, refugiado sírio que a família acolheu em casa.

Jellinek e Kyra, como Kinan hoje, tiveram suas vidas profundamente afetadas pela guerra. Mas vítimas de tragédias distintas. A família de Kyra sobreviveu ao Holocausto no gueto de Budapeste. Já o marido, Jellinek, nasceu e cresceu em uma família nazista, filho e neto de integrantes do Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães, de Adolf Hitler. O pai lutou Operação Barbarossa, a invasão alemã da União Soviética na 2.ª Guerra.

Ele se converteu ao judaísmo e adotou novo nome quando a mulher engravidou do primeiro filho, após um longo período de revisão do próprio passado. “Perdi minha família muito tempo antes de conhecer Kyra. Chegamos a um ponto em que meu pai achava que eu deveria defender o nacional-socialismo. Ele nunca falou sobre a máquina industrial de matar pessoas montada por Hitler, não o ouvi defender o extermínio de judeus, esse não era um assunto em casa. Mas assim que passei a pensar por mim mesmo, comecei a indagar sobre o que sua geração e a do meu avô fizeram. E entendi que meu avô era, sim, um criminoso.”

Jellinek rompeu com a família e saiu de casa aos 20 anos. Quando conheceu Kyra, uma década depois, Jellinek tocava em uma banda punk e tinha se tornado um ativista antifascismo “sem nenhum pensamento religioso”. A gravidez do primeiro filho trouxe de volta fantasmas do passado. “Comecei a pensar no significado da família e no que gostaria de deixar para os filhos”, diz. Foi então que decidiu se converter à religião dela. “Porque o maior símbolo do judaísmo é a família”, diz.

Ele reencontrou o pai apenas uma vez, quando estava morrendo. “Mas já não havia mais conexão entre nós. Nada.” Ao olhar para trás, hoje, julga-o também como vítima. “Ele foi abusado psicologicamente e teve a juventude roubada pelo meu avô e pelos nazistas.”



terça-feira, 20 de setembro de 2016

Bastião do moralismo, Colégio Pedro II do RJ libera saias para garotos

A notícia foi publicada no Estadão de 19/09/16:

Colégio Pedro II, no Rio, libera saia para meninos

Colégio tradicional aboliu a distinção entre uniformes e já adota nome social na chamada

Clarissa Thomé

O tradicional Colégio Pedro II, escola federal fundada em 1837, não tem mais uniformes masculino e feminino. Na prática, o uso de saias está liberado para os meninos. Em 2014, estudantes fizeram um “saiato”, depois que uma aluna transexual vestiu a saia de uma colega e teve de trocar o uniforme. Desde maio deste ano, o Pedro II adota na lista de chamada o nome social escolhido por alunos e alunas transexuais.

Portaria publicada em 14 de setembro lista o uniforme, sem distinguir que peças são para uso masculino ou feminino. Anteriormente, as meninas deveriam usar saia e camisa branca com viés azul e os meninos, calça de brim e camisa totalmente branca.

“Não se trata de fazer ou não distinção de gênero. Trata-se de cumprir resolução do Conselho Nacional de Combate à Discriminação LGBT (órgão ligado ao Ministério da Justiça). Eu apenas descrevo as opções de uniforme; deixo propositalmente em aberto, para o uso de acordo com a identidade de gênero”, afirmou o reitor Oscar Halac.

Ele reconhece que a decisão pode “causar certo furor” pelo fato de o Pedro II estar entre as escolas mais tradicionais do País. “Tradição não é sinônimo de anacronia. Mas pode e deve significar nossa capacidade de evoluir e de inovar”, disse.

De acordo com o reitor, a medida tem ainda o objetivo de “contribuir para que não haja sofrimento desnecessário” entre estudantes transexuais e levantar a discussão sobre tolerância e o respeito às diferenças. “A escola pública precisa sinalizar que é hora de parar de odiar por odiar.” Nesta segunda, não havia alunos de saia ou meninos e meninas que tenham trocado camisas nas unidades do Centro e zona sul. Halac disse acreditar que serão poucos os que adotarão saias. “Aqui dentro eles estão seguros. Lá fora, ainda não.”

Reações. De acordo com o reitor, não chegou à direção qualquer reação negativa de pais de alunos. O manobrista Afonso Marcelo, de 50 anos, pai de uma aluna de 12, no 6.º ano da unidade Centro, não gostou da mudança. “Saia? Pelo amor de Deus. Aí é demais”, comentou. Já a professora Ana Lúcia Pereira, de 49 anos, mãe de estudante também do 6.º ano, elogiou a medida. “Se o aluno se sente à vontade de saia ou de calça, não é isso que vai interferir na qualidade do ensino nem no caráter.”

As estudantes do 3.º ano Fabíola Lopes, de 19 anos, e Georgia Gusmão, de 17, elogiaram a mudança. “A quebra dessa distinção de uniforme para menino e para menina permite a inclusão das pessoas que não se identificam com esse ou aquele gênero”, disse Fabíola.

O Pedro II tem 13 mil alunos. De acordo com Iracema Cruz, integrante de uma das quatro comissões de pais e responsáveis, a edição da portaria foi feita depois de um longo processo. “Essa portaria atende a um anseio dos próprios alunos de poderem usar os uniformes com que se sentem à vontade.”



segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Como os escoceses reagem ao haka do rugby neozelandês?


Veja na divertida propaganda abaixo:





domingo, 18 de setembro de 2016

"Gringo é a mãe!"


É o que diz o artigo abaixo, do ótimo repórter e correspondente da BBC no Brasil, Tim Vickery*, publicado - não por acaso - na BBC Brasil:

Tim Vickery: Está na hora de os brasileiros deixarem de usar a palavra 'gringo'

O jornalista sacudiu a cabeça num gesto de decepção. Belga de raízes indianas, ele estava no Rio, uma cidade onde já tinha morado, para cobrir os Jogos Olímpicos. "A imprensa aqui", ele me contou, "ainda usa a palavra 'gringo'."

"Pois é," respondi. "Isso foi parar na capa de uma revista importante. Na capa! Parece que nem sediando os megaeventos a ficha caiu."

Lembro-me de uma gravação que tocava no metrô do Rio durante a Copa do Mundo de 2014, nas estações de Copacabana. "Levanta a torcida brasileira!", gritava o infeliz, "levanta a torcida gringa!" Bem, se só havia dois lados na disputa, então o desempenho da seleção brasileira, que terminou em quarto, foi pior do que eu pensava.

Antigamente, eu achava que o jornalista que fazia uso da palavra "gringo" deveria ser banido da profissão. Hoje em dia, sob o efeito de cordialidade tropical, já pensei numa punição mais branda: o sujeito deveria ser condenado a assistir à cerimonia de abertura dos Jogos Olímpicos, repetindo e sem parar - mas somente aquela parte interminável quando os atletas do mundo todo desfilam no estádio.

A gravação só pararia quando ele finalmente deixasse de ser o idiota da aldeia e descobrisse que a humanidade é feita de diversidade, de mais de 200 nações, e que a realidade é muito mais complexa e gostosa do que uma simples divisão entre brasileiros e "não brasileiros".

Estou ciente de que muitos estrangeiros no Brasil se referem a si mesmos como "gringos". Se o desespero de se enturmar é tão grande que eles estão dispostos a abrir mão de uma identidade mais completa, só posso sentir pena.

Também estou ciente de que, na grande maioria das vezes, a palavra é empregada sem intenções pejorativas. Não adianta. Tem coisas que você pode lavar quantas vezes quiser, mas não vão ficar novas.

Um par de anos atrás eu fiz um programa de televisão com o grande jornalista Alberto Dines. Toquei nesse assunto - defendendo que a imprensa brasileira deveria parar de usar uma palavra que, além de não trazer informações específicas, estava manchada. Dines concordou e se ofereceu a escrever um artigo para um jornal que, infelizmente, não levou a proposta adiante.

A posição de Dines se baseava no conhecimento e na sua própria história. Filho de imigrantes, Dines me contou que a palavra "gringo" o fazia chorar quando criança. Fora dita contra ele num contexto xenófobo - porque, como tantas coisas no Brasil, a maneira como se usa a palavra tem suas raízes no fascismo da década de 30.

Um fascismo relativamente benigno, com um líder com cara de tio em vez de um demagogo agressivo gritando para as massas. Mas, ainda assim, um projeto de fascismo, que implicava um projeto de modernização conservador, uma tentativa de desenvolver o país sem mudar a estrutura social. Ou seja, um parque industrial avançado aliado a uma noção de hierarquia quase feudal. Embraer no país do elevador de serviço.

Como vender esse projeto de capitalismo sem conflito de classes? Como conseguir o pacto nacional necessário? Fácil. Evocar o inimigo externo - aqueles gringos, que só querem saber de explorar o Brasil!

É por isso que, mesmo saindo da boca mais suave, a palavra muitas vezes vem com um toque de hostilidade. O gozado aqui é que estamos falando de um país de imigração. Falar em "brasileiro" tem muito mas a ver com profissão do que com nacionalidade; trata-se de alguém que chegou aqui para explorar o pau-brasil. O que quer dizer que, com a exceção dos povos indígenas, gringos são sua mãe, sua avó, sua bisavó...

*Tim Vickery é colunista da BBC Brasil e formado em História e Política pela Universidade de Warwick



sábado, 17 de setembro de 2016

Justiça paulista quer assegurar educação a crianças autistas


A informação é do próprio Tribunal de Justiça de São Paulo:

EM BUSCA DO PLENO ATENDIMENTO DOS DIREITOS DA CRIANÇA AUTISTA

Decisão da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital adota procedimento para resolver processos de execução de forma rápida e especializada

Decisão proferida pela juíza Alexandra Fuchs de Araujo, da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital, estabeleceu diretrizes para que as execuções contra a Fazenda do Estado de São Paulo (FESP) que pleiteiem matrícula de crianças autistas em escolas especiais tramitem de forma mais eficiente, levem em conta as peculiaridades de cada caso e sigam os parâmetros da legislação atual, que prevê a intersetorialidade no desenvolvimento das políticas voltadas para o atendimento da pessoa com transtorno do espectro autista e o estímulo à inserção no mercado de trabalho.

A decisão é oriunda da ação civil pública nº 0027139-65.2000.8.26.0053, que trata do atendimento de saúde, educacional e assistencial aos autistas, em 2001 proferida pelo juiz Fernando Figueiredo Bartoletti, da 6ª Vara da Fazenda Pública da Capital. “As adaptações realizadas na execução também têm como objetivo agilizar o atendimento aos autistas. A ideia é fazer uso de novos recursos previstos no novo Código de Processo Civil, como a possiblidade de autocomposição, e os Centros Judiciários de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejuscs)”, afirma a magistrada.

De acordo com a juíza, muitos exequentes, mesmo com o objetivo de proteger o autista, protocolam pedidos que podem estar em desacordo com as melhores práticas e a legislação moderna, seja para obter uma internação por prazo indeterminado, em violação ao disposto na Lei nº 10.216/01, ou para buscar uma escola especial, não inclusiva, quando ainda não foram esgotadas todas as possibilidades de inclusão, em violação ao disposto na Lei Federal nº 12.764/13.

Confira as diretrizes estabelecidas na decisão:

1) Uma vez formulado o pedido de execução, a Administração será intimada para, extrajudicialmente, e em prazo não superior a 60 dias, realizar laudo do autista por uma equipe interdisciplinar, suspendendo-se a execução;

2) Após, no prazo de 10 dias, a Administração irá propor um perfil de atendimento ao autista, de acordo com o seu caso específico; se o laudo indicar a necessidade de prestação do serviço municipal, o ente público municipal será intimado, também, para se manifestar e compor a oferta de atendimento junto com o Estado, de acordo com os recursos disponíveis na rede; caso haja aceitação, a oferta será homologada, extinguindo-se a execução.

3) Em caso de rejeição da oferta de atendimento, o autista ou seu responsável se manifestará, no prazo de 10 dias. Após, a FESP será intimada para impugnação da obrigação de fazer, prosseguindo-se judicialmente com a execução.

Alexandra Fuchs explica em sua decisão que, “para se garantir a celeridade processual, preservando-se as possibilidades de autocomposição, com o atendimento do cidadão diretamente pelo Poder Público, o ideal é que, antes de se intimar a Fazenda do Estado para que ofereça uma vaga, o Estado tenha a oportunidade de conhecer o autista, avaliá-lo e verificar qual o melhor estabelecimento para acolhê-lo, próximo à sua residência”.

De acordo com a promotora de Justiça Sandra Lucia Garcia Massud, assessora do Centro de Apoio de Direitos Humanos e Sociais do Ministério Público do Estado de São Paulo, a decisão ajuda na triagem dos casos em que realmente é necessária a matrícula em uma escola especial. “A inclusão da criança com deficiência em escola regular é fundamental para o desenvolvimento não só da própria criança em questão, mas também de todas as outras com quem ela conviver. A escola é um espaço não somente de aprendizagem formal, mas também de convivência e trocas de experiências ricas e importantes para um crescimento saudável.”

O TJSP tem atuado juntamente com os demais poderes na fiscalização e orientação das políticas públicas voltadas para os jovens autistas. Já foram realizadas audiências públicas e reuniões – a mais recente reunião para debater o assunto aconteceu no início de setembro e contou com a presença da juíza Alexandra; da promotora Sandra; dos juízes assessores da Corregedoria Geral da Justiça Ana Rita de Figueiredo Nery e Gabriel Pires de Campos Sormani; do procurador do Estado coordenador judicial da Saúde Pública, Luiz Duarte de Oliveira; e de representantes das Secretarias de Estado da Saúde, Educação e Desenvolvimento Social. Foram debatidos os rumos, dificuldades e perspectivas do tema. “A rede estadual conta com equipes especializadas para a inclusão e muitos agentes trabalham muito bem a esse favor”, afirma Sandra Massud.

O objetivo final é garantir que o autista tenha todos seus direitos respeitados, inclusive o de integrar a sociedade como cidadão. “O coração da decisão é a determinação de atendimento adequado ao autista”, explica Alexandra Fuchs de Araujo.

N.R.: texto originalmente publicado no DJE em 14/9/16.

Comunicação Social TJSP – GA (texto)



sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Aumenta o número de pastores candidatos nas eleições de 2016


A matéria é do G1:

Número de candidatos pastores cresce 25% em quatro anos

O número de candidatos que usam o título de pastor no nome de urna cresceu 25% em comparação com as últimas eleições municipais, em 2012, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em 2016, 2.759 candidatos utilizam a palavra “pastor” no nome de campanha, 557, “pastora” e 15 usam variações como “pastorzinho” e “pastorzão”. Outros 39 candidatos utilizam nome em referência a outro pastor, como por exemplo “Raquel do Pastor João”.

Também estão concorrendo 2.186 candidatos registrados como “irmão” e 841 como “irmã”. Existem 150 candidatos que utilizam o termo "padre" antes do nome e 44 políticos que utilizam algum padre como referência no nome da urna.




Há ainda 63 "pais", 37 "mães", seis "freis" e 62 "bispos", totalizando mais de 6.600 nomes com referências religiosas diretas.

O levantamento leva em conta apenas palavras que não fazem parte do nome ou do sobrenome de registro do candidato.

Por João Quero



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Coronel, religioso e... pedófilo!


Lamentamos ter que divulgar essas notícias nojentas, mas esta continua sendo a melhor maneira de alertar as pessoas a tomarem cuidado quando se trata de proteger crianças indefesas.

Na dúvida, desconfie sempre e denuncie às autoridades competentes. Todo cuidado é pouco.

A matéria é do El País:

De dia, coronel religioso. De noite, suspeito de estuprar crianças

Coronel da reserva da PM do Rio de Janeiro é flagrado com criança de dois anos nua no seu carro

O coronel da reserva da PM Pedro Chavarry Duarte, de 62 anos, estava, no sábado, dentro de um carro no estacionamento de uma lanchonete no bairro de Ramos, na zona norte do Rio de Janeiro (RJ), quando ouviu as sirenes de uma viatura se aproximarem. Tentou fugir, pois no interior do veiculo havia uma menina de dois anos nua, confirmando a denuncia anônima que os agentes tinham recebido. O coronel, que era o presidente da Caixa Beneficente da Polícia Militar do Rio, quis subornar os policiais, mas acabou sendo preso sob suspeita de ter cometido estupro de vulnerável ­– crime que pode ser castigado com até 15 anos de prisão – e corrupção ativa – com pena de até 12 anos. Não era a primeira vez que Chavarry, homem que se declara profundamente religioso, via-se implicado em um caso que envolvesse crianças: em 1993, segundo O Globo, Chavarry foi preso por suspeita de tráfico de bebês, mas não foi condenado.

“Segunda-feira, eu resolvo tudo. Vamos acabar com essa ocorrência, entendeu? Eu resolvo tudo. Segunda-feira vai fazer sol. Está ventando hoje”, disse Chavarry a um dos policiais que o abordaram. Este, enquanto gravava a cena com o celular, responde que não está entendendo e o coronel prossegue: “Segunda-feira, eu resolvo tudo. Quero saber sua escala. Você vai me procurar e eu vou te procurar. Você e o seu parceiro. Tá certo? Fica atento para acabar com essa ocorrência, tá? Dentro das normas”.

A investigação aponta que várias testemunhas declararam que Chavarry costumava andar acompanhado de crianças. Durante a abordagem, uma mulher disse aos policiais que ele cuidava dessa menina de dois anos e de uma outra de 12. Outra mulher informou que ele pagava para sair com elas. Uma outra testemunha, que trabalha perto da lanchonete onde ele foi preso, declarou que já tinha visto o coronel acompanhado de meninas em outras ocasiões. Segundo o jornal O Dia, foi uma funcionária da lanchonete quem se alarmou quando entregou o lanche ao acusado no carro e viu a menina nua. “Ela voltou ao caixa assustada e falou com a gente. Disse que a menina estava nua, de pernas abertas, e que não foi a primeira vez que viu esse homem aqui. No outro dia, era um menino”, contou ao jornal outra funcionária.

A menina foi levada ao coronel por Thuanne Pimenta dos Santos, de 23 anos, que teve a prisão temporária decretada. O irmão dela é casado com uma tia da criança. A jovem, que fazia serviços de faxina para o coronel, não deixou claro o que ela fazia com a criança, enquanto a mãe dela trabalhava, nem por que a deixou nas mãos do militar. “Ela entrou em múltiplas contradições durante o depoimento, mas há indícios de que ela entregou a criança propositalmente ao coronel”, explica a delegada responsável pelo caso, Cristiana Bento. Thuanne também trabalhou para Chavarry distribuindo panfletos quando este resolveu se candidatar, sem sucesso, a deputado federal pelo Partido Social Liberal (PSL) em 2014.

A Polícia Civil investiga agora se há mais pessoas envolvidas e se o coronel pode formar parte de um esquema muito maior de tráfico de crianças. “Pense na quantidade de meninos e meninas que desaparecem todo ano. Temos que investigar a fundo, quem sabe se o caso não tem relação com alguns desses sumiços”, explica Bento.

Chavarry, formado em direito e com mais de quatro décadas na corporação, ocupava a presidência da Caixa Beneficente da PM, que dispõe de uma rede de benefícios de aposentadoria para os associados, há seis anos. Seu currículo contempla passagens pelos gabinetes de quatro comandantes-gerais, cargo como relações públicas da Polícia Militar ou membro da mesa diretora da irmandade de Nossa Senhora das Dores da PM. Nas publicações da instituição exalta-se a figura do seu presidente como gestor e homem estratégico, além de um homem religioso e de família. Num perfil, publicado pelo jornal da Caixa Beneficente pouco depois de ele assumir a presidência, Chavarry conta que deve todo o seu sucesso a Deus e aos companheiros de trabalho e lamenta não passar mais tempo com sua mulher e sua filha: “Após uma carreira de 37 anos, em que não tive Carnaval, Natal e Ano Novo, assumi uma empreitada dessa magnitude. Eu deveria estar aposentado e curtindo mais a minha família. Eles têm, infelizmente, ficado em segundo plano”.

Questionado sobre o que gosta de fazer nas horas vagas, ele responde determinado: “No meu tempo livre, eu tenho dedicação à Igreja Católica Apostólica Romana, onde costumo participar ativamente das atividades religiosas. Em outras ocasiões, costumo tirar alguns dias para viajar com a família e recuperar as forças”. Neste domingo, Chavarry não participou das liturgias que ele dizia frequentar. Está preso no Batalhão Especial Prisional (BEP) da PM, em Niterói.



quarta-feira, 14 de setembro de 2016

A moda agora é casamento celebrado por amigos leigos


Parece que a religião segue seu inexorável destino de perda de relevância no mundo moderno...

É o que se pode depreender da notícia abaixo, publicada no Estadão em 10/09/16:

Amigo vira celebrante em festa de casamento

Casais têm convidado pessoas próximas para realizar cerimônias personalizadas e marcantes

Gustavo Gross Belchior, de 30 anos, é biólogo, mas já celebrou dois casamentos. Quando, em janeiro deste ano, subiu ao altar com a estudante de medicina Heloisa Neumann Nogueira, de 30, trocou alianças em uma cerimônia celebrada por dois casais de amigos, seus pais, os pais da noiva e a cunhada. Para ter casamentos mais personalizados ou por não serem adeptos de alguma religião, casais têm convidado amigos de longa data para realizar seus casamentos e afirmam que o resultado é uma cerimônia marcada por boas lembranças e muita emoção.

"O casamento foi realizado por pessoas que nos conheciam e tinham propriedade para falar sobre o amor que a gente sentia e o casal que passaríamos a ser", conta Belchior.

Heloísa diz que a cerimônia de seu casamento foi marcante não só para o casal. "Gerou uma emoção grande para os nossos pais e as outras pessoas que estavam lá."

No fim de agosto, o jornalista e professor da Escola de Comunicação e Artes Universidade de São Paulo (ECA-USP) Eugênio Bucci celebrou o casamento do sobrinho, o advogado Paulo Dallari. Os avós do noivo também falaram na cerimônia.

A gerente de vendas Celise Moreira, de 30 anos, já organizou eventos, mas pensou em não aceitar o convite para ser celebrante. "É um momento muito especial e tinha medo de não atender às expectativas."

A organização da festa teve início em setembro de 2014 e o casamento foi realizado em julho deste ano. Celise estudou com o noivo na escola e foi colega de faculdade da noiva. Ela, inclusive, apresentou o casal.

A desenvoltura da amiga surpreendeu a noiva, a hoteleira Maiana Turini de Araújo Cantelli, de 30 anos. "Não tinha outra pessoa melhor do que ela. Foi emocionante e, ao mesmo tempo, engraçado. Ela escreveu para a gente e nós escrevemos nossos votos. Não vimos o que tínhamos escrito e falamos coisas parecidas. Isso mostrou uma conexão entre a gente."

Com um casamento para 30 convidados em Fernando de Noronha, a gerente de conteúdo e projetos Aliucha Salvia, de 30 anos, optou por não ter uma cerimônia religiosa e não contratou cerimonialista. "Fui batizada e cresci em uma família católica e meu marido é espírita. Queria alguém que falasse de amor, de companheirismo."

A dona de casa Thais Guin Catanzaro, de 32 anos, e o marido ficaram responsáveis por essas palavras. "Eu fiquei bastante emocionada. Foi difícil segurar as lágrimas."



terça-feira, 13 de setembro de 2016

Faleceu o Pastor Paulo Solonca


Faleceu ontem, dia 12/09/16, o Pastor Paulo Solonca, após três décadas de profícuo ministério, sendo os dezessete últimos anos na Primeira Igreja Batista de Florianópolis, capital de Santa Catarina.

Expressamos nossos sentimentos de pesar à sua família, aos seus amigos e às suas ovelhas, e - em homenagem e gratidão ao seu legado intelectual e espiritual - reproduzimos abaixo um excerto de seu inspirador e edificante livro "Raios de Esperança", que já havíamos publicado aqui no blog em fevereiro de 2010, uma pequena meditação de sua autoria com enorme significado para nossas vidas. 

Obrigado, Pastor Paulo Solonca! "Venha e participe da alegria do seu Senhor" (Mateus 25:21,23).



A ARTE DA RENÚNCIA



“Jesus dizia a todos: 
Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, 
tome diariamente a sua cruz e siga-me. 
Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; 
mas quem perder a sua vida por minha causa, 
este a salvará. 
Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, 
e perder-se ou destruir a si mesmo?”
(Lucas 9:23-25)

      Aprende a arte de renunciar. É na renúncia das vontades e escolhas pessoais que Te aperfeiçoo. Ninguém pode ser Meu discípulo se não aprender tal ensinamento. Renunciei aos céus. Renunciei à glória. Aprendi os caminhos da humilhação, desconforto, e incompreensão. Pude então, compreender melhor o comportamento dos homens. Estou formando em ti um caráter semelhante ao Meu. Para que isso aconteça, é necessário trilhares os meus caminhos. Quero que estejas preparado para a obra que deverás realizar. Este processo, aparentemente indesejável, te dará a têmpera ideal para o combate. Lembra-te, a alma humana é aperfeiçoada na adversidade e no rugir dos acontecimentos. As tensões deste processo te aproximam de minha graça. Por esta razão, tenho enviado provas sobre ti a fim de que aprendas o caminho da vida. Não fujas de tal processo espiritual, pois, se tentares amenizar o calor da fornalha, não alcançarás a tão desejada pureza. Quando te sentires incapaz, exercita tua fé. Ela te foi dada exatamente para isto. Quero que desfrutes das aventuras do universo da fé. O mundo lá fora não pode adentrar ao palco sagrado dos grandes acontecimentos sobrenaturais. É um privilégio de Meus filhos a realização de obras impossíveis para a mente humana. Por esta razão te admoesto: “Aprende a arte de renunciar”. Assim, Me permitirás agir em tua vida.


(Paulo Solonca, em “Raios de Esperança”)

Circo da cassação de Cunha expõe idiossincrasia evangélica na política brasileira

Clarissa Garotinho e Eduardo Cunha,
"amor cristão" explícito...
Quem teve o desprazer de acompanhar a votação da cassação do deputado evangélico Eduardo Cunha (PMDB/RJ) ontem à noite na Câmara dos Deputados em Brasília (DF), se deparou com o pior que a política (e suas benesses) pode fazer a quem se identifica como cristão para se eleger, mas não age como tal.

A ruína de Cunha foi uma pantomima grotesca, um teatro de mímicas e gestos ridículos, discursos e posturas que destroçaram publicamente a ideia de "bancada evangélica" que age em bloco contra as vicissitudes do mal que insistem em atacar nosso impoluto país.

O discurso da deputada (também evangélica) Clarissa Garotinho (PR/RJ), chamando Cunha de "fariseu", "psicopata" e "mafioso" (vídeo abaixo), enquanto citava o versículo de 1ª Timóteo 6:10, "o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males", foi a cereja no bolo do circo gospel de horrores que é a atuação de alguns parlamentares evangélicos no Congresso Nacional.

Ainda que se refira mais a uma disputa regional, o show de golpes abaixo da cintura entre os dois deputados fluminenses mostrou o quanto é volátil o apoio evangélico a este ou aquele candidato dependendo da temporada eleitoral e - claro - dos interesses em jogo.

Para quem não se recorda nem associa a vestimenta ao santo, Clarissa Garotinho é filha de Anthony Garotinho, que foi o candidato a presidente da República apoiado pelos evangélicos em 2002, quando concorria pelo PSB (Partido Socialista Brasileiro), e houve até "profetadas" de gente gospel importante dizendo que - finalmente - o Brasil teria um líder evangélico no seu cargo máximo de poder, ô glória!

Sim, é isto mesmo que você leu, prezado ideólogo evangélico, já houve época neste país, não muito tempo atrás, em que seres do seu naipe gospel tinham orgasmos múltiplos ao utilizar a palavra "evangélico" e "socialista" na mesma frase.

Caixas de correio eletrônico ficaram entupidas de e-mails (sim, a gente já usou isso!) que circulavam a mancheias no início do terceiro milênio, prometendo o paraíso na Terra a quem votasse em Anthony Garotinho, o messias "gospolítico" da época.

Como você já sabe, isto não aconteceu, mas convivemos até hoje com esse espetáculo rotineiro de caras lavadas e cabelos lambidos de gente que não conta até três para usar o nome de Deus em vão.

Que ninguém acuse os fluminenses e cariocas de votarem mal, afinal todos eles de todos os rincões do país estão lá em Brasília graças aos erros, deseducação, preconceitos e desinteresse geral da nação.

Não houve jeito ontem no Distrito Federal e o ocaso de Cunha foi sacramentado por 450 deputados, além de abstenções e ausências majoritariamente do suposto partido evangélico intitulado PSC - Partido Social Cristão, cujo recém-convertido e filiado Jair Bolsonaro, quem diria, votou pelo defenestramento do hoje ex-deputado.

Ah... apesar de todas as evidências contrárias, além dos epítetos nada simpáticos que sua "irmã" Clarissa Garotinho atribuiu a Eduardo Cunha, o saltitante deputado gospel Marco Feliciano foi um dos dez beatos que votaram contra a sua cassação.

Tudo joio do mesmo saco...

Resta saber se Cunha irá sozinho para o limbo.




segunda-feira, 12 de setembro de 2016

O pastor presbiteriano paquistanês que se refugiou no Brasil

A dura vida dos cristãos no Paquistão

Uma história de perseguição que está bem próxima de nós, segundo noticia a BBC Brasil:

'A perseguição destrói tudo dentro de você', diz cristão paquistanês refugiado no Brasil

Cláudio Goldberg Rabin

Três anos atrás, S. Masih vivia em uma cidade no Estado de Punjab, no sudeste do Paquistão, onde era o principal pastor de uma igreja presbiteriana com 3 mil membros. Vestia-se bem, tinha 10 auxiliares e morava com os três filhos pequenos e a mulher.

Hoje, ele é pastor assistente em uma igreja na Penha, bairro da zona leste de São Paulo. Chegou ao Brasil sem a família, com visto de turismo, mas recebeu o status de refugiado — fugiu da perseguição religiosa em seu país, onde os cristãos representam 2,59% da população.

Nos últimos anos, a comunidade cristã paquistanesa foi alvo de diversos atentados terroristas. O maior deles, na Páscoa de 2015, deixou 17 mortos e dezenas de feridos. Dois anos antes, um atentado a uma igreja matou 80 pessoas.

No momento, o pastor aguarda por uma autorização para sair do país pela primeira vez desde que chegou. Quer voltar ao Paquistão para resgatar sua família e rever a mãe, que está doente. Para toda a operação, calcula que precisará de R$ 35 mil, quantia que ainda não conseguiu arrecadar.

Masih, 41 anos, pediu que não fosse identificado por medo de represálias a sua família. Contudo, revelar seu último nome não é um problema: no Paquistão a maior parte dos cristãos tem o mesmo sobrenome, que é conferido pelo Estado.

"Não escolhi o Brasil. Eu não conhecia nada daqui. Tinha pedido visto para a Tailândia, porque era mais perto e mais fácil, mas minha avó morreu na época e o visto venceu. Mas eu precisava sair", disse o refugiado que já fala português, entrevistado pela BBC Brasil em uma tarde de agosto.

Perseguição

Os problemas do pastor começaram em 2009, quando recebeu em seu escritório na igreja um homem que o convidou a se converter ao islã. Ele negou. "Fui educado, porque no Paquistão você não pode xingar", disse Masih. A necessidade de polidez não era apenas por educação, era medo de ser acusado de blasfêmia, um crime para o qual a punição pode ser a morte.

"Ele voltou duas ou três semanas depois e falou a mesma coisa. Na terceira vez, ele me disse: 'te ofereci o islã três vezes e você o desonrou três vezes. Agora, fique pronto para as consequências."

A pressão veio rápido: duas semanas depois do último encontro, Masih recebeu uma carta do tribunal local no qual o ofendido exigia que o pastor lhe pagasse US$ 70 mil (cerca de R$ 220 mil) pela ofensa cometida. Ele teve dificuldades em conseguir um advogado, pois, segundo conta, ninguém queria defender um cristão.

O caso se arrastou no tribunal por quatro anos até que o juiz decidiu por um valor menor, algo dentro das possibilidades de Masih. O perseguidor, porém, não queria o dinheiro, mas a conversão. No começo de 2013, ele conta ter sido agredido.

"O meu acusador chamou um bando de fanáticos que me atacaram na minha casa. Me bateram na frente dos meus filhos e da minha esposa. Quando cansaram, disseram que iriam me acusar de blasfêmia". O risco se tornara grande demais para ficar no Paquistão.

O relatório 2015/2016 da ONG Anistia Internacional diz que Punjab é o Estado paquistanês onde as leis sobre blasfêmia são empregadas com maior vigor, sendo "desproporcionalmente usadas contra as minorias religiosas". O caso mais famoso é o de uma cristã chamada Asia Bibi, condenada à morte em 2010. O então governador de Punjab, Salman Taseer, a apoiou publicamente e acabou morto por um de seus seguranças, posteriormente condenado e executado. Bibi segue presa.

Brasil

A ideia de sair do país partiu da esposa. A sugestão do lugar, o Brasil, veio um amigo padre. Era a época da Jornada Mundial da Juventude e da visita do papa Francisco, o que tornava mais fácil conseguir um visto de turista. Masih chegou ao Rio de Janeiro sem nem saber que língua os brasileiros falavam.

"Quando eu estava saindo do Paquistão, minha mãe me perguntou: 'onde é o Brasil? Fica na Inglaterra? Na Arábia?'. Respondi que era longe. Ela me perguntou se eu conhecia alguém lá e eu respondi: 'Sim, Jesus.'"

Masih saiu do aeroporto do Galeão com US$ 13 mil (cerca de R$ 41 mil) numa maleta, pegou um táxi e o motorista o levou até um hotel na Lapa. Cobrou R$ 80 pela corrida. Depois o levou a uma igreja presbiteriana no bairro Santíssimo ao custo de R$ 200.

"A igreja era pequena, mas eles me acolheram rapidamente sem me questionar. Me deram uma casa e, depois de seis meses, comecei a dar aulas de inglês. Também fui apresentado como missionário e recebi muitos convites de pregação em outras igrejas".

Um desses convites o levou a Natal, no final de 2014, onde conheceu o pastor Amaury Costa de Oliveira, que há cinco anos acompanha as igrejas perseguidas na Ásia e Oriente Médio e que se interessou pela história de Masih. Ficaram amigos e o pastor brasileiro convidou o paquistanês para trabalhar em seu ministério, na Igreja Presbiteriana da Penha.

"Ele teve uma boa aceitação na igreja. Quando escutam a história dele, as pessoas o acolhem bem. Masih acaba conscientizando os fiéis sobre o que acontece com os cristãos em outros lugares do mundo", disse Oliveira.

Agora, Amauri, em colaboração com a ONG Preparando o Caminho, é um dos responsáveis pela arrecadação de fundos para ajudar o refugiado paquistanês a voltar ao seu país, onde vai buscar sua família. Masih vai passar pelo menos um mês na sua terra natal e reencontrar a mãe. "Ela quer ficar lá, mas pediu para me ver uma última vez".

O pai ele perdeu no ano passado. "O dia que ele faleceu me machucou muito. Você deixa seu pai, ele te dá um abraço e um beijo de despedida, com a promessa de um reencontro em breve. Mas ele não estará mais lá. A perseguição destrói tudo dentro de você."

Quando retornar ao Brasil depois da visita ao Paquistão, Masih vai seguir pregando no templo da Penha e vai morar por um tempo com a família em uma casa de passagem que está sendo construída ao lado da igreja. Dois dos pedreiros são jovens cristãos paquistaneses e também pediram para que o nome não fosse revelado. O sobrenome de um deles pode ser divulgado sem risco — também é Masih.



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