terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Bispo católico de San Diego peita Trump em defesa dos imigrantes

Placa alerta imigrantes ilegais na fronteira dos EUA com o México

Hummmm... pensando aqui, o que será de Boca Raton, Florida, o campo missionário mais carente do mundo, segundo os evangélicos brasileiros que moram lá?

Sorte dos demais latinos que há católicos nos EUA dispostos a defendê-los e protegê-los.

A matéria é do IHU:

O bispo de San Diego enfrenta Trump e promete uma “mobilização em massa” caso deportar os imigrantes

Em caso de deportações em massa, “mobilizações em massa” da Igreja. O bispo de San Diego, Robert McElroy, enfrentou Donald Trump, e qualificou o plano do presidente eleito dos Estados Unidos de expulsar mais de 10 milhões de imigrantes indocumentados como “um ato de injustiça que mancharia a nossa honra nacional”.

A reportagem é de Cameron Doody e publicada por Religión Digital, 02-12-2106. A tradução é de André Langer.

Falando, na semana passada, em uma conferência na Universidade de San Diego, o bispo comparou as já anunciadas deportações em massa do magnata republicano com as expropriações históricas de terras dos indígenas nos Estados Unidos ou com o encarceramento de soldados japoneses no país durante a Segunda Guerra Mundial. Uma grande injustiça social, disse, diante da qual os católicos não devem se calar.

“Para nós, é impensável que nos mantenhamos quietos enquanto 10% do nosso rebanho é arrancado de nós e deportado”, denunciou McElroy. “É igualmente impensável que nós, como Igreja, presenciemos a destruição da nossa acolhida histórica aos refugiados em um momento em que a necessidade de oferecer santuários aos refugiados está crescendo em todo o mundo”.

Perguntado depois de sua intervenção por quais medidas concretas a Igreja pode tomar a favor dos imigrantes sob a sombra das políticas propostas por Trump, o bispo de San Diego primeiro mostrou-se consciente do medo que muitos deles estão experimentando, inclusive afirmando que “Eu também tenho medo”.



Simpatizar com os imigrantes indocumentados, no entanto, não é suficiente para os católicos, e inclusive o medo que muitos deles sentem pode fazer parte do problema.

“Quando falamos com a comunidade de indocumentados”, disse McElroy, “não podemos dar uma falsa sensação de serenidade. A nossa única esperança é dizer que nos manteremos unidos”. Solidariedade com os imigrantes que pode passar, inclusive, pela conversão dos templos católicos em santuários, ou que os católicos utilizem estratégias dos movimentos históricos pelos direitos civis.

“Todos os passos da campanha pelos direitos civis terão que ser empregados no caso de ter de enfrentar uma deportação em massa que destruísse famílias”, asseverou McElroy, referindo-se às lutas de políticos como Martin Luther King ou sacerdotes como Maurice Ouellet pela igualdade dos afro-americanos no sul dos Estados Unidos durante as décadas de 50 e 60.

“Temos que ter a mesma energia, compromisso e agilidade que caracterizaram a oposição católica ao aborto ou à liberdade religiosa em anos recentes”, animou o prelado os participantes da conferência, antes de acentuar novamente que, dada a situação em que se puseram em marcha as políticas racistas de Trump, “a Igreja nunca pode estar de acordo ou colaborar com um mal tão grande em nossa sociedade”.

Parece que não restou outra alternativa à Estátua da Liberdade...




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Tatuagem faz polícia identificar assassino


Bom, se você achava que já tinha vista de tudo, é melhor repensar essa pretensão.

A matéria é da BBC Brasil:

Tatuagem de suspeito de matar a própria mulher dá pistas sobre crime

Na Espanha, a polícia prendeu um suspeito de homicídio foragido e encontrou uma pista importante sobre o crime em uma tatuagem sua.

O homem estava sendo procurado pela polícia alemã após o assassinato de sua namorada na Baviera, no sudeste da Alemanha.

As autoridades não sabem a data exata da morte, mas uma tatuagem do homem mostra seu nome, Lisa, e data de falecimento - 27 de outubro de 2016.

O homem foi preso em Lloret de Mar, na Catalunha, com o filho de 18 meses do casal, que estava em boas condições de saúde.

O corpo da mulher fora encontrado por sua mãe na semana passada em um bloco de apartamentos na cidade alemã de Freyung, perto da fronteira checa.

Uma autópsia inicial apontou que a mulher morrera cerca de três semanas antes de ser encontrada.

A polícia federal da Espanha disse que o telefone celular da vítima tinha sido levado pelo suspeito com a intenção de usar suas redes sociais, enganando investigadores. O homem, identificado na Alemanha como Dominik R, foi rastreado na Espanha depois de ter retirado dinheiro no país.

A polícia da Espanha, que o deteve após a emissão de um mandado europeu de prisão, acredita que ele estava a caminho do norte da África.

Em nota, a polícia federal espanhola disse que a tatuagem "pode ser interpretada como a data de morte (da vítima)". Agora, o suspeito aguarda extradição para a Alemanha.



sábado, 3 de dezembro de 2016

Como identificar e se defender do assédio moral

A matéria é do Conselho Nacional de Justiça:

CNJ Serviço: O que é assédio moral e o que fazer?

Apesar de não ser uma prática nova no mercado de trabalho, o assédio moral vem sendo amplamente divulgado na última década, e as condutas de empregadores que resultam em humilhação e assédio psicológico passaram a figurar nos processos trabalhistas com mais recorrência. O assédio moral pode ser configurado em qualquer nível hierárquico e ocorre de forma intencional e frequente. Neste CNJ Serviço, procuramos esclarecer como costuma se caracterizar o assédio moral, suas consequências e o que fazer a respeito.

Conceito – Entende-se por assédio moral toda conduta abusiva, a exemplo de gestos, palavras e atitudes que se repitam de forma sistemática, atingindo a dignidade ou integridade psíquica ou física de um trabalhador. Na maioria das vezes, há constantes ameaças ao emprego e o ambiente de trabalho é degradado. No entanto, o assédio moral não é sinônimo de humilhação e, para ser configurado, é necessário que se prove que a conduta desumana e antiética do empregador tenha sido realizada com frequência, de forma sistemática. Dessa forma, uma desavença esporádica no ambiente de trabalho não caracteriza assédio moral.

Situações vexatórias – Como exemplos frequentes de assédio moral no ambiente de trabalho, podemos citar a exposição de trabalhadores a situações vexatórias, com objetivo de ridicularizar e inferiorizar, afetando o seu desempenho. É comum que, em situações de assédio moral, existam tanto as ações diretas por parte do empregador, como acusações, insultos, gritos, e indiretas, ou ainda a propagação de boatos e exclusão social. Os processos trabalhistas que resultam em condenações por assédio moral, quase sempre envolvem práticas como a exigência de cumprimento de tarefas desnecessárias ou exorbitantes, imposição de isolamento ao empregado, restrição da atuação profissional, ou ainda exposições ao ridículo.

Consequências – O assédio moral no trabalho desestabiliza o empregado, tanto na vida profissional quanto pessoal, interferindo na sua autoestima, o que gera desmotivação e perda da capacidade de tomar decisões. A humilhação repetitiva e de longa duração também compromete a dignidade e identidade do trabalhador, afetando suas relações afetivas e sociais. A prática constante pode causar graves danos à saúde física e psicológica, evoluir para uma incapacidade laborativa e, em alguns casos, para a morte do trabalhador.

Processo judicial – Não existe uma lei específica para repressão e punição daqueles que praticam o assédio moral. No entanto, na Justiça do Trabalho a conduta de assédio moral, se caracterizada, gera indenização por danos morais e físicos. Na esfera trabalhista, o assédio moral praticado pelo empregador ou por qualquer de seus prepostos autoriza o empregado a deixar o emprego e a pleitear a rescisão indireta do contrato.

As práticas de assédio moral são geralmente enquadradas no artigo 483 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que determina que o empregado poderá considerar rescindido o contrato e pleitear a devida indenização quando, entre outros motivos, forem exigidos serviços superiores às suas forças, contrários aos bons costumes ou alheios ao contrato, ou ainda quando for tratado pelo empregador ou por seus superiores hierárquicos com rigor excessivo ou ato lesivo da honra e boa fama. Já na Justiça criminal, conforme o caso, a conduta do agressor poderá caracterizar crimes contra a honra, como a difamação e injúria, contra a liberdade individual, em caso, por exemplo, de constrangimento ilegal ou ameaça.

O que o trabalhador pode fazer – O trabalhador que suspeitar que está sofrendo assédio moral em seu ambiente de trabalho deve procurar seu sindicato e relatar o acontecido, assim como a órgãos como o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Superintendência Regional do Trabalho. Ele também pode recorrer ao Centro de Referência em Saúde dos Trabalhadores, que presta assistência especializada aos trabalhadores acometidos por doenças ou agravos relacionados ao trabalho. Para comprovar a prática de assédio, é recomendado anotar todas as humilhações sofridas, os colegas que testemunharam o fato, bem como evitar conversas sem testemunhas com o agressor. Buscar o apoio da família e dos amigos é fundamental para quem passa por um processo de assédio moral.



sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Alguns portugueses pedem que papa não prestigie centenário de Fátima

Os "pastorinhos" de Fátima

A matéria foi publicada no El País de 26/11/16:

Fátima: milagre, mentira e/ou negócio

Um abaixo-assinado pede que o papa Francisco não respalde com sua visita a misteriosa aparição na cidade portuguesa

JAVIER MARTÍN

O papa Francisco visitará Portugal no ano que vem para comemorar o centenário da aparição da virgem a três pastorzinhos na localidade de Fátima, segundo a Igreja Católica.

O anúncio motivou um manifesto intitulado Contra a Credibilização do “Milagre” de Fátima, que está recolhendo assinaturas via Internet para que o pontífice visite o que quiser, mas que não perpetue essa história. Já são mais de 600 assinaturas em poucos dias, entre elas a de um sacerdote, além de antropólogos e personalidades da sociedade civil, como o músico Pedro Barroso, um de seus porta-vozes.

O abaixo-assinado não se opõe à visita nem à Igreja Católica, e sim, segundo os signatários, à propagação de algo infundado. “O milagre é um embuste, uma farsa, uma má encenação com cem anos, tempo suficiente para ter desmascarado o que hoje em dia é um negócio”, declarou Barroso à agência Lusa.

“O papa Francisco é uma personalidade que merece algum respeito nosso por muitas atitudes em favor de uma Igreja mais moderna, uma Igreja de verdade, uma Igreja Católica de grande responsabilidade, e muitas vezes com intervenções sociais e públicas de grande valor. Como vai referendar uma coisa destas?”, pergunta-se Barroso.

Os signatários pedem a Francisco que, se visitar Fátima, se muna do açoite para expulsar os vendilhões do templo que, no entender deles, é o que virou o santuário edificado no lugar das supostas aparições aos pastores, visitado por milhares de pessoas anualmente.

O manifesto recomenda uma série de livros sobre o que realmente ocorreu, como Fátima Nunca Mais (1999) e Fátima S/A (2015), do padre Mário do Oliveira, signatário do manifesto, e ressalta que a época do suposto milagre era marcada por um “grande obscurantismo cultural e com evidente aproveitamento dessa rústica ignorância” por parte da Igreja

“Não é preciso um grande esforço”, diz o texto, “para chegar a esta conclusão, nem grande erudição teológica para analisar o caso. A evidência do logro fica bem clara, bastando, no essencial, ler alguns documentos oficiais e alguns livros de pessoas – algumas assumidamente católicas – com autoridade na matéria [...] para concluir pela sua total inconsistência”.

O abaixo-assinado diz que, seguindo a postura de seriedade que vem adotando em seu pontificado, “o melhor serviço que o papa Francisco prestaria à verdade histórica, seria NÃO vir a Fátima, assim desmistificando o chamado ‘milagre dos pastorinhos’, recusando colaborar com ele, ou dar-lhe o seu aval”.

Francisco será o quarto Papa a visitar Fátima, depois de Paulo VI (1967), João Paulo II (1982, 1991 e 2000) e Bento XVI (2010).



quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

STF decide que aborto até 3º mês de gestação não é crime


Reviravolta na Suprema Corte. A matéria é do ConJur:

Interromper gestação até 3º mês não é crime, decide 1ª Turma do STF em HC

Brenno Grillo

A proibição ao aborto é clara no Código Penal brasileiro, mas deve ser relativizada pelo contexto social e pelas nuances de cada caso. Por exemplo, a interrupção da gravidez é algo feito por muitas mulheres, mas apenas as mais pobres sofrem os efeitos dessa prática, pois se submetem a procedimentos duvidosos em locais sem a infraestrutura necessária, o que resulta em amputações e mortes.

Essa é a síntese do voto-vista proferido pelo ministro Luis Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, nesta terça-feira (29/11), no julgamento do Habeas Corpus 124.306. Com o voto de Barroso, a 1ª Turma da corte, por maioria, entendeu que a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação não pode ser equiparada ao aborto. No caso, duas pessoas foram presas acusadas de atuar em uma clínica de aborto. A decisão não é vinculante.

Sobre as prisões — que foram anuladas de ofício porque o HC foi visto como substitutivo do recurso ordinário constitucional —, Barroso destacou não haver razão para mantê-los detidos, pois todos têm endereço fixo, são réus primários e não apresentam riscos à ordem pública ou à instrução criminal. O ministro também ressaltou que os acusados têm comparecido aos atos de instrução e cumprirão pena em regime aberto se forem condenados.

Os réus foram presos preventivamente em 2013, mas soltos pelo juízo da 4ª Vara Criminal da Comarca de Duque de Caxias (RJ). Um ano depois, foram detidos novamente após recurso do Ministério Público estadual à 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do RJ. A reforma na decisão motivou questionamento ao Superior Tribunal de Justiça, que não conheceu do pedido de liberdade dos acusados.

Criminalização desproporcional Já sobre o aborto, Barroso disse que a criminalização de atos como o julgado ferem diversos direitos fundamentais, entre eles, os sexuais e reprodutivos da mulher. “Que não pode ser obrigada pelo Estado a manter uma gestação indesejada.”

O ministro também ressaltou a autonomia da mulher, o direito de escolha de cada um e a paridade entre os sexos. Mencionou ainda a questão da integridade física e psíquica da gestante. “Que é quem sofre, no seu corpo e no seu psiquismo, os efeitos da gravidez.”

Especificamente sobre a condição social da mulher que decide abortar, Barroso criticou o impacto da criminalização do ato sobre as classes mais pobres. “É que o tratamento como crime, dado pela lei penal brasileira, impede que estas mulheres, que não têm acesso a médicos e clínicas privadas, recorram ao sistema público de saúde para se submeterem aos procedimentos cabíveis. Como consequência, multiplicam-se os casos de automutilação, lesões graves e óbitos.”

A criminalização, continuou Barroso, viola o princípio da proporcionalidade por não proteger devidamente a vida do feto ou impactar o número de abortos praticados no país. “Apenas impedindo que sejam feitos de modo seguro”, disse. “A medida é desproporcional em sentido estrito, por gerar custos sociais (problemas de saúde pública e mortes) superiores aos seus benefícios.”

Para impedir gestações indesejadas, em vez da criminalização, Barroso destacou que existem inúmeros outros meios, como educação sexual, distribuição de contraceptivos e amparo à mulher que deseja ter o filho, mas não têm como sustentá-lo. “Praticamente nenhum país democrático e desenvolvido do mundo trata a interrupção da gestação durante o primeiro trimestre como crime, aí incluídos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, França, Itália, Espanha, Portugal, Holanda e Austrália.”

Clique aqui para ler o voto do ministro Barroso.



quarta-feira, 30 de novembro de 2016

10.000 brasileiros mórmons vivem em Utah

O Templo - centro da devoção mórmon em Salt Lake City e no mundo.

Mesmo sem ser mórmon, tive o prazer de conhecer o Estado de Utah duas vezes, passando pela capital Salt Lake City em 2014 e 2015.

Utah é uma terra de grandes belezas naturais, com seus lindos e imensos parques nacionais, além dos pontos turísticos que fazem parte do inconsciente coletivo mundial como o Monument Valley.

Na segunda oportunidade, tomei mais tempo para conhecer um pouco da capital, em especial a praça do templo onde estão instalados os principais órgãos diretivos dos mórmons no mundo, além do Templo que é sede da religião.

Quando puder, ainda que de passagem, visite o Utah e a sempre bela e 

As fotos que ilustram esta matéria são de minha autoria e os artigos abaixo foram escritos por Cláudia Trevisan e publicados no Estadão de 27/11/16:

Dez mil brasileiros vivem o ‘sonho americano mórmon’

No centro mundial da religião, ainda reside o veterano Cláudio dos Santos, de 101 anos, que embarcou para Salt Lake City em 1955

SALT LAKE CITY - Ser mórmon no Brasil de 1955 era integrar uma minoria de 500 pessoas, entre as quais estava Cláudio dos Santos. Naquele ano, ele decidiu se mudar com a família para Salt Lake City, o centro mundial da religião fundada nos Estados Unidos na década de 1820. Aos 101 anos, Santos é o veterano dos cerca de 10 mil brasileiros que vivem na cidade, a maioria dos quais integrantes da igreja.

Em 1955, ele embarcou com a mulher e os três filhos para Miami em uma Fortaleza Voadora, um avião militar de quatro motores usado na 2.ª Guerra Mundial. De lá, eles viajaram por uma semana de ônibus até Utah, o Estado do Oeste americano cuja paisagem árida e montanhosa foi um dos cenários preferidos para os clássicos filmes de cowboy hollywoodianos.



Placa de boas-vindas na fronteira sul do Estado, com o Arizona, já anunciando o esplendor do Monument Valley a seguir.


Quando se fala no País, a especialidade lembrada é o rodízio

Feijoada ainda aparece, mas em segundo plano; grande parte dos funcionários é brasileira e busca aprender inglês

SALT LAKE CITY - Rodízio é sinônimo de Brasil nos Estados Unidos e, em Salt Lake City, a concorrência de espetos é acirrada. Na capital do Estado de Utah também há lugares de prato feito, feijoada, pudim e brigadeiro, regados a guaraná. Com o nome gringo de Rodizio Grill, o restaurante da família Utrera abriu as portas na cidade em 1998, quando a rede que já tem 19 endereços no país ainda engatinhava.

Dos 70 funcionários da empresa em Salt Lake City, 70% são brasileiros, na maioria integrantes da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, segundo Nicolas Utrera, filho do fundador do negócio, Ivan Utrera. Entre eles está Diego Souza, que se batizou como mórmon em 2007, quando tinha 16 anos, e se mudou para a capital de Utah em 2014.

Depois de estudar inglês por alguns meses, ele entrou na LDS Business College, a escola de negócios ligada à igreja –a sigla de três letras se refere à versão em inglês de Santos dos Últimos Dias. Os mórmons são a força dominante em Utah e representam 60% da população do Estado. Além da igreja, eles controlam algumas das melhores instituições de ensino locais e oferecem a seus seguidores estrangeiros as mesmas anuidades que cobram dos americanos – em geral, os estudantes internacionais estão sujeitos a preços mais elevados.

Souza estuda contabilidade e se formará no fim de 2017. No ano passado, ele se casou com uma americana que conheceu na igreja, com a qual pretende ter o primeiro filho em breve. “No Brasil, eu era pobre. Aqui eu também sou pobre, mas tenho carro e consigo viajar para o exterior e pensar em comprar uma casa”, disse Souza, que trabalha como garçom e churrasqueiro. Enquanto ele falava com a reportagem, um de seus colegas passou anunciando o resultado de um jogo entre Corinthians e Flamengo: “2 a 1 para o Coringão!”.

Diego Cavalcante Quiroga, de 32 anos, chegou a Salt Lake City em abril com a mulher, Jessica, e os dois filhos, de 5 e 2 anos. Mórmon como o xará, ele é garçom da Rodizio Grill, estuda inglês e pretende entrar em uma faculdade de Utah. “Para ter algo melhor, eu precisava do inglês e vim para cá para aprender mais rápido”, disse Quiroga, que é de uma família mórmon.

Feijoada. O Rodizio Grill é um dos pelo menos seis restaurantes brasileiros que existem na região de Salt Lake City – em sua maioria churrascarias. Uma das exceções é o Sweet Spot, da família Drogueti, especializado em feijoada, salgadinhos, pratos feitos e doces brasileiros. Atrás do balcão, o patriarca Reinaldo Drogueti atende cerca de 150 brasileiros a cada sábado em busca de feijoada.

A cearense Lucy Filizola, que não pertence ao mundo dos restaurantes, se mudou para Salt Lake City em 1997, quando tinha 17 anos. “Minha mãe queria que eu viajasse”, disse a filha de uma família mórmon de classe média alta do Ceará. A brasileira se casou no ano seguinte e teve seis filhos, seguindo a tradição de grandes famílias da igreja. Formada em contabilidade na LDS Business College, Lucy é separada e cria sozinha os seus seis filhos, um dos quais tem paralisia cerebral. “Não tenho empregada e todos ajudam com o irmão na cadeira de rodas”, disse a cearense, dona de uma empresa de consultoria. “Não é como no Brasil. Aqui, eles são autossuficientes e cada um é responsável por suas coisas.”

Saída em missão é ritual de ‘transição’ para a vida adulta

Aos 17 anos, Vitor, o filho de Solange Cruz e de Silvio, prepara-se para seus dois anos como missionário, um ritual que todos os homens da igreja são encorajados a desempenhar. As mulheres servem por períodos menores – 18 meses – e representam um número crescente dos jovens mórmons que tentam converter pessoas ao redor do mundo. Atualmente, a igreja tem 75 mil missionários, alguns dos quais trabalhando nos Estados Unidos.

Há 16 meses, a brasileira Luiza Renta saiu de Porto Seguro para ser missionária em Salt Lake City. Sua função é ficar na Praça do Templo para explicar a visitantes os princípios e a história da igreja, em um misto de relações públicas e busca de convertidos para a religião. Missionárias de diferentes países trabalham no local, levando crachás com suas respectivas bandeiras. Como os homens, elas andam em dupla. A atual companheira de Renata é da Mongólia, mas o par muda a cada duas semanas. “Não trocaria os 18 meses por nada.”


Placa de boas-vindas na fronteira norte de Utah, com o Idaho, na rodovia I-15 que leva a Salt Lake City.


Clã Neeleman fica entre EUA e Brasil há 60 anos

Missionários chegaram ao País na década de 1950; família reúne hoje cerca de 80 pessoas

SALT LAKE CITY, UTAH - “Você voltaria para o Brasil comigo?” foi a primeira pergunta que Gary Neeleman fez à então namorada, Rose Lewis, quando retornou a Utah, depois de servir por dois anos como missionário mórmon no interior do Paraná e Santa Catarina. “Mas você acabou de voltar”, ela respondeu. “Sim, mas ainda não acabei”, justificou ele.

O ano era 1956. Dezoito meses mais tarde, o casal chegava a São Paulo com seu filho de 4 meses, John. Nos dez anos seguintes, Neeleman trabalharia como correspondente da agência de notícias United Press Internacional no Brasil. Nesse período, 3 dos 7 filhos do casal nasceram no Hospital Samaritano, na capital paulista, entre os quais David, dono da empresa de aviação Azul.

Sessenta e dois anos depois de pisar pela primeira vez no Brasil, Neeleman ainda não terminou sua história com o País. Desde 2001, ele é cônsul honorário do Brasil em Salt Lake City, responsável por atender uma comunidade estimada em 20 mil pessoas nos Estados de Utah, Idaho, Wyoming, Montana e Oeste do Colorado. Nove de seus descendentes foram missionários no Brasil, entre os quais um neto e uma neta que ainda estão servindo em São Paulo e no Rio Grande do Sul.

Além dos sete filhos, Neeleman e Rose têm 35 netos e 21 bisnetos, a maioria dos quais detentores de cidadania americana e brasileira. Com maridos e mulheres que foram agregados à família, o clã é formado por 80 pessoas.

“Eu gostei do Brasil e gostei dos brasileiros”, disse Neeleman, lembrando sua experiência de meados da década de 1950. Aos 82 anos, ele caminha com ajuda de uma bengala fabricada por outro empreendedor da família, Mark, dono de uma fábrica de produtos de bambu no Brasil.

Ao lado de Rose, que tem 81 anos, Neeleman fez seis viagens à Amazônia nos últimos anos para entrevistar pessoas e levantar dados para dois dos quatro livros sobre o Brasil que escreveram juntos: Trilhos na Selva, de 2011, e Soldados da Borracha, publicado no ano passado.

O primeiro conta a história fracassada da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, no início do século 20, na qual cerca de 10 mil trabalhadores faleceram, vítimas de doença tropicais. O outro fala da história de milhares de seringueiros que morreram na Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial para garantir o crucial fornecimento de borracha para as forças aliadas durante o conflito. Em uma das viagens que fizeram à Rondônia para levantar dados para os livros, Rose e Gary passaram uma noite na estrada, quando o carro em que os levava a Jaci-Paraná quebrou.

Guerra Civil. O mais recente livro do casal, A Migração Confederada ao Brasil, conta a história dos americanos que imigraram para o Brasil no fim do século 19, deixando o Sul dos Estados Unidos, depois da derrota para o Norte na Guerra Civil americana (1861-1865).



terça-feira, 29 de novembro de 2016

O desafio de (ainda) ser cristão no Iraque


Um dia, no futuro, quando alguém escrever a história atualizada do cristianismo, pelo menos um capítulo especial será reservado para o exemplo de força e fé que poucos, mas valorosos cristãos estão vivendo (e sobrevivendo) diariamente no Oriente Médio.

A matéria é da BBC Brasil:

‘Destruam nossos filhos antes de nossas igrejas’: cristãos iraquianos falam sobre devastação deixada pelo EI em Mossul

Quando o Estado Islâmico (EI) avançou sobre o território do Iraque, em 2014, milhares de cristãos foram os primeiros a deixar o país. Os poucos que restaram sob domínio do EI foram mortos ou forçados a se converter ao Islã. Agora, com a ofensiva do exército iraquiano sobre o local, alguns cristãos estão retornando às suas casas – e à sua religião.

Mossul, segunda maior cidade do Iraque, foi tomada pelo EI em junho de 2014. Localizada em uma província rica em petróleo e próxima da Síria - e das posições do EI no deserto - a cidade se tornou símbolo do poder dos extremistas. Foi ali que seu líder máximo, Abu Bakr al-Baghdadi, proclamou um "califado".

Por isso, desde o dia 17 de outubro, uma força de ataque formada por 50 mil combatentes iraquianos, entre soldados, guerrilheiros peshmerga (como são conhecidos os curdos iraquianos), tribos sunitas e milicianos xiitas – assistidos por aviões militares e consultores de uma coalizão liderada pelos Estados Unidos – luta para reconquistar Mossul.

A batalha ainda está longe do fim, mas muitos têm conseguido escapar em meio aos combates e fugir para campos de refugiados ou para outras cidades no Iraque.

Uma delas é a cidade de Qaragosh. No mês passado, o exército iraquiano retomou o controle sobre a cidade, considerada a mais importante para os cristãos locais antes da invasão. Lá, as igrejas foram destruídas, estátuas de Maria decapitadas e crucifixos queimados pelo EI.

“Eu preferia perder meus filhos do que ver a igreja assim”, disse uma mulher à BBC.

Já Ismail, um jovem de 16 anos, e sua mãe foram forçados pelo Estado Islâmico a se converter ao Islã. “Eles me disseram ‘não há outro Deus além de Alá’ e ‘você será um muçulmano’. Eu disse ‘não há outro Deus além de Jesus’ e ele me bateu”, contou.

"Ele apontou uma arma na minha cabeça e disse à minha mãe 'se você não se converter ao Islã, vamos matar seu filho'", disse Ismail à BBC.

De volta a uma igreja perto de sua casa, Ismail espera começar uma nova vida. Mas para ele - e para milhares de outros cristãos no Iraque - o futuro ainda é incerto.



sábado, 26 de novembro de 2016

Adeus, Russell Shedd

Hoje foi um dia triste para os protestantes brasileiros, em especial os batistas, que tinham em Russell Shedd uma referência ímpar em termos de conhecimento e dignidade.

Tive o prazer de conhecê-lo no carnaval de 1986, quando participei de um retiro interdenominacional no Recanto Sal em Americana (SP), então de propriedade da Cruzada Estudantil e Profissional para Cristo (CEPC), organização missionária de grande relevância no século XX, fundada por Bill Bright (1921-2003).

Foram dias de profunda comunhão e intenso aprendizado, e jamais me esquecerei das preleções de Russell Shedd sobre o evangelho de João, quando ele explicava os textos com aquela fala mansa, folheando lentamente as páginas da Bíblia que ele próprio editou pela Vida Nova.

Vai-se o servo e fica o legado, portanto.

Curioso que ele tenha falecido no mesmo dia em que Fidel Castro teve sua morte anunciada. Shedd aos 87 anos, Castro aos 90 anos de idade.

Duas vidas que, cada um à sua maneira, influenciaram o século XX e ajudaram a moldar o mundo em que vivemos, para o bem ou para o mal, segundo a ótica de quem se sentia abençoado ou ameaçado por cada um deles.

Tive o prazer de visitar Cuba em 2000. A ilha ainda guardava os sinais de uma época em que a Guerra Fria entre americanos e soviéticos dividia o mundo entre "bons" e "maus" ao gosto do freguês.

Senti-me bem, entretanto. Havia um nítido desejo de mudar, mas não se sabia como. O embargo econômico que o governo americano lhes havia imposto desde os tempos da Revolução Cubana parecia ser o mais importante fator limitador para uma mudança de regime.

Lendo a mensagem do presidente dos EUA, Barack Obama, ao povo de Cuba, dizendo que a História julgará Fidel e que o povo cubano está no limiar de novos (e melhores) tempos, fica a esperança de que aquele povo digno e batalhador encontre o lugar de honra que merece na comunidade das nações.

Por seu lado, Russell Shedd conquistou o seu lugar no coração de cristãos brasileiros e de outras nações com a sua humildade e seu enorme amor pela Palavra de Deus, da qual foi um dos maiores e melhores pregadores nas muitas décadas em que esteve entre nós.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Sinos incomodam em Brasília

E não são os do apocalipse, que - apesar de tudo - ainda não chegou por aquelas plagas.

A informação foi publicada no Estadão em 13/11/16:

Tribunal de Brasília manda igreja ‘limitar’ volume dos sinos

Badaladas incomodam vizinho da São Pedro de Alcântara, no Lago Sul; Corte impõe nível de intensidade sonora em 50 decibéis

Sarah Teófilo

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal mandou ‘limitar’ o volume dos sinos da Igreja São Pedro de Alcântara, no Lago Sul de Brasília, em ação movida por um vizinho do templo contra a Mitra Arquidiocesana. A sentença, da 6.ª Turma Cível do TJ/DF, prevê que os sinos badalem no limite do nível de intensidade sonora estabelecido pelas normas de controle de ruídos, ou 50 decibéis.

A ação foi proposta por um vizinho da São Pedro de Alcântara, que alega morar na região há mais de 30 anos. Segundo ele, há mais de um ano um novo maquinário de som foi instalado e passou a incomodá-lo.

De acordo com o vizinho, os sinos são tocados diariamente, de quatro a cinco minutos por vez, quatro a cinco vezes ao dia, e o têm impedido de realizar atividades do dia a dia. Ele afirma que as badaladas o irritam e provocam cansaço e ‘outros problemas de saúde’.

Em sua defesa, a igreja afirmou que os sinos, instalados em 1977, não tocam nos ‘horários de descanso’ e que só em 2009 os propulsores foram substituídos, ‘mas sem aumento sonoro’.

A igreja afirmou que, ao receber a correspondência de um dos autores da ação, reduziu a duração das badaladas para cerca de dois minutos.

Em 1.ª instância, o juiz da 16.ª Vara Cível de Brasília, julgou improcedente o pedido do vizinho sob argumento de que se trata de ‘liberdade religiosa’ e por ‘não ter constatado qualquer abuso de direito’.

No âmbito do Tribunal de Justiça do DF, o relator da 6.ª Turma Cível, desembargador José Divino de Oliveira, acolheu apelação do autor da ação e condenou a igreja a reduzir o volume dos sinos ”a fim de assegurar a convivência harmônica entre ambos’.

COM A PALAVRA, A MITRA ARQUIDIOCESANA DE BRASÍLIA

Um dos advogados da Mitra Arquidiocesana de Brasília, João Paulo de Campos Echeverria, explicou à reportagem do Estadão que a decisão da 6.ª Turma Cível do Tribunal de Justiça do Distrito Federal ‘nada mudou a situação. Segundo ele, ‘os sinos sempre tocaram nos limites impostos pela legislação’.

Echeverria observou ainda que foi interposto no processo recurso por ambas as partes, tanto pela igreja quanto pelo vizinho.



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Miguel Falabella vira "deus" no teatro


É arte ou profano? Decida-se lendo a matéria do Estadão:

Miguel Falabella estreia 'God', peça que ironiza e humaniza o todo-poderoso

Trata-se de uma versão traduzida e adaptada pelo próprio ator e diretor

Ubiratan Brasil

Além de ser brasileiro, Deus ostenta uma elegante cabeleira grisalha, bigode e cavanhaque. “E, como Ele mesmo gosta de dizer, é egocêntrico, sexista, genocida”, comenta o ator, diretor e dramaturgo Miguel Falabella que, no papel do Todo-Poderoso, estreia nesta sexta-feira, dia 18, a peça God, no Teatro Procópio Ferreira.

Trata-se de uma versão traduzida e adaptada pelo próprio Falabella (responsável também pela direção) do espetáculo escrito pelo americano David Javerbaum que, na Broadway, foi encenada por Jim Parsons (o Sheldon do seriado The Big Bang Theory) e, depois, por Sean Hayes (conhecido pelo hilariante papel de Jack McFarland, de Will & Grace). “Enquanto o Deus deles é mais frívolo, o meu é mais poderoso, até por causa da minha voz”, conta Falabella que, antes de chegar a São Paulo, apresentou o espetáculo em Niterói, Belo Horizonte, Curitiba, Campinas, Brasília e Porto Alegre, como aquecimento. “Foi emocionante. Sem contar os musicais, desde Louro, Alto, Solteiro, Procura (de 1994), eu não era recebido tão calorosamente pela plateia. Cheguei a chorar em Porto Alegre.”

O motivo é simples - ao longo de uma vasta carreira, construída especialmente na televisão, Falabella cultivou uma fidelidade com o espectador baseada na confiança. Sua ironia rasgadamente crítica sempre traduziu com exatidão os anseios de seu público e, incrivelmente, mesmo os personagens mais insolentes, como Caco Antibes, do seriado Sai de Baixo, proferiam frases que bem poderiam ser repetidas pela plateia.

Em God, a situação se repete. Na peça, ele vive o Criador que, cansado do descaso da humanidade com a natureza e com os Dez Mandamentos, volta à Terra a fim de, à la Steve Jobs, criar o “universo dois ponto zero”, com uma interface mais bem resolvida. “Segundo suas próprias palavras, se o ser humano não se cuidar, em dez anos a Nokia vai apresentar o novo modelo de homem”, diverte-se. “Sem se esquecer da Bíblia em formado iPad.”

O texto da peça é ágil e se explica por um motivo prosaico: David Javerbaum começou escrevendo tuítes em que tratava, em tom de brincadeira, de passagens da Bíblia. Em seguida, ele reuniu o material e escreveu um livro, The Last Testament: A Memoir By God (O Velho Testamento: Uma Memória de Deus), que inspirou, por fim, a peça.

Em sua versão, Falabella criou um Deus mais mundano. “É um ser muito engraçado, que confessa suas limitações, sem esconder os lances mais horrorosos. Afinal, o que Ele fez a Abrão, incitando-o a sacrificar o próprio filho como teste de sua fé, é um ato maldoso”, explica o ator. “Mas o mais interessante do espetáculo é que o texto não fala de religião, mas do homem. Com isso, ninguém se sente ofendido.”

No espetáculo, Deus e seus dois arcanjos dedicados, Miguel (Magno Bandarz) e Gabriel (Elder Gattely), respondem a algumas das questões mais profundas que têm atormentado a humanidade desde a Criação, em apenas 90 minutos. Sem paciência com as confusões políticas, Ele oferece uma nova versão dos Dez Mandamentos, entre eles os seguintes: “Honrarás teus filhos”, “Separar-me-ás do Estado” e “Não me dirás o que devo fazer”.

Também não poderia faltar humor, característica marcante de Falabella, especialmente nos desabafos de Deus. “Ele fala sobre o dilúvio de uma forma muito engraçada, dizendo que deu um trabalho danado enxugar tudo aquilo para recriar a vida”, diz. “Deus também desmistifica a origem da humanidade ao revelar que, no início, eram dois homens, Adão e Jefferson, e que a mulher chegou depois.”

Como autor da versão nacional, Falabella não se esquivou de rechear o texto com citações locais, como a referência à Rua 25 de Março (“Gosto daquele barulho”) e, ao fazer um pot-pourri de várias canções, emendou músicas de Leonardo com Mara Maravilha. “Menciono também a revista Caras, quando Deus reclama de quando teve uma única chance de aparecer na capa: ‘A Ana Maria Braga e o diabo do Louro José ficaram na minha frente na foto’.”

Apesar do tom de comédia, o espetáculo sofre uma reviravolta perto de seu final. É quando Deus recrimina os atos destrutivos do homem contra a natureza. “Ele é firme ao falar que estamos rumando contra um muro e sem freio”, comenta Falabella. “Abro mão do humor nesse momento em que Deus culpa o homem pelo apocalipse. Ao fazer minha versão, acabei retirando uma citação de José Saramago, que se encaixa bem: ‘A vida é um manual de maus costumes’.”

GOD

Teatro Procópio Ferreira. Rua Augusta, 2823. Tel.: 3083-4475. 6ª, 21h. Sáb., 18h e 21. Dom., 18h. R$ 90 / R$ 150. Até 18/12.



terça-feira, 22 de novembro de 2016

Parabéns, evangélicos! Seu apoio a Temer fez o preço da pinga baixar 40%

Vejam o lado bom, queridos evangélicos! Seu apoio entusiasmado a Michel Temer pode ser festejado com a "caipirinha cóspel" mais barata dos últimos tempos.... uhulll!

A notícia é da Agência Brasil:

Impostos podem cair 40% com volta da cachaça ao Simples, prevê setor

Mariana Branco

Os micro e pequenos produtores de cachaça terão redução de cerca 40% nos impostos sobre a bebida quando o setor retornar ao Simples Nacional, regime tributário simplificado para pequenos empresários. A estimativa é do Instituto Brasileiro da Cachaça (Ibrac). A inclusão da bebida, ao lado do vinho e da cerveja artesanais, foi sancionada pelo presidente Michel Temer em 27 de outubro.

O aval de Temer foi dado em meio a um pacote de medidas do governo chamado Crescer sem Medo. A possibilidade de opção pelo Simples começa a valer somente em 2018. As medidas também ampliaram de 60 para 120 meses o prazo de parcelamento de dívidas por empresas optantes do Simples e elevou de R$ 3,6 milhões para R$ 4,8 milhões o teto de faturamento para participar do regime.

O diretor executivo do Ibrac, Carlos Lima, destaca que a cachaça saiu do Simples Nacional em 2001, junto com outros setores. Na avaliação dele, a resistência ao retorno da atividade ao regime simplificado tem relação com preconceito, pelo fato de tratar-se de uma bebida alcóolica.

De acordo com Lima, atualmente há cerca de 1,5 mil fabricantes de cachaça registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Desses, 90% são micro e pequenos produtores. Ele acredita, contudo, que o retorno ao Simples em 2018 aumentará essa contagem.

“O censo agropecuário do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] de 2006 levantou 11.124 [produtores de cachaça]. Ou seja, temos uma informalidade de cerca de 80%. Com certeza [o número de produtores clandestinos] vai diminuir com a possibilidade de aderir ao Simples”, diz.

Para Lima, a redução da informalidade trará benefícios. “Com isso, é possível aumento da arrecadação tributária e da qualidade da cachaça. Esses produtos informais não estão sujeitos a um controle de qualidade. Agora, passarão a ser fiscalizados pelo órgão competente”, ressalta.

Edição: Juliana Andrade



segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma budista tenta acalmar Bolsonaro

A matéria foi publicada no Estadão de 20/11/16:

Media training ensina Bolsonaro a 'olhar para si'

Olga Curado agora dá aulas a deputado do PSC, políticos e empresários implicados na Lava Jato

Gilberto Amendola

Entre os políticos que já fora ajudados por Olga Curado estão nomes como o de Lula, Dilma e Aécio

Ensinar o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) a se ouvir, a compreender que tudo aquilo que ele diz pode ter consequências na vida de outras pessoas; ensiná-lo a olhar para dentro de si e a encontrar um ponto de equilíbrio – tudo isso, claro, usando técnicas do Aikidô, arte marcial que prega os princípios da não violência.

Parece uma missão impossível, mas esse já foi um dos trabalhos da especialista em media training, jornalista, poeta e budista Olga Curado. Sim, Bolsonaro foi um dos políticos nacionalmente conhecidos que, ao longo dos últimos 16 anos, procurou melhorar a própria comunicação tendo se socorrido dos serviços de Olga (o ex-presidente Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e o senador Aécio Neves também já foram ajudados por ela).

A ética profissional não permitiu que Olga contasse detalhes das sessões com o deputado linha dura. O que não impediu que a reportagem imaginasse o excelentíssimo se atirando e rolando no tapete macio do escritório da especialista – eventualmente utilizado para dinâmicas físicas. “É importante ensinar a cair para que a pessoa aprenda a se levantar. Proponho exercícios de equilíbrio físico. A pessoa tem que cair para perceber o seu ponto de equilíbrio. Cair no chão, rolar e perceber como é rígida. No filme O Discurso do Rei, o coach usa técnicas parecidas com essa para melhorar a comunicação do rei gago”, diz Olga.

A reportagem procurou Bolsonaro para que o próprio comentasse as aulas, mas o pedido parou na assessoria do deputado que, automaticamente e sem ouvi-lo, avisou que ele não falaria sobre o assunto.

Ainda sobre Bolsonaro, Olga comenta que ele é um personagem curioso – com crenças que ela não discute. “Ele tem o público dele. O importante é que políticos como Bolsonaro tenham a medida clara do que falam. Às vezes, políticos falam sem a noção das consequências. Falam e se surpreendem com o efeito nocivo do ódio. Se surpreendem com a interpretação que fazem do que eles dizem. É preciso cuidado com a força bruta da inconsciência”, diz.

‘Água no pescoço’. Sem revelar especificidades de seus clientes, Olga conta como muitos dos políticos chegam em seu escritório. “Normalmente me procuram quando a água já está batendo no pescoço”, fala. Não à toa, citados na Operação Lava Jato (políticos e empresários) estão entre os seus clientes mais recentes. “Claro, o meu trabalho acontece antes do caso chegar em Curitiba”, avisa. “Mas eu preparo, por exemplo, quem vai dar algum depoimento em CPI ou explicações públicas. Tento passar técnicas para que eles tenham autocontrole mesmo diante das perguntas mais duras. Até para dizer que não vai responder é preciso algum preparo”, lembra.

Mas existiria alguma dica básica que poderia ser aplicada para a maioria dos políticos em maus lençóis? “Não adianta querer ser simpático, seduzir os interlocutores ou fingir ser íntimo demais. Não precisa cometer suicido público, mas não se deve enrolar. Não ajudo políticos a se esconderem. Eles precisam assumir responsabilidades por aquilo que pensam ou querem. Não ensino a mentir. Não faço teatro”, afirma Olga.

Para ela, o que faz muitos homens públicos apresentarem problemas de comunicação é a falta de clareza em seus propósitos. “Quando pergunto por que determinado político quer ser prefeito ou governador, ele me diz que é pra ‘melhorar a vida das pessoas’. Ok, tudo bem. Isso é mais ou menos verdade porque muitos não têm uma agenda concreta. A qualidade da comunicação tem a ver com coerência. Não adianta exercício de retórica. Ou o político explica como ele pretende ajudar as pessoas ou o eleitor percebe. O eleitor tem uma sensação quando o que se diz é verdadeiro ou apenas um exercício artístico, uma elaboração artificial”, diz.

Segundo Olga, a nossa “cultura do líder” faz com que muitos tenham vergonha de dizer coisas como ‘não sei’. “O mais fácil é a gente ouvir: ‘isso eu não sei, mas na minha opinião...’ Essa é a síndrome da opinião sobre assuntos que as pessoas não sabem. Políticos sofrem disso e, por isso, sofrem com a exposição pública”, conta. “Tento confrontá-los para que não assumam os dois personagens mais manjados do comportamento político: o da vítima ou o do super-herói. Nenhum funciona. Quando se escondem atrás desses personagens, só falam para convertidos. Portanto, não ganham eleições majoritárias.”

Além das questões conceituais, a especialista trata de problemas bastante concretos, como o de ensinar como um político deve respirar, como olhar para as pessoas, segurar um olhar sem constrangimento, como não parecer arrogante, usar as mãos de uma maneira correta, manter a postura e ter a consciência do próprio corpo. “Muitos tomam um susto quando se olham. Dizem: ‘ eu não sabia que era assim. Trata-se de um processo de educação não verbal”, afirma.

Questionada sobre políticos que teriam o domínio da arte da comunicação, Olga cita dois que não foram seus alunos: “Tem um que é bastante óbvio: o Obama. Ele sabe criar um ambiente empático, sabe dar a atenção devida aos seus interlocutores, tem clareza e etc.”.

Cunha. O outro é um pouco mais surpreendente. “Eduardo Cunha. Ele não precisa de aula. Acho que já nasceu sabendo. Não é um julgamento de conteúdo, mas de forma. Ele tem a fala clara e sabe o que quer quando está se expressando. Na votação do impeachment, ele ouvia os maiores xingamentos contra ele e apenas repetia: ‘Excelência, por favor, o seu voto’”.



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